O ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Roberto Azevêdo, avaliou nesta semana o cenário da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos e afirmou que as novas tarifas impostas pelos americanos seguem uma estratégia que já vinha sendo sinalizada pela Casa Branca.

Em entrevista ao CNN Money, Azevêdo classificou o momento como parte de um “roteiro já pré-anunciado”. Segundo ele, os Estados Unidos adotaram uma decisão política de promover a reindustrialização do país por meio da elevação de tarifas de importação, com o objetivo de estimular investimentos domésticos e ampliar a arrecadação para financiar programas de incentivo econômico.

O ex-diretor da OMC explicou que as tarifas originalmente derrubadas pela Justiça americana em janeiro, por não se sustentarem sob o argumento de emergência nacional, estão sendo retomadas por outros instrumentos legais.

Entre elas estão uma tarifa horizontal de 10%, aplicada com base em legislação relacionada ao balanço de pagamentos, e sobretaxas específicas por país e setor, implementadas por meio da chamada Seção 301. No caso do Brasil, a investigação que fundamenta essa medida já estava em andamento desde o ano passado.

Embora avalie que a situação brasileira esteja ligeiramente melhor do que no auge da tensão comercial, Azevêdo alertou que o cenário continua preocupante. Segundo ele, a carga tarifária incidente sobre produtos brasileiros caiu de cerca de 50% para 37,5%, mas permanece em um patamar elevado.

“As tarifas anteriores somadas eram de 40 mais 10, era 50%. Agora nós estamos mais ou menos em 25 mais 12,5, que dá 37,5%”, afirmou.

Na avaliação do ex-diretor da OMC, uma tarifa dessa magnitude continua sendo suficiente para comprometer a competitividade de diversos setores exportadores. Ele destacou que, somadas às medidas da Seção 232 — justificadas pelos Estados Unidos por razões de segurança nacional e que atingem produtos como aço, alumínio, móveis e madeira —, as restrições afetam uma parcela significativa das exportações brasileiras.

“Na maior parte das vezes, você inviabiliza a exportação. Nós deixamos de exportar”, disse.

Azevêdo ressaltou ainda que o setor privado brasileiro permanece fortemente mobilizado para tentar minimizar os impactos das medidas. Segundo ele, entidades como a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a CNI (Confederação Nacional da Indústria) acompanham de perto as negociações e mantêm interlocução constante com autoridades brasileiras e americanas.

Apesar disso, ele alertou para o risco de que a disputa comercial seja incorporada ao debate eleitoral brasileiro. Para o ex-diretor da OMC, o foco das discussões deve permanecer nos impactos econômicos e na preservação dos empregos.

“O que nós não devemos é incorrer na tentação de usar tudo isso que está acontecendo com propósitos eleitorais”, afirmou. “Empregos estão na reta e nós precisamos ter isso como prioridade e não necessariamente as eleições.”

Sobre as negociações com Washington, Azevêdo defendeu uma postura pragmática e abrangente. Embora a investigação americana esteja concentrada em temas como tarifas sobre etanol, desmatamento, PIX, regulamentação de plataformas digitais e propriedade intelectual, ele acredita que o diálogo pode avançar também em outras frentes.

Segundo o ex-diretor da OMC, assuntos como minerais estratégicos, incluindo terras raras, e regras para transmissões eletrônicas podem abrir espaço para entendimentos entre os dois países.

“É uma questão de criatividade, identificar oportunidades de falar com o outro lado e tentar encontrar áreas de convergência”, concluiu.



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