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Desde sempre aliados, Estados Unidos e Israel se uniram na investida sem precedentes contra o Irã imaginando que seria um passeio contra a república dos aiatolás, mas isso se converteu em um enrosco que já se arrasta há mais de três meses e do qual anda difícil sair. Os dois líderes à frente da empreitada militar, o americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu, ainda que estejam na mesma página, vêm se equilibrado em uma relação cheia de idas e vindas. Embora estejam de acordo em relação ao objetivo maior — enfraquecer como der os iranianos, subtraindo-lhes o programa nuclear e reabrindo o Estreito de Ormuz —, discordam sobre a dose empregada no campo de batalha. Enquanto Netanyahu não se incomoda em estender o impasse, muito pelo contrário, de olho em cartada tão ambiciosa quanto improvável — a queda da teocracia —, Trump tenta acelerar o passo para se livrar de um conflito que chacoalha a economia global e tanto prejuízo tem causado à sua popularidade.
Nos últimos tempos, tal dissincronia alcançou o ápice diante da insistência do primeiro-ministro em arrasar com o Hezbollah, a milícia xiita sustentada pela nação persa, entrando com tudo no Líbano, cuja porção ao sul virou terra devastada. Para os americanos, essa é uma guerra à parte que não lhes interessa, mas na qual não interferiam. Até que o xadrez mudou: em meio às tratativas diplomáticas em curso, Teerã deixou bem claro que, sem o fim das hostilidades contra o território libanês, não tem conversa sobre cessar-fogo. Espremido por um calendário eleitoral que se avizinha, logo ali, em novembro, Trump tem exigido de Netanyahu um freio na belicosa ação que encampa no Líbano, onde até umas horas atrás ameaçava bombardear, mais uma vez, a área da capital, Beirute.
E não é com fineza que o ocupante da Casa Branca vem abordando o aliado. Pelo que se deixou vazar, um dos telefonemas entre eles foi especialmente áspero, recheado de palavrões impublicáveis, em que Trump o chamou de louco para baixo e cobrou-lhe, furioso: “Estou salvando sua pele. Todo mundo odeia você”. O que veio à tona, evidentemente, envolveu um cálculo: o americano mostra “bom senso” ao conter o ímpeto bélico de Netanyahu e o mercurial israelense demonstra “visão de estadista” ao diminuir os ataques.

Em meio a conversas de desfecho incerto, Trump ora aparece disparando a metralhadora verbal contra os iranianos, ora dando a entender que um acordo se encontra em fase final. Na quarta-feira 3, garantiu que Teerã concordou em não ter armas nucleares e sugeriu que um encontro com o líder supremo Mojtaba Khamenei, o herdeiro do aiatolá morto em 28 de fevereiro, escondido desde o início da guerra, estaria no horizonte. O regime nada disse. Como vem sendo de praxe, a aura de otimismo com que Trump revestiu suas palavras logo se dissipou com mais pólvora lançada sobre o Oriente Médio: forças americanas bombardearam a estratégica ilha de Qeshm, alegando “ato de defesa”, ao qual os iranianos reagiram mirando instalações civis no Kuwait, entre elas o aeroporto internacional e o QG de missões diplomáticas, com saldo de uma morte e dezenas de feridos.
Pelos termos do para lá de frágil cessar-fogo entre Israel e Líbano, renovado na quarta-feira 3, os israelenses apenas teriam o direito de se defender quando atacados, entendimento que vem sendo sucessivamente extrapolado, sob o argumento de que o Hezbollah descumpre o pacto e mantém atividade militar na zona fronteiriça. A ousadia das tropas despachadas ao país vizinho por Netanyahu subiu um degrau no domingo 31, ao hastearem bandeira no histórico castelo de Beaufort, ponto nevrálgico para a milícia xiita, onde não punham os pés desde 2000, quando se encerrou a ocupação de duas décadas de Israel no Líbano. A ofensiva desta vez registra mais de 3 300 mortes e 1 milhão de deslocados, algo espantoso: significa que 1 em cada seis libaneses foi forçado a abandonar a casa. “As ações de Israel enfraquecem o Hezbollah, mas também o Estado libanês, situação em que a milícia pode acabar se saindo melhor e não traz esperanças de estabilidade”, avalia o cientista político Paul Salem, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.
Como nada é simples em tão intrincado tabuleiro, Netanyahu enfrenta dias difíceis em seu próprio país, o que torna manter a guerra acesa uma questão de sobrevivência política para ele. Vem de seu próprio gabinete a pressão para continuar com as bombas a pleno vapor, não apenas no Líbano, mas também no Irã e em Gaza, onde Israel não para de abocanhar cada vez mais fatias do destruído território. Dois raivosos expoentes da extrema direita que o sustentam no poder, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional, e Bezalel Smotrich, das Finanças, exigem o retorno a um “conflito intenso” em solo libanês. “Queremos assentamentos no Líbano”, bradou Ben-Gvir, defendendo em paralelo, sem meias palavras, uma debandada de palestinos de Gaza para ceder espaço a colonos israelenses.
O jogo para Netanyahu se complicou ainda mais quando, na segunda-feira 1º, o parlamento sacramentou, por acachapantes 106 votos a zero, a primeira leitura para sua dissolução — o início de um processo com altas chances de levar à antecipação do pleito marcado para outubro. É um problemão para o primeiro-ministro, que, também ele, vê a popularidade declinar. Para piorar, os tribunais retomaram as audiências de um julgamento que põe Netanyahu no banco dos réus por fraude e suborno. São tantos ingredientes a mexer as peças que a única certeza que se depreende de tudo isso é a de que o Oriente Médio não é para amadores, e não há trégua para o estado de confusão.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998