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Não parece, e é como se o tempo nos pregasse uma peça ao bagunçar os ponteiros: Pelé tinha apenas 29 anos quando levou o Brasil ao tricampeonato mundial de 1970. Parecia muito mais velho, a idade de um herói greco-romano imune ao relógio. Tinha a altivez das figuras eternas erguidas em triunfo. A Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, que começa na próxima quinta-feira, 11, marcará época por uma extraordinária condição: a presença de dois, três ou quatro craques que foram muito além dos acréscimos. O argentino Lionel Messi tem 38 anos (completará 39 em 24 de junho, dois dias depois de os albicelestes enfrentarem a Áustria e três antes de desafiarem a Jordânia). Cristiano Ronaldo tem 41 anos. O goleiro mexicano Guillermo Ochoa tem 40. O trio vai para o sexto Mundial seguido, em passo inédito e histórico. Os três estrearam na maior de todas as competições em 2006, na Alemanha. Foi o ano em que nasceram Endrick e Rayan, da seleção brasileira. É bom sempre pôr na mesa também o nome do croata Luka Modric, de 40 anos.

...E COMPASSO - O português Cristiano Ronaldo: lugar certo e hora certa, como taco em bola de bilhar
…E COMPASSO - O português Cristiano Ronaldo: lugar certo e hora certa, como taco em bola de bilhar (Gualter Fatia/Getty Images)

Haverá, é natural, estrelas precoces na Copa — a exemplo do espanhol Lamine Yamal, de 18 anos —, mas é certo afirmar que o torneio será para sempre identificado pela última dança de grandes nomes, especialmente Messi e Cristiano Ronaldo, rostos de uma geração, ambos próximos à mítica marca do milésimo gol (veja no quadro). Essa turma de velhinhos puxa a média geral para cima: 28,6 anos, ante 27,8 anos no Catar, em 2022, e 28,1 anos na Rússia, em 2018. O grupo de Carlo Ancelotti tem a maior média do Brasil em Copas, desde sempre: 28,7 anos. Em 1930, a média, a menor, foi de 24, 2 anos.

Infográfico comparando estatísticas de carreira dos jogadores Messi (38 anos) e Cristiano Ronaldo (41 anos). Messi tem 800 gols em clubes, 979 jogos em clubes, 116 gols pela seleção, 198 jogos pela seleção, total de 916 gols e média de 0,77 gols por partida. Cristiano Ronaldo tem 824 gols em clubes, 1091 jogos em clubes, 143 gols pela seleção, 226 jogos pela seleção, total de 967 gols e média de 0,73 gols por partida

Brota, portanto, agora, uma pergunta que embute um paradoxo: como é possível ter destaques já quarentões, ou quase, se o futebol hoje é vigoroso, rápido, pegado e agressivo? A resposta mais imediata está no desenvolvimento da ciência do esporte. “Houve extraordinária revolução, nas últimas décadas, nas estratégias de recuperação pós-treino e pós-jogo”, diz o fisiologista Diego Leite de Barros. Parece um detalhe, mas é fundamental. E levante a mão quem nunca ouviu falar do tal “controle de carga”, a justificativa para que Neymar deixasse de fazer partidas com o Santos. É recurso que poupa energias do que foi, mas zela pelo que virá. O resultado, do ponto de vista prático: menos horas de treino, mais descanso e, portanto, longevidade em campo. Tem-se exata noção dos quilômetros percorridos no gramado, das calorias gastas e das exigências musculares. Tudo é medido, tudo é corrigido. Contudo, para quem gosta de futebol, a nova postura resulta em desfechos inesperados. “Vemos poucos gols de falta hoje, porque os bons batedores já não ficam horas a fio, depois de terminado o horário com os colegas, batendo na bola”, diz o ex-goleiro Diego Alves, campeão da Libertadores pelo Flamengo em 2019. “A ideia é treinar menos para poder jogar mais.”

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ETERNIDADE - O rei Pelé, na festa do tri, em 1970: apenas 29 anos de idade
ETERNIDADE - O rei Pelé, na festa do tri, em 1970: apenas 29 anos de idade (Alessandro Sabattini/Getty Images)

Dá-se a presença de Messi e Cristiano Ronaldo não apenas porque se sabe com precisão o que sentem no corpo e quais são os limites. Ambos, cada um a seu estilo, souberam mudar o jeito de jogo — o genial canhotinha de Rosário parece não suar, pouco se desloca e, quando acelera ou toca na bola, é sempre com a precisão de ourives. O português, o “robozão” forte e musculoso, sequinho que ele só, entra na área, na hora certa e no ponto certo, para marcar como quem dá uma tacada em bola de bilhar. Os dois são avessos à farra noturna, dormem bem e comem de modo saudável. Cristiano tem até um cozinheiro particular que deve acompanhá-lo até na Copa. O desempenho da dupla, ainda que um e outro tenham ido parar em clubes do acostamento global, como o Inter Miami e o saudita Al-Nassr, é uma resposta para o vaivém de Neymar.

Eles são como uma elegia ao que pode dar certo, com cuidado e atenção. “Mas só é possível ter longevidade quando se tem paixão”, já disse Cristiano Ronaldo. O gajo, que sabe das coisas, aponta um nó fundamental, sem o qual o castelo desmorona, que faz da preparação física um meio, não um fim: “Depois das três décadas, eu acho que o corpo vai continuar te respeitando quando você precisar dele, mas a batalha mais dura, na minha opinião, é mentalmente, passar por muitas coisas para chegar ao objetivo final, que é manter o nível”. O que nos resta: o puro deleite com os dois personagens — e não deixemos Modric de lado — que reinventaram a bola.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998



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