Há oito anos, o assassinato de Marielle Franco transformou o luto de uma família em símbolo de resistência. Para a filha da vereadora, a dor também virou motivação para seguir em frente. Aos 27 anos, a educadora física Luyara Franco é hoje diretora executiva do Instituto Marielle Franco, criado para preservar a memória da mãe e fortalecer sua luta por direitos humanos e justiça. Também conclui o bacharelado em Educação Física no Centro Universitário Celso Lisboa. Em entrevista à coluna GENTE, Luyara fala com emoção sobre as lembranças da infância ao lado de Marielle, relembra os anos difíceis após o crime e conta como decidiu assumir um papel de liderança no Instituto. Apesar da pressão e dos convites, garante que não pretende seguir carreira eleitoral.

Quais memórias da convivência com sua mãe mais te marcam? Eu sempre estive muito nos bastidores. Uma das primeiras lembranças que tenho é de quando eu tinha por volta de cinco anos e já estava com ela em atos na Maré. Também lembro das primeiras reuniões de planejamento do mandato, quando eu era pequena e estavam lá os filhos de toda a equipe — inclusive a filha da Marcela, a Isadora. Foi uma infância e adolescência participando de comícios e conversas políticas. E ela foi me ajudando a encontrar esse caminho, sempre nos bastidores, entendendo que existem várias formas de fazer política.

E como foi decidir assumir a direção executiva do Instituto? Foi um processo de amadurecimento. Quando tudo aconteceu, eu tinha apenas 19 anos. Foi um momento muito difícil, com um luto forte. Acho que foi um luto coletivo, de todo mundo. E, ao mesmo tempo, a vida continuava acontecendo. Um mês depois eu já tinha que voltar para a faculdade. Logo depois foi fundado o Instituto, com a minha tia assumindo inicialmente a direção. No final de 2022, quando ela foi para o ministério, houve uma troca de direção e entraram outros diretores antes de mim. Nesse caminho fui entendendo que podia continuar o legado dela de outras formas.

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Foi fácil sair dos bastidores para esse lugar de liderança? Não foi fácil. Eu tinha só 19 anos e era muita coisa para lidar. Até hoje lidamos com exposição e fake news. No próprio dia 14, uma hora depois de tudo o que aconteceu, já surgiu a primeira fake news. Recebi uma enxurrada de mensagens com mentiras absurdas, como dizerem que eu era esposa do Marcinho VP. Não houve muito tempo para processar tudo: eram muitas entrevistas, muita exposição. Passei por um processo de cuidar da minha saúde mental.

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Ser filha da Marielle também deve trazer um peso enorme. O que foi mais complicado nesses anos? Costumo brincar que a gente não teve um dia de paz. Quando eu digo que a gente não viveu o luto, é porque sempre vinha alguma coisa em seguida. Primeiro eram as fake news, logo depois foi deputado quebrando a placa, depois presidente falando mal, investigação atropelada, mudança de delegado… foram vários desafios ao longo desses oito anos. Minha mãe acabou virando um símbolo. Claro que ela era uma mulher, vereadora, preta, tudo isso importa, mas antes de tudo é uma vida humana.

Como você avalia o processo de investigação sobre o assassinato de Marielle e Anderson Gomes (motorista da vereadora)? Para mim, a parte mais sensível sempre foi ouvir os relatos da investigação. Sentar com delegados e ouvir que alguém fez isso, deixou de fazer aquilo, obstruiu ou fugiu. Eu não conseguia entender por que tudo aquilo estava acontecendo. Em alguns momentos, achei que a resposta talvez nunca viesse. Quando, em 2024, os mandantes foram presos, foi outro choque. Porque eram pessoas que já tinham sentado, conversado, apertado a mão da gente. Assimilar isso também foi muito difícil. Mas, ao mesmo tempo, trouxe a paz. Uma sensação de poder respirar, de aliviar um pouco o peso das costas.

Mesmo depois das prisões e investigações, você sente que ainda há coisas que precisam acontecer no caso da sua mãe? Há julgamentos que ainda vão acontecer aqui no Rio, de outras pessoas que estão envolvidas. A gente está nessa expectativa. Não sei exatamente como vai ser este ano, ainda mais sendo um ano de eleição. Mas ainda existem momentos importantes pela frente, alguns júris populares. Claro que nunca será uma justiça plena, porque a justiça plena seria minha mãe estar aqui.

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Você acreditava que sua mãe pudesse alcançar cargos políticos ainda maiores. Existe em você a aspiração de, um dia, também se candidatar a algum cargo? Minha tia até fala que um dia posso morder a língua, mas essa é uma das poucas coisas na vida das quais hoje tenho certeza. Acho que me colocar nesse lugar seria me atravessar muito e me relembrar ainda mais do pior momento da minha vida. Como eu te falei no início, hoje entendo que posso continuar o sonho dela de muitas outras formas. Se eu disser que nunca houve pedidos para eu entrar na política, não seria verdade. Já houve vários pedidos e até alguma pressão. Mas eu realmente não me vejo nesse lugar.

Por que não? Particularmente, sinto que posso contribuir de outra forma. Um dos maiores legados da minha mãe, para mim, não é só político, é também pessoal: fazer aquilo em que você acredita de verdade. Ela sempre foi muito fiel aos seus propósitos, ao que defendia, ao compromisso com as pessoas e com os territórios. Isso é algo que carrego muito. Hoje vou continuar estudando dentro da minha área e participando desses debates a partir do Instituto.

Você mencionou que o esporte sempre esteve presente na sua vida e que agora pretende fortalecer essa pauta de 2026 no Instituto. Como surgiu essa relação com o esporte? O esporte sempre foi uma válvula de escape e também um exemplo dentro da minha família. Minha tia, por exemplo, teve a oportunidade de estudar fora e fazer mestrado nos Estados Unidos por causa do vôlei. Minha mãe também jogava, mas naquela época as condições de vida eram diferentes e ela acabou não seguindo adiante. Desde pequena eu fiz praticamente todos os esportes que você possa imaginar: natação, capoeira, boxe, judô, muay thai, futebol, vários tipos de dança. Sempre gostei muito de me movimentar.

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Você fala em escrever um livro, em realizar vários projetos… Existe algum sonho especial que você queira realizar?

Hoje, um dos grandes sonhos seria ter um Centro de Esportes Marielle Franco. A gente já tem escolas com o nome dela, ruas, até um jardim em Paris, várias homenagens. Mas ter um centro de esportes pensado de forma antirracista, decolonial, voltado especialmente para jovens negros e mulheres negras seria muito importante. Inclusive, no meu TCC eu trato um pouco disso.

E sobre o livro que você quer lançar? Já começou a escrever? Está praticamente pronto. Tem cartas, tem poemas. Alguns textos são datados desde 2018. O último que escrevi foi agora, no Dia das Mães. Vai se chamar Cartas e poemas para minha mãe: tudo que eu escrevi nos momentos de dor e saudade.





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