Entre improvisos, gargalhadas e tambaquis, a cantora Fafá de Belém, 69, se orgulhava em falar da sua terra e de mulheres da Amazônia na varanda de seu apartamento no bairro Jardins, área nobre de São Paulo. Com uma memória invejável, relembrava suas batalhas para tentar colocar em pé um projeto ambicioso de valorização da fé, da terra e da dignidade do ser humano.
Volta e meia, nas rodas de conversa, também derramava elogios às Icamiabas, mulheres reconhecidas pela independência, luta e força. Fafá, sem saber o que era empoderamento na década de 80 e 90, aparecia na TV esbanjando expressões. Amplificava sua potência vocal ao falar de qualquer assunto que achava que deveria dizer. Ao fim de quase toda frase, ria. Ria sempre com tanta vontade que era impossível ficar indiferente.
Até quem julgava mulheres de acordo com o que vestiam não via indecência no decote da cantora. Fafá tem noção da sua singularidade: “sou artista na contramão, nunca obedeci regras de marketing”. Reconhecer o próprio tamanho, ancorado na fé, deu a coragem adicional necessária para a artista plantar de vez o que tanto desejava.
Há quase duas décadas, Fafá encasquetou que deveria devolver à terra o que lhe foi dado. É uma avaliação complexa, mas, em síntese, é dar oportunidade e visibilidade a quem não teve a “sorte” de ser notado.
Foi desta semente que nasceu Varanda de Nazaré há 16 anos, em meio ao Círio de Nazaré, a maior manifestação religiosa no Brasil, que recebe cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano, em Belém, no mês de outubro. O evento, como o próprio nome diz, nasceu em um espaço modesto que hoje já não faz mais sentido para receber mais de 3 mil pessoas.
Com Varanda de Nazaré, Fafá se propôs a transbordar a Amazônia para o restante do Brasil por meio de ideias. Em defesa do verde, do compromisso com a cultura e do protagonismo feminino, a cantora construiu perspectivas e incorporou à Varanda um Fórum com debates entre artistas, intelectuais, pesquisadores, lideranças sociais e representantes de povos tradicionais.
São estes elementos que Varanda continua a seguir seu curso e entra para mais uma edição, a de número 16; com o conceito “Coragem que floresce na fé” — em homenagem à força de mulheres que, por gerações, sustentam histórias, famílias, tradições e comunidades por meio da devoção, da resistência e do cuidado.
A programação deste ano também contará com uma novidade: pela primeira vez, a Varanda de Nazaré terá uma etapa internacional, realizada em Portugal, durante as tradicionais Festas de Nossa Senhora da Nazaré, celebradas anualmente entre os dias 4 e 13 de setembro no município de Nazaré.
A iniciativa pretende promover um intercâmbio cultural e religioso entre Portugal e o Pará, aproximando duas das mais importantes manifestações de devoção mariana ligadas à mesma origem histórica.