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Há uma rica tradição de ensaios filosóficos cujo título, provocativo de nascença, começa com um sonoro “Contra”.
Contra os Acadêmicos, Contra a Democracia, Contra os Partidos Políticos, Contra a Interpretação, Contra a Perfeição… Só para citar alguns dos mais famosos.
E essa família de textos que instigam – para não dizer perturbam – o leitor ganha um novo representante: Contra a Transparência, do jornalista e filósofo Hamilton dos Santos, recém-publicado pela editora Iluminuras.
Como assim? Como alguém ousa meter o dedo na transparência num país prolífico em casos de corrupção e condutas eticamente obscuras, num mundo que, embalado pelas redes sociais, tirou o véu entre o público e o privado?
Aí que está: Santos não critica o valor institucional da transparência, mas sua ascensão como um ideal ilusório e absoluto que, em última análise, pode rasgar um elemento indispensável às relações humanas: a confiança.
Em seu curto e potente ensaio, o atual diretor-executivo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) retorna aos conceitos da física e caminha até os preceitos da filosofia moral para desmascarar a cultura e a sociedade da transparência incensadas hoje.
Contra a transparência
Aos arautos do “poder da transparência”, uma “crença inegavelmente sedutora”, “faltou combinar o jogo com a natureza humana”, crava Santos. “A sociedade da transparência está mais para uma distopia que deve ser questionada do que uma utopia que deva ser cultivada.”
Por quê? Porque, ao louvarmos essa noção como um valor absoluto (ainda que impossível), obscurecemos requisitos básicos para a sociedade funcionar, tais como respeito, fé e capacidade de acreditar uns nos outros. A civilização, no fundo, é um “sistema de filtros”, porque sabe que não tem teto de vidro.
O ponto preocupante é que a distorção da transparência semeia riscos de diversas ordens. Seja na superexposição performática das redes sociais (apesar de tanta coisa fake dando as caras ali), seja na criação de sistemas de vigilância total, que acabam corroendo a própria liberdade.
Há todo um fundamento, portanto, para o autor ser “do contra”. Com a palavra, Hamilton dos Santos.
Qual é o maior risco para a sociedade desse elogio desmedido da transparência que se faz hoje? Em que medida isso nos leva a uma erosão da confiança, como você discute no livro? Insisto que o maior risco é tomar a transparência como um valor moral absoluto, uma espécie de panaceia capaz de resolver todos os problemas sociais. Quando isso acontece, passamos a imaginar que relações humanas, instituições políticas e até vínculos econômicos só funcionariam pela lógica da exposição total, da vigilância permanente e do escrutínio contínuo. O problema é que sociedades complexas não se sustentam apenas sobre informação: elas se sustentam sobretudo com base na confiança. No livro, procuro mostrar que a confiança depende justamente de uma combinação delicada entre saber e não saber. Se eu soubesse absolutamente tudo sobre alguém, eu não precisaria confiar nessa pessoa. A confiança nasce precisamente porque existe um grau inevitável de opacidade nas relações humanas.
A total transparência seria, portanto, ilusória, senão perniciosa? Há um ponto que tento articular no ensaio: a própria ideia de transparência vem originalmente da física, da óptica. Transparente é aquilo que deixa a luz passar através de si. Mas, mesmo no mundo físico, a transparência absoluta é impossível. Todo corpo transparente funciona também como filtro: há sempre refração, interferência ou algum grau de opacidade. A metáfora moral da transparência frequentemente esquece isso e imagina uma visibilidade perfeita que nem a própria natureza oferece. Quando a sociedade passa a exigir transparência total, ela tende a corroer justamente essa zona intermediária onde se formam reputação, responsabilidade e confiança mútua. O resultado é que a obsessão pela transparência acaba produzindo mais suspeita do que confiança. Tudo passa a ser interpretado como potencial ocultação ou má-fé. É um ambiente que favorece vigilância, julgamento contínuo e até linchamentos morais, mas nem sempre compreensão e harmonia.
Do mensalão ao caso Master, vivemos uma sequência de episódios políticos que, de alguma forma, exemplificam a falta de ética e transparência em condutas pessoais, profissionais e públicas. Não acha que, ao problematizar o valor da transparência, corremos o risco de favorecer uma opacidade corrosiva? Essa pergunta é importante e é por isso que faço questão de distinguir, ao longo do livro, transparência institucional de transparência como valor absoluto. Transparência institucional é indispensável para democracias modernas. Prestação de contas, publicidade dos atos públicos, fiscalização da administração e liberdade de imprensa são conquistas fundamentais da sociedade liberal e democrática. Recentemente, citando meu livro, o jornalista Eugênio Bucci escreveu um artigo muito interessante no Estado de S. Paulo, intitulado Duas transparências, em que distingue precisamente a transparência republicana — necessária à vida democrática — de uma transparência performática e demagógica, transformada em espetáculo moral. Essa distinção ajuda bastante a compreender meu argumento.
