O chavismo costuma recorrer à expressão “novo momento político” para se referir ao impacto da captura de seu líder, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, e às decisões adotadas desde então, que incluem uma profunda reformulação do gabinete e a aprovação de leis com um ambiente mais favorável ao investimento internacional.

A autorização para a realização de exercícios militares do Comando Sul na sede da embaixada dos Estados Unidos em Caracas, na semana passada, é o exemplo mais recente dessa nova realidade — uma situação inimaginável no fim de 2025, mas que também revela as prioridades do regime que chegou ao poder há 27 anos.

Com exceção do desaparecimento do discurso anti-imperialista do topo do poder, tudo continua mais ou menos igual na Venezuela.

Até 25 de maio, ainda havia 409 presos políticos, de acordo com os dados reunidos pela ONG Foro Penal, apesar das libertações ocorridas desde janeiro e da tímida abertura política, que permitiu o retorno de vários líderes da oposição e a saída da clandestinidade de outros.

Ainda não há uma data concreta para a realização de eleições presidenciais, e tampouco foi desmontada a estrutura repressiva que deu origem às duras condenações da Missão Internacional Independente de Determinação dos Fatos da ONU e a uma investigação por possíveis crimes contra a humanidade perante o Tribunal Penal Internacional, que o governo considera uma instrumentalização dos mecanismos da justiça internacional para fins políticos.

Agora, Delcy Rodríguez lidera uma fase que, apesar das críticas dentro do chavismo, dá continuidade à tradição de seus antecessores de fazer concessões táticas com o objetivo final de permanecer no poder. E conta, no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com um aliado inesperado.

Preservação do poder político

Há algumas semanas, a CNN revelou que, antes da captura de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, Venezuela e EUA participaram de conversas mediadas pelo Catar sobre como o país poderia ser caso Maduro deixasse o poder.

Nessas conversas, segundo o artigo, jamais se considerou o nome da líder oposicionista María Corina Machado para conduzir o país sul-americano, apesar do apoio aberto da vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025 à formação de uma coalizão militar internacional para desalojar o sucessor de Hugo Chávez.

Já é história a surpresa da oposição venezuelana horas depois da espetacular captura de Maduro e sua esposa Cilia Flores, quando Trump apoiou a continuidade de Rodríguez. Machado qualificou então a captura como “a hora da liberdade”.

Parte da justificativa desse último retrocesso do chavismo em seus postulados ficou registrada em uma gravação publicada no YouTube.

Sete dias após a captura de Maduro, o ministro de Comunicação e Informação da Venezuela, Freddy Ñáñez, realizou uma reunião com comunicadores alinhados ao governo bolivariano.

Em um ambiente de caras sérias, Ñáñez delineou a estratégia geral de propaganda e as mensagens-chave que deveriam ser replicadas pelos presentes, que também tentavam explicar — e se explicar — o que havia ocorrido em 3 de janeiro.

No final da reunião, Ñáñez interrompeu uma das oradoras com um anúncio: Delcy Rodríguez aguardava para falar por telefone com os participantes.

Em poucos minutos, a presidenta interina contou como atuaria dali em diante (enquanto Washington permanecesse “respirando em seu pescoço”). “Temos que agir com paciência e prudência, com três objetivos muito claros, irmãs e irmãos. O primeiro é preservar a paz da República, o segundo é resgatar nossos reféns e o terceiro é preservar o poder político”, disse.

Quatro meses e meio depois daquela reunião, Rodríguez consolida esse poder político com o apoio de Washington, que precisa do fornecimento de petróleo venezuelano agora que está envolvido em uma campanha militar no Oriente Médio, enquanto espera o que possa acontecer com Trump nas eleições de meio de mandato em novembro.

Uma recente compilação de ensaios publicada pelo Centro de Política e Pesquisa Interamericana da Universidade de Tulane aponta que a transição para a democracia na Venezuela não é a prioridade da atual administração americana, que, apesar do plano de três fases anunciado pelo secretário de Estado Marco Rubio, parece sentir-se confortável com a tutela que exerce sobre os sucessores de Maduro. “Delcy Rodríguez está fazendo um trabalho fantástico”, disse Trump em várias ocasiões.

“Esta revolução é eterna”

Durante anos, o chavismo misturou suas proclamações grandiosas com avanços e recuos para se manter no poder. “Esta revolução é eterna”, disse Hugo Chávez em repetidas ocasiões em seus longos pronunciamentos.

O comandante-presidente fez essa afirmação em 2002, durante o breve golpe de Estado que enfrentou em abril daquele ano. Ao retornar ao poder, 48 horas depois de ser derrubado, Chávez defendeu a unidade do país com um crucifixo na mão, convocou o diálogo e, nas semanas seguintes, recuperou parte da enorme popularidade que possuía, de acordo com as pesquisas da época.

Enquanto isso, seus opositores buscavam uma forma de encerrar seu mandato por meio de iniciativas que foram, primeiro, claramente insurrecionais — como a paralisação da PDVSA, a estatal petrolífera, entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003 — e, depois, eleitorais.

