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O Pix é um dos principais alvos dos americanos e apontar o sistema de pagamento como um problema é tentar agradar as empresas americanas. Para o governo dos EUA, o fato de o Pix ser gratuito para pessoas físicas e ter o próprio Banco Central do Brasil atuando como operador e regulador coloca empresas como Mastercard e Visa em posição desfavorável. Washington também considera que algumas regras de funcionamento da ferramenta favorecem sua utilização e acabam criando barreiras para concorrentes estrangeiros.

Desmatamento, pirataria, corrupção, redes sociais…

A discussão ocorre em meio à ameaça de imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. A medida poderá atingir cerca de US$ 10 bilhões em vendas externas caso seja confirmada após o prazo estabelecido pelo governo americano, em 15 de julho. Além do Pix, o relatório cita preocupações relacionadas ao desmatamento, à pirataria, redes sociais e  corrupção.

Pix não deve sofrer mudanças

Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, a crítica ao Pix não deve resultar em mudanças concretas no sistema brasileiro. “O Pix virou uma instituição na economia brasileira. Acho muito difícil você conseguir reverter qualquer coisa concreta e efetiva na estrutura do Pix no Brasil”, afirmou. Segundo ele, o crescimento da ferramenta reduziu o espaço de serviços tradicionais de transferência financeira e afetou receitas de empresas que cobravam por operações como TED e DOC. “É um instrumento que o mundo inteiro, na verdade, tem olhado como o Brasil tem feito e buscado fazer semelhante”, acrescentou.

Pix é elemento de pressão

Na avaliação de Roberto Dumas, professor de economia do Insper, a disputa tem como pano de fundo os interesses das grandes empresas de cartões. “O Pix é um problema do Mastercard e da Visa, que é isso que eles estão querendo pensar e tentar mudar. Não vai mudar”, afirmou. Para ele, a inclusão do sistema brasileiro na lista de questionamentos funciona mais como um elemento de pressão do que como uma tentativa efetiva de negociação.

Americanos já decidiram taxar o Brasil

Os dois economistas também convergem em um ponto: a tarifa americana parece estar praticamente decidida, independentemente das justificativas apresentadas. Sérgio Vale avalia que as exigências impostas pelos Estados Unidos são difíceis, ou até impossíveis, de serem atendidas dentro do prazo estipulado. “As imposições e as demandas que o governo americano coloca são quase impossíveis de serem feitas no final, o que significa que essas tarifas muito provavelmente vão acabar acontecendo”, afirmou. Na mesma linha, ele entende que Washington já sinalizou sua decisão ao apresentar uma lista extensa de questionamentos sem oferecer tempo suficiente para uma discussão aprofundada.

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‘O desmatamento não resolve da noite para o dia’

Dumas compartilha dessa avaliação e argumenta que temas como Pix, desmatamento e pirataria formam uma espécie de justificativa para uma decisão previamente tomada. “Como é que eu vou resolver o problema do desmatamento até 15 de julho? Não dá para resolver isso daí”, questionou. Sobre o Pix, foi direto: “Ele colocou uma pimenta lá, falar: ‘Eu sei que vocês não vão resolver, mas eu quero colocar os 25%’”. Para o professor, a estratégia está alinhada à visão econômica do presidente Donald Trump, que acredita que tarifas podem fortalecer a arrecadação americana, melhorar a balança comercial e estimular a produção interna.

Contornos políticos

O debate também ganhou contornos políticos. Em entrevista recente, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, alertou que eventuais sanções dos Estados Unidos ao sistema financeiro brasileiro poderiam produzir efeitos indiretos sobre o Pix e elevar custos de conformidade para instituições financeiras. “O que nós não podemos admitir é faca no pescoço, é pressão indevida, intimidação”, declarou. Já a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, reagiu às críticas americanas afirmando que “o Brasil não pode, não vai ser nada de Pix para as empresas americanas ficarem cobrando as taxas caríssimas dos cartões. O Pix é nosso”.

A seção 301

Em relatório preliminar da Seção 301, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu que o sistema brasileiro adota práticas consideradas prejudiciais às empresas americanas de meios de pagamento, abrindo uma nova frente de pressão nas negociações entre os dois países. A decisão foi tomada com base na lei comercial de 1974.



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