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Como tantas mulheres pelo mundo, a atriz espanhola Pilar Bardem (1939-2021) criou sozinha os três filhos, após o distanciamento do pai das crianças. Amorosa e linha-dura, ressaltou na educação dos rebentos a importância da responsabilidade individual e do respeito coletivo, especialmente entre homens e mulheres. A admiração por ela levou o trio a seguir seus passos profissionais — todos viraram atores, sendo o caçula, Javier Bardem, um astro internacional. Aos 57 anos, acumula prêmios e papéis memoráveis e, levando os ensinamentos maternos adiante, se tornou uma voz ativa em Hollywood contra a opressão a minorias e o machismo.
O espanhol defende suas bandeiras até quando dá vida a tipos assustadores e ambíguos, caso de seu personagem em Cabo do Medo, nova série da Apple TV, com dez episódios, lançados semanalmente às sextas-feiras. Na pele do enigmático Max Cady, ele busca vingança contra a advogada (Amy Adams) que o defendeu sem sucesso em um tribunal, levando a uma condenação injusta. “Esse é o nosso ganha-pão. Fingimos ser pessoas que não somos, então não precisamos concordar com o que nossos personagens pensam”, disse o ator a VEJA. Adaptação do livro Os Carrascos, de 1957, de John D. MacDonald — já vertido em dois filmes Cabo do Medo, um de 1962 e outro de 1991, este pelas mãos de Martin Scorsese, agora produtor da série —, o novo programa discorre sobre as consequências dos desvios morais, da masculinidade tóxica e da hipocrisia dos que se acham superiores.

Se na tela Bardem está assustador, fora dela ele é nada menos do que cativante. A habilidade de se transformar foi essencial para furar a bolha em Hollywood sendo um estrangeiro. Revelado no filme espanhol Jamón, Jamón (1992), de Bigas Luna, no qual conheceu a atriz Penélope Cruz — com quem se casou em 2010 e tem dois filhos —, Bardem encarnou mocinhos sensuais e rústicos até o reconhecimento internacional com o drama Antes do Anoitecer (2000), no qual deu vida ao poeta cubano e homossexual Reinaldo Arenas. A consagração maior veio em 2008 com a vitória no Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez, enquanto a fama global se tornou inevitável em 2012, ao encarnar o vilão memorável Raoul Silva em 007 — Operação Skyfall.
Enquanto cumpre a agenda requisitada, o ator aproveita a exposição da fama para defender aquilo em que acredita. Recentemente, denunciou os números alarmantes de feminicídio na Espanha. Também é crítico de líderes autoritários como Donald Trump, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu, cujos países estão em guerra. “Estamos matando mulheres porque alguns homens acreditam que elas lhes pertencem”, disse Bardem no Festival de Cannes em maio. Um galã desconstruído e engajado.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998