
A Bolívia vive hoje sua pior crise econômica em 40 anos — um dos motivos por trás da explosiva onda de protestos que pede a renúncia do presidente Rodrigo Paz, de centro-direita, no poder há apenas sete meses. A situação é reflexo de decisões equivocadas do Movimento ao Socialismo (MAS), que surgiu sob liderança de Evo Morales, que governou por três mandatos consecutivos.
Há uma gama de motivos para a crise: uma grave escassez de combustíveis, reflexo da queda na produção interna de hidrocarbonetos e falta de dólares (outro problema) para importar o necessário; os subsídios aos combustíveis, que custavam mais de dois bilhões de dólares ao ano aos cofres públicos, segundo Paz, que logo tratou de cortá-los e abrir uma nova frente de insatisfação popular; um déficit comercial, na casa de US$ 521 milhões entre janeiro e outubro de 2025; uma inflação anual galopante de 20%; e um descontrole dos gastos pelo Executivo.
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O descontentamento, somado à fragmentação da esquerda, levou a população a buscar uma alternativa à hegemonia de duas décadas do MAS. Com discurso moderado e promessas de equilibrar as contas, o senador Rodrigo Paz foi eleito em outubro do ano passado, com cerca de 54% dos votos, derrotando o mais radical Jorge “Tuto” Quiroga. Paz é filho do ex-presidente esquerdista Jaime Paz Zamora, à frente do país de 1989 e 1993. Sua trajetória política o levou da militância de esquerda à defesa de posições conservadoras.
Logo após assumir a Casa Grande del Pueblo, o palácio presidencial, Paz declarou estado de emergência econômica e decretou um punhado de medidas liberais, além de uma controversa reforma agrária que supostamente teria como objetivo beneficiar latifundiários e o agronegócio. Resultado: impulsionou o mal-estar entre bolivianos, desencadeado protestos explosivos a partir de maio. Em um mês de manifestações, mais de 90 estradas seguem bloqueadas no país, quatro pessoas morreram em confrontos com a polícia e mais de 100 foram detidas. Não há avanço nas negociações, e Paz parece cada vez mais encurralado.