O novo tarifaço de 25% proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderá afetar cerca de 8,4 bilhões de dólares em exportações brasileiras para o mercado americano, segundo economistas ouvidos por VEJA nesta terça-feira, 2. A estimativa foi calculada com base na parcela das exportações brasileiras para os Estados Unidos que seria atingida pelas tarifas em relação ao valor total embarcado para o país.

O governo americano ameaça impor tarifas adicionais de 25% sobre determinados produtos brasileiros a partir de 15 de julho de 2026. Na avaliação de Washington, a medida se justifica por uma série de fatores, entre eles questões ambientais, supostas práticas consideradas injustas relacionadas ao Pix e a pirataria em centros comerciais populares, como a Rua 25 de Março.

Mais cedo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que o novo tarifaço atingiria cerca de 21% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Segundo Marco Aurélio da Silva, professor de Comércio Exterior do Centro Universitário da Serra Gaúcha, o Brasil exporta aproximadamente 40 bilhões de dólares por ano para o mercado americano. Considerando que 21% desse volume poderá ser afetado, o impacto alcançaria cerca de 8,4 bilhões de dólares.

Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), porém, o efeito tende a ser limitado. As exportações brasileiras para os Estados Unidos representam entre 2% e 3% do PIB nacional. Como apenas 21% desse montante seria atingido pelas tarifas, o impacto potencial sobre a atividade econômica ficaria abaixo de 1%.

“Com a confirmação oficial de que o tarifaço vai impactar 21% do total das nossas exportações para os EUA, a matemática macroeconômica se desenha com precisão: o bloco de produtos efetivamente afetados pela sobretaxa de 25% representa entre 0,42% e 0,63% do PIB brasileiro”, afirma Marco Aurélio da Silva.

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O especialista ressalta, porém, que a análise não deve se limitar ao impacto agregado sobre o PIB. Segundo ele, a parcela atingida pelas tarifas concentra setores de maior valor agregado, como aço, calçados e autopeças, segmentos nos quais as margens de lucro costumam ser mais apertadas e uma barreira tarifária dessa magnitude pode comprometer contratos de exportação.

Já Tatiana Migiyama, especialista do Núcleo Tributário da FIPECAFI, destaca que os efeitos não se restringem aos exportadores. “Mesmo que o impacto direto sobre o PIB seja moderado, os reflexos alcançam toda a cadeia produtiva, incluindo fornecedores, transportadoras, operadores logísticos, portos, armazenagem e diversos serviços ligados à atividade exportadora”, afirma.

A economista também chama atenção para os possíveis efeitos fiscais da medida. “Existe ainda uma dimensão fiscal que não pode ser ignorada. Uma desaceleração dessas cadeias produtivas pode afetar a arrecadação tributária e pressionar ainda mais um cenário fiscal que já é bastante desafiador”, explica.

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Brasil pode reverter novas tarifas de Trump?

As tarifas, no entanto, ainda não entraram em vigor. Antes da implementação das medidas, o governo americano prevê um período de audiências e consultas públicas.

Até 22 de junho de 2026, o Brasil deverá apresentar um pedido de participação na audiência, acompanhado de um resumo de seus depoimentos. Em 1º de julho, termina o prazo para o envio de manifestações por escrito sobre as medidas propostas. A audiência pública está prevista para 6 de julho, enquanto a decisão final e eventual implementação das medidas corretivas estão programadas para 15 de julho.

Os especialistas avaliam que o espaço para negociação continua aberto, embora as tratativas tendam a ser complexas. Na visão deles, o ideal seria que o governo brasileiro concentrasse seus esforços nos aspectos comerciais e econômicos da discussão. Caso siga uma estratégia semelhante à adotada em negociações anteriores, o Brasil poderá obter flexibilizações em alguns setores, ainda que uma reversão completa do tarifaço seja considerada improvável.

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Tatiana Migiyama não vê, neste momento, sinais concretos de uma retirada integral da proposta americana. Ainda assim, considera pouco provável uma aplicação ampla e irrestrita nos moldes inicialmente apresentados.

“A quantidade de exceções já indica uma preocupação dos próprios Estados Unidos com os impactos econômicos internos da medida”, conclui a economista.



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