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Ao filosofar sobre a condição humana, Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) reservava às amizades lugar de honra entre as virtudes humanas, situando-as em degrau até superior ao dos laços de sangue. E não apenas ele pensava assim na Grécia Antiga — naqueles tempos, a philia (o amor entre amigos) ocupava posição central nas engrenagens da sociedade. Séculos mais tarde, no Império Bizantino, cerimônias religiosas se encarregavam inclusive de transformar amigos em irmãos espirituais diante de um altar, selando elos de lealdade e proteção mútua feitos para durar por toda a existência. Só que o tempo passou, e a modernidade conferiu ligeireza aos vários departamentos da vida, tornando o tempo artigo escasso. Assim, as parcerias estabelecidas em meio a tantos afazeres — trabalho, filhos, casamento, boletos — foram rareando, um fenômeno que traz solidão a muita gente e ao qual a ciência social já deu nome: recessão das amizades.
A turma que mais sente na pele a escassez de ter aquele bom interlocutor em quem confiar são, como esperado, os ocupados integrantes do mundo adulto, que vêm se queixando da dificuldade de travar relações de maior profundidade. Um levantamento do Survey Center on American Life, importante centro de pesquisas americano, mostra que, nas últimas três décadas, o número dos que dizem contar com um melhor amigo caiu de 75% para 59%. Já o grupo que reconhece não ter ninguém próximo com quem desabafar saltou de 3% para 12%. É algo preocupante, uma vez que já está bem estabelecido que a teia de vínculos de tal natureza é pedra fundamental para o bem-estar. Outro estudo sobre o tema enfatiza o quanto as pessoas gostariam de ampliar o leque — a maioria mantém entre um e três ombros em que se apoiar e 59% falam abertamente que precisam de mais, de acordo com dados da plataforma Headway. “O que observamos hoje é uma perda do tempo emocional para sustentar a intimidade e consolidar ligações duradouras”, afirma a psicóloga Camila Ribeiro.
Um dos motores para a escassez de amizades, segundo especialistas mundo afora, é um pacote que alia a pressa contemporânea ao avanço da internet no cotidiano. Tal combo reduziu as brechas para aqueles esbarrões em espaços de convivência despretensiosa, onde uma conversa pode levar a outra e daí fazer brotar um elo permanente. Na década de 1980, em um mundo pré-redes, no qual o tête-à-tête era tão comum, o sociólogo americano Ray Oldenburg cunhou a expressão terceiros lugares, que não seriam nem a casa, nem o trabalho, mas aqueles de encontros espontâneos — a praça, o clube, o bar —, onde as chances de trocas humanas se alargavam. Pois eles andam em baixa. Embalado na rotina do home office, o programador de sistemas Kaique Bonin, 33 anos, cultiva um grupo de amigos, sim, só que os vê bem menos do que gostaria. “A gente fala bastante pelo WhatsApp, mas ali é diferente. Não gera a mesma conexão”, avalia. “A vida ficou mais prática com toda a infraestrutura virtual de deliveries e streamings, porém, mais pobre em oportunidades de convivência, uma mudança à qual devemos estar atentos”, observa o psiquiatra Arthur Guerra, do Hospital Sírio-Libanês.
O conhecimento já acumulado sobre a árdua trilha rumo a amizades sólidas nos frenéticos dias de hoje mostra que, ao contrário do esperado, não é a turma da terceira idade que mais se ressente da falta de ouvidos confiáveis, mas as jovens gerações. Um recente levantamento da Pew Research, que comparou o estrato da população americana com menos de 30 anos com o que já cruzou a fronteira dos 65, ajuda a dar os contornos à solidão em uma fase da vida em que sempre foi mais fácil selar laços, dada a intensidade da vida social: enquanto apenas um de cada três dos que engatinham na etapa adulta afirmam ter pelo menos cinco amigos próximos, a metade dos mais velhos mantém círculo semelhante ou até maior. O problema parece começar com a dificuldade de pôr de pé relações de maior densidade em meio à rapidez dos cliques, tudo sob a moldura de uma juventude que tem o individualismo como uma de suas marcas. E dá-se aí um paradoxo. “A geração mais conectada da história figura também entre as mais solitárias”, observa Guerra.

Não há outro caminho para reverter os minguados círculos de amizade que não passe por trabalho árduo, lembram os especialistas. “A amizade entre adultos exige intencionalidade”, ressalta o psicólogo Cláudio Paixão, à frente de vasta pesquisa sobre relacionamentos na UFMG. “Enquanto entre os mais jovens os vínculos simplesmente acontecem, mais tarde na vida é preciso mantê-los e protegê-los de caso pensado”, diz. Engolida por filhos, carreira e um batente que inicia às 6 da manhã, a economista Nathalia D’Alessandro, 42 anos, se deu conta de que trilhava direção oposta quando, às vésperas da virada de ano, se deu conta de que não tinha uma única amiga com quem brindar. “Botei então na minha lista de resoluções para 2026 criar e manter as amizades”, relata ela, que tem vencido a preguiça e se mexido para adicionar à agenda programas com gente com quem gosta de compartilhar a vida. Dica dos estudiosos: não é o caso de se ater tanto aos números, uma vez que é sobretudo a qualidade do laço que faz toda a diferença. Como já dizia o sábio Aristóteles, de novo ele: “O que é um amigo? Uma única alma habitando dois corpos”.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998
