
O prazo previsto pelos Estados Unidos para uma eventual aplicação de tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros pode ser insuficiente para uma negociação abrangente entre os dois países. A avaliação é do ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, que chama atenção para a complexidade dos temas incluídos na investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
A avaliação do especialista ocorre após o governo americano propor uma tarifa adicional sobre parte das exportações brasileiras. A medida ainda passará por consulta pública e por uma audiência prevista para 6 de julho, antes de uma eventual entrada em vigor em 15 de julho. Nesse intervalo, os governos dos dois países tentam negociar possíveis soluções para os pontos levantados pela investigação comercial americana. “É um tempo muito apertado para fazer uma negociação efetiva. É possível, mas é complexo”, diz Barral.
As discussões vão muito além de questões tarifárias e envolvem assuntos delicados para ambos os governos. “Existem vários temas complexos que podem fazer parte da negociação. É o caso do comércio digital e questões relativas a patentes“, diz o especialista. A amplitude da pauta torna mais difícil alcançar um entendimento em poucas semanas. Questões ligadas ao comércio digital, por exemplo, podem envolver inclusive o Congresso Nacional e o Judiciário brasileiro, segundo Barral. “Não tem tema simples envolvido nessa negociação”.
Apesar das dificuldades, o especialista não descarta a possibilidade de avanços nas negociações. Ele lembra que a relação bilateral vem sendo conduzida com cautela pelo governo brasileiro desde o início da atual gestão americana. O Brasil evitou respostas imediatas mais duras e buscou preservar os canais de diálogo com Washington. Essa estratégia tende a ser mantida nas próximas semanas, independentemente do desfecho da proposta tarifária.
E se a nova tarifa for implementada?
O especialista observa que uma eventual implementação da tarifa não interrompe automaticamente as conversas entre os dois países. Ao mesmo tempo, ele destaca que o governo brasileiro pode decidir responder com reciprocidade às medidas americanas. “Mesmo que a tarifa venha, isso não encerra a negociação, mas também não impede que o Brasil aplique alguma medida de reciprocidade”, diz. As próximas semanas serão decisivas para determinar se haverá um acordo capaz de evitar a adoção das tarifas ou ao menos reduzir seus impactos sobre o comércio bilateral.