E o que dizer das empresas que se dizem transparentes hoje – e do seu papel diante da corrupção? Desde o surgimento da ideia da “empresa transparente”, popularizada no início dos anos 2000 pelo livro The Naked Corporation, de Don Tapscott e David Ticoll, e da crescente valorização dos sistemas de compliance e governança corporativa, não se pode afirmar que os escândalos de corrupção tenham desaparecido. Em muitos casos, parece ter ocorrido o contrário: à medida que os sistemas de transparência e rastreamento se sofisticaram, também se sofisticaram os mecanismos utilizados para contorná-los. A era digital não eliminou a opacidade; apenas tornou suas formas mais sofisticadas. Meu livro não pretende defender obscurantismo, segredo político ou ausência de accountability. O que procuro investigar é outra coisa: o momento em que a transparência deixa de ser um mecanismo institucional racional e passa a funcionar como fetiche moral ou promessa de acesso absoluto à verdade das pessoas e instituições. É justamente aí que surge um paradoxo contemporâneo: quanto mais transparência se exige, mais performances de transparência se produzem.
E aí, inevitavelmente, chegamos às redes sociais, não? As redes sociais talvez sejam o maior exemplo disso. Vivemos numa era de hiperexposição permanente, mas isso não significa necessariamente maior clareza moral ou maior qualidade institucional. Existe ainda um aspecto frequentemente esquecido: até instituições que têm na transparência uma missão central dependem de certas zonas legítimas de opacidade para funcionar bem. O bom jornalismo investigativo, por exemplo, depende da proteção das fontes, do sigilo profissional e de investigações conduzidas discretamente até que os fatos possam ser verificados e publicados. Ou seja: até a transparência institucional pressupõe limites, mediações e critérios.
Como as plataformas, tão populares e lucrativas hoje, estão transformando o conceito de transparência na arena pública? As redes sociais radicalizaram a lógica da autoexposição. A transparência deixou de ser apenas uma exigência dirigida às instituições públicas e passou a se tornar uma obrigação subjetiva permanente. Hoje, indivíduos, empresas, governos e figuras públicas vivem sob pressão contínua para mostrar tudo, opinar sobre tudo e transformar a própria intimidade em conteúdo. O problema é que as plataformas digitais confundiram transparência com visibilidade. Mas visibilidade não é necessariamente verdade, compreensão ou autenticidade. Muitas vezes ocorre justamente o contrário: quanto mais exposição existe, mais os indivíduos passam a administrar estrategicamente a própria imagem. Em vez de transparência, produz-se performance. Esse é um ponto em que meu livro dialoga com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que mostrou como o sujeito contemporâneo internaliza a vigilância e se expõe voluntariamente. O que procuro acrescentar é que essa dinâmica encontra um limite antropológico: o ser humano não é transparente nem para si mesmo. Somos atravessados por paixões, autoengano, imaginação, desejo de reconhecimento e narrativas retrospectivas sobre quem somos. A consequência mais imediata disso é um ambiente público cada vez mais marcado por julgamentos instantâneos, simplificação moral e polarização. A sociedade da transparência corre o risco de substituir interpretação por reação.
Pesquisas mostram que instituições tradicionais, como a própria imprensa, sofrem uma crise de confiança. Como isso se conecta à sua crítica à transparência? A crise de confiança das instituições modernas tem múltiplas causas, mas acredito que uma delas esteja ligada justamente à transformação da transparência em um valor absoluto. Criou-se uma expectativa quase impossível de satisfazer: a ideia de que instituições, empresas, governos e até indivíduos deveriam se mostrar integralmente transparentes o tempo todo. Isso gera um efeito perverso. Quanto maior a expectativa de transparência total, maior tende a ser a frustração pública diante da inevitável complexidade das decisões humanas e institucionais. Instituições não operam em laboratório moral. Elas lidam diariamente com contingência, conflito, negociação, limite e interpretação. No caso da imprensa, há ainda um agravante importante: as redes sociais criaram uma cultura de suspeita permanente, em que qualquer mediação passou a ser confundida com manipulação. Só que sociedades complexas dependem justamente de mediações institucionais. A erosão da confiança nessas mediações talvez seja um dos fenômenos mais preocupantes do nosso tempo.
Há algum caminho assertivo para resgatar a credibilidade social? Meu livro não foi escrito com a intenção de oferecer uma receita prescritiva para resolver esse problema. Meu esforço foi menos normativo e mais analítico: tentar compreender como a transparência se tornou um ideal quase absoluto em nossa época e investigar as consequências, especialmente institucionais, dessa transformação. Ainda assim, acredito que um passo importante seja recuperar uma compreensão mais madura da vida pública: reconhecer que confiança não nasce da eliminação completa da opacidade, mas da construção lenta de reputação, responsabilidade e credibilidade institucional ao longo do tempo.