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Interromper um aliado quando ele está ganhando vantagem é uma coisa que só um presidente americano pode forçar Israel a fazer. Foi isso que Donald Trump quis dizer quando anunciou que o Hezbollah não vai atacar Israel e Israel não vai atacar de volta.
A parte sobre uma marcha interrompida israelense sobre Beirute parece mais fantasiosa. Mas a situação no Líbano estava fugindo ao controle, sem nada mais que parecesse o cessar-fogo oficialmente em vigor. Vendo o perigo aumentar para o lado de seus protegidos do Hezbollah, o Irã anunciou a suspensão dos contatos com os Estados Unidos via intermediários, complicando uma situação já cada vez mais labiríntica.
Trump disse que não estava “ligando a mínima”, mas interferiu junto ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para aceitar a nova trégua – e não foi uma conversa amigável, chegando ao ponto de palavrões, segundo fontes do governo disseram ao Axios. O Hezbollah já havia mandado recado que suspenderia o fogo, num sinal de que estava sentindo os golpes sucessivos desfechados pelos bombardeios israelenses.
Mesmo que temporário, para os libaneses é um alívio. As bombas contra alvos do Hezbollah acabam provocando vítimas inocentes. Muitos no país abominam o grupo radical xiita que, com a ajuda do Irã, se tornou a força dominante.
NEM PAZ NEM GUERRA
À exceção das áreas mais xiitas do sul do país, os libaneses gostariam de se livrar do Hezbollah, embora as Forças Armadas do país sejam fracas e incapacitadas para assumir o controle das armas, como deveria ser o certo num Estado normal, embora o Líbano seja tudo, menos um Estado normal.
Uma pesquisa Gallup de dezembro passado mostrou que 79% dos libaneses gostariam que o Exército regular fosse o único detentor do poder das armas. Os resultados de acordo com as crenças religiosas mostram como o país é dividido sectariamente: disseram sim 92% dos cristãos, 89% dos drusos e 87% dos muçulmanos sunitas, mas apenas 27% dos xiitas.
A suspensão de fogo no Líbano, se for realmente efetivada, apenas congela o status quo, deixando o conjunto da população libanesa ainda controlada pelas decisões arbitrárias do Hezbollah e exposta à eventual retomada dos ataques israelenses que, além de vidas inocentes, também destroem a infraestrutura do país.
O Hezbollah jamais entregará suas armas e o regime iraniano jamais exigirá isso. Pode haver uma acomodação temporária, caso venha a ser assinado um acordo de paz com os Estados Unidos. A intervenção de Trump, abre caminho à retomada dos contatos. Segundo o presidente americano, eles “avançam rapidamente”. Seria bom. Na hipótese contrária, o conflito se torna crônico, eternizando uma situação de nem paz nem guerra.
A opinião pública dá sinais de que já se cansou do assunto, embora prepare um castigo daqueles para os republicanos nas eleições de novembro próximo para o Congresso. Trump diz que não liga a mínima, mas não tem como ignorar a queda na aprovação e outros sinais de deterioração política.
Obviamente, Trump sabe o que está em jogo. Na conversa escaldante com Netanyahu, disse, segundo as fontes do Axios, evocando o perdão presidencial que pediu para o primeiro-ministro num julgamento por corrupção: “Você estaria preso se não fosse por mim. Todo mundo odeia você. Todo mundo odeia Israel agora.” São palavras quase inacreditáveis, mas que refletem a dinâmica predominante agora.