O conflito no Oriente Médio continua produzindo efeitos relevantes sobre a economia global. A interrupção de importantes rotas comerciais tem impulsionado os preços do petróleo e de outras commodities, alimentando pressões inflacionárias e aumentando a volatilidade nos mercados financeiros ao redor do mundo.

Os reflexos já aparecem nos indicadores. Dados divulgados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostram que a inflação anual ao consumidor nos países-membros acelerou de 4% em março para 4,4% em abril.

Para Tatiana Pinheiro, consultora econômica e pesquisadora da FGV (Fundação Getulio Vargas), os impactos da crise do petróleo já se tornaram permanentes para a economia brasileira em 2026. Segundo ela, a principal consequência foi a redução do espaço para cortes adicionais na taxa básica de juros.

“O grande efeito dessa crise do petróleo para o Brasil foi a redução do tamanho de corte de juros que era possível fazer na economia este ano”, diz.

De acordo com a economista, o mercado passou a precificar, no máximo, mais uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, possivelmente na reunião de junho do Copom (Comitê de Política Monetária).

No início do ano, parte dos analistas projetava que a taxa básica poderia encerrar 2026 próxima de 12%. Agora, a expectativa é que permaneça entre 14% e 14,25%.

“Mesmo que a guerra terminasse hoje, eu acredito que esse espaço para corte de juros, pelo menos este ano, já se foi”, aponta.

Na avaliação da pesquisadora, uma redução mais significativa da Selic deverá ficar para 2027.

Petróleo segue como fator central da inflação

Pinheiro destaca que a trajetória dos preços do petróleo continuará sendo determinante para a inflação global. Segundo estimativas de instituições internacionais citadas pela economista, caso o conflito fosse encerrado imediatamente, o barril poderia retornar para a faixa entre US$ 65 e US$ 70 já no terceiro trimestre.

Sem uma solução concreta para a crise, porém, a tendência é que os preços permaneçam elevados, variando entre US$ 90 e US$ 110 por barril.

“O petróleo está dentro de quase todas as cadeias importantes de produção que nós temos hoje”, afirma.

A pesquisadora lembra que o insumo é utilizado não apenas na produção de combustíveis, mas também na fabricação de fertilizantes, defensivos agrícolas, plásticos, solventes e até mesmo de alguns tipos de tecidos, ampliando seus efeitos sobre os preços da economia.

Busca por alternativas

Ao analisar caminhos para reduzir a dependência do petróleo e de gargalos logísticos como o Estreito de Hormuz, Tatiana Pinheiro traça um paralelo com a crise energética da década de 1970.

Naquele período, o Brasil apostou no desenvolvimento do Pró-Álcool, enquanto países como França e Alemanha ampliaram investimentos em energia nuclear para reduzir sua vulnerabilidade ao petróleo.

“Os países procuraram meios de reduzir essa dependência”.

Para o cenário atual, a economista avalia que a eletrificação da economia desponta como uma das principais alternativas e tende a ganhar ainda mais força diante dos choques recentes nos mercados de energia.

Por outro lado, ela alerta para outro efeito colateral da crise: o aumento do endividamento público.

Segundo a pesquisadora, diversos governos têm ampliado gastos para proteger suas economias dos impactos da alta do petróleo, movimento que também foi destacado recentemente pela OCDE como um fator de preocupação para os próximos anos.



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