A nova escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos adicionou um componente extra de incerteza para empresas e investidores. Em poucos dias, o governo americano anunciou duas novas ameaças tarifárias contra produtos brasileiros, elevando a preocupação de setores exportadores e reacendendo debates sobre os impactos econômicos e políticos da medida. Se confirmadas, as sobretaxas podem levar a carga tributária total sobre alguns produtos brasileiros a até 47,5%.

Incerteza

Embora as tarifas ainda estejam em fase de contestação e só devam entrar em vigor após o período de defesa, o simples anúncio já produz efeitos sobre as decisões econômicas. Empresas exportadoras passam a revisar planos de investimento, contratos e estratégias de produção diante da dificuldade de prever o ambiente de negócios para os próximos meses. A incerteza, nesse contexto, costuma ser tão prejudicial quanto a própria elevação dos custos.

Mercado em compasso de espera

O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, avalia que ontem os mercados ficaram mais focados no cenário externo com atenção no que pode ocorrer com os juros americanos. Segundo ele, há expectativa tanto em relação à capacidade diplomática do governo brasileiro quanto ao trabalho de convencimento das empresas junto às autoridades americanas. “O mercado está em compasso de espera”, afirmou, destacando que investidores aguardam sinais mais concretos sobre uma eventual reversão das medidas.

Setores vulneráveis

Os setores mais vulneráveis são justamente aqueles com maior valor agregado, especialmente a indústria de transformação. Fabricantes de máquinas, equipamentos, aeronaves e bens industriais tendem a enfrentar os maiores desafios caso as tarifas sejam implementadas. O agronegócio, embora também exposto às mudanças, possui alguns mecanismos de compensação e mercados alternativos que podem reduzir parte dos impactos negativos.

Compensação

Na avaliação de Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a iniciativa americana de apontar o dedo a 60 países alegando falha no combate ao trabalho forçado, representa muito mais uma alternativa após derrotas enfrentadas pelo governo na Suprema Corte em disputas relacionadas a tarifas anteriores.

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Falhas do Brasil e da Noruega?

Ele critica o governo americano que alega “injustiças e não cumprimento de acordos comerciais” que prejudicariam sua competitividade. Segundo Alex, o próprio sistema americano carece de proteções ao trabalhador que existem em países criticados por eles, como o Brasil e a Noruega “Se o trabalhador se acidenta ou adoece não tem dispensa de trabalho por licença médica, e fica sem o seu honorário”, resume.

Trump preocupado com a inflação

Além disso, o economista menciona que as medidas de Donald Trump para tentar combater a inflação alta nos EUA podem ser um “tiro no pé”, pois a discussão sobre o aumento da taxa de juros americana muda o tabuleiro global de investimentos, o que pode gerar pressão interna nos próprios Estados Unidos.

Debate entre Flávio e Lula dificulta diplomacia

Além dos efeitos econômicos, a disputa ganhou forte componente político. O presidente Lula tem atribuído parte da escalada da crise à atuação da família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Do outro lado, integrantes da oposição argumentam que os problemas enfrentados pelas empresas decorrem principalmente das condições econômicas internas. O risco, segundo analistas e representantes do setor produtivo, é que o debate comercial seja absorvido pela polarização eleitoral e prolongado de acordo com o ganha ganha de cada candidato.

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Política e fogo amigo

Alex Agostini afirma que a briga entre os dois principais pré-candidatos à presidência, Lula e Flávio Bolsonaro, é uma situação “bastante preocupante” para o país, pois desvia o foco de problemas estruturais urgentes. Ele ressalta que o Brasil tem situações muito mais profundas para debater, especificamente a questão fiscal, mas que esse debate acaba sendo prejudicado pela predominância da política e do que ele chama de “fogo amigo”.

Brasil e China mais próximos

Outro efeito potencial é o aprofundamento da aproximação comercial entre Brasil e China. Com os Estados Unidos elevando barreiras e ampliando as restrições ao comércio, especialistas avaliam que empresas brasileiras podem buscar novos mercados e fortalecer relações já existentes com o principal parceiro comercial do país. Em um cenário global cada vez mais fragmentado, a disputa tarifária reforça a percepção de que decisões geopolíticas estão influenciando diretamente os rumos da economia.



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