A solução acordada pelo governo e pela oposição de então, com a mediação da OEA (Organização dos Estados Americanos) e de seu então secretário-geral, César Gaviria, além do Centro Carter, foi a convocação de um referendo revogatório — um mecanismo previsto na Constituição de 1999 — antes do término do mandato presidencial, em 10 de janeiro de 2007.

Com o acordo assinado no fim de maio de 2003, a Assembleia Nacional nomeou as novas autoridades responsáveis pela organização da consulta.

Dos cinco integrantes do Conselho Nacional Eleitoral, o chavismo garantiu três cadeiras, assegurando assim uma maioria que lhe permitiu determinar que o plebiscito fosse realizado em agosto de 2004.

Essa era a data-limite estabelecida pela Constituição para convocar o referendo e garantir, em caso de derrota do governo, a realização de novas eleições.

Apesar das denúncias de fraude da Coordenadora Democrática, jamais comprovadas, a coalizão oposicionista da época, Chávez permaneceu no poder graças, além disso, ao estabelecimento de um programa de clara inspiração cubana: as “missões sociais”, que criaram uma estrutura direta de transferência de recursos e de atendimento médico à base eleitoral chavista.

E voltou a se manter no cargo quando, apesar de ter perdido por margem estreita a consulta popular sobre sua proposta de reforma constitucional de 2007, apresentou novamente parte desse projeto, especificamente o relativo à reeleição contínua dos cargos de eleição popular, em fevereiro de 2009, como uma emenda ao contrato social que rege os venezuelanos.

Não apenas ganhou aquela consulta, como essa decisão lhe permitiu se candidatar às eleições realizadas em outubro de 2012.

Dois anos e meio após a morte de Chávez, Maduro sofreu uma derrota nas eleições legislativas de 6 de dezembro de 2015. Seus adversários, no entanto, não puderam exercer a maioria qualificada obtida nas urnas, que lhes teria permitido contar com os votos necessários para iniciar reformas de grande impacto no país.

A Sala Eleitoral do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) suspendeu a proclamação de três deputados do estado de Amazonas enquanto se resolvia a impugnação dos resultados. Como consequência, a oposição obteve apenas a maioria simples.

A nova diretoria do Parlamento seguiu adiante com os planos de empossar os novos deputados, assegurando que o TSJ respondia aos interesses do Governo, o que, por sua vez, deu margem para que o Partido Socialista Unido da Venezuela processasse a nova diretoria do Parlamento por desacato à decisão judicial.

Os temores da oposição não se baseavam apenas em certa percepção enraizada na opinião pública. Após revisar mais de 45.000 sentenças do tribunal máximo da Venezuela emitidas entre 2004 e 2013, um estudo liderado pelo advogado Antonio Canova, registrado no livro “O TSJ a serviço da revolução”, concluiu que o TSJ jamais proferiu uma sentença contra o regime chavista nesses anos.

O conflito de poderes foi vencido por Maduro. Em 2017, o então presidente decidiu convocar uma Assembleia Nacional Constituinte em resposta aos protestos desencadeados em março daquele ano.

O novo corpo atuou como um Parlamento paralelo e relegou a Assembleia Nacional oposicionista a um fórum político sem relevância. Enfrentando repressão e exílio, seus rivais ficaram bastante enfraquecidos.

Se até aquele ano tudo podia passar como a luta sem trégua entre dois polos em conflito, a decisão do Conselho Nacional Eleitoral de declarar a vitória de Maduro em 28 de julho de 2024, sem publicar os resultados da votação, inaugurou uma nova etapa na Venezuela marcada pela condenação da maioria dos governos do Ocidente, repressão, prisão ou clandestinidade da liderança política oposicionista, que culminou inesperadamente em 3 de janeiro.

“Superem, nos perdoem e voltem”

Enquanto o chavismo governante consolida agora seu inesperado vínculo com Washington, Delcy Rodríguez parece estar se encaminhando para continuar aspirando a liderá-lo nesta nova etapa, marcada pelos apelos para deixar para trás os duros anos de seu antecessor.

“Superem, nos perdoem e voltem”, pediu seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, à diáspora venezuelana no fim de abril, em uma intervenção que ficou marcada.

Um documento público respalda esses planos. Em meados daquele mês, o advogado Jihad M. Smaili registrou-se junto ao Departamento de Justiça como representante legal da presidente interina nos Estados Unidos. De acordo com o documento apresentado, Smaili poderia assessorá-la em vários aspectos, entre eles sua futura campanha para as eleições presidenciais da Venezuela.

Essa última reviravolta coloca o chavismo na mesma linha de outros grandes movimentos caudilhistas da América Latina, como o peronismo na Argentina. No fundo, ambos compartilham a mesma máxima: a orientação ideológica do governo pode mudar com o tempo. O fundamental é preservar o poder.

 



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