Criadores da afiada série argentina Meu Querido Zelador, do Disney+, os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat falaram a VEJA sobre os bastidores da ácida quarta temporada e do fenômeno de audiência que transforma o carismático e manipulador Eliseo (Guillermo Francella) em um espelho dos instintos mais ocultos do público. Conhecidos pelo humor desconfortável e provocativo, os criadores discutem o sucesso global da produção — que já inspira um remake brasileiro —, antecipam os novos rumos do personagem e garantem o futuro da elogiada série O Faz Nada, mesmo após a recente perda do protagonista Luis Brandoni.

Confira a entrevista na íntegra:

A quarta temporada de Meu Querido Zelador parece mais ácida e um pouco mais sombria em alguns momentos. Que história vocês queriam contar exatamente nesta nova etapa da série?

Mariano Cohn: Bem, para nós, ela é um pouco mais luminosa que a terceira; para começar, tem uma estrutura diferente. Queríamos mostrar o “lado B” do poder da política, e é por isso que não empoderamos o Eliseo como presidente; ele tem uma profissão um pouco mais exótica ou estranha. Além disso, queríamos brincar com algo que é proibido nas regras de compliance de qualquer série: fazer o personagem jogar com a própria morte. Sabe, fingir que tem uma doença terminal, simular a situação e desfrutar desse momento. Isso é algo que todos nós já pensamos em algum momento da vida: saber como seremos lembrados, como se pudéssemos assistir ao nosso próprio funeral ou velório. Ouvir o que dizem de nós quando já estivermos mortos.

Gastón Duprat: Sim, essa é uma ideia muito potente que o Mariano mencionou. É muito mórbida e também escura, concordo com o que você disse. Esse tema da necessidade de saber o que vão falar de você quando já tiver partido… é uma grande incógnita, porque às vezes há uma diferença enorme entre o que achamos que somos para os outros e o que realmente somos. Então, Meu Querido Zelador pode se dar ao luxo de averiguar isso.

De que maneira Meu Querido Zelador dialoga com a realidade da Argentina como um todo, nessa questão do poder de um funcionário subalterno que chega a um cargo tão alto, por assim dizer?

Cohn: Bem, a construção é um pouco diferente. Nós gostávamos da ideia de ele alcançar a instância mais alta possível do poder agindo pelas sombras, mas, uma vez lá, ele se cansa disso. Então ele decide buscar a transcendência, entende? Vai para um lado mais metafísico. Acho divertido pensar que, quando você pode ter tudo ao alcance das mãos e isso se torna entediante, o que acontece depois? Esse é o estopim desta temporada: quando você consegue tudo, se entedia e pensa: “Bom, o que mais posso fazer?”.

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O Eliseo é fascinante justamente porque transita entre o carisma e o desconforto. Como vocês calibram esse equilíbrio no personagem?

Duprat: O Eliseo tem uma particularidade que, na verdade, muitas pessoas — se não todas — têm: na vida social, nós não nos permitimos dizer exatamente o que pensamos, porque senão nos daríamos muito mal. O Eliseo, por outro lado, muitas vezes faz justamente isso, e isso gera um grande fascínio porque vemos as suas duas facetas: quando ele está sorridente e amável, e depois quando vemos o que ele realmente pensa. Por isso, aqui na Argentina e em várias partes do mundo onde a série fez sucesso, ela funciona como um espelho do próprio espectador. Todos nós temos as nossas atitudes obscuras, e assistir a O Encarregado nos lembra disso. Há um grande fascínio porque todos nos reconhecemos, pelo menos em parte, como o Eliseo em algum momento das nossas vidas. Ele condensa tudo isso.

Cohn: E o fato de um vilão como o Eliseo, um cara supostamente mau, gerar tanta empatia e afinidade com o público é um fenômeno que chama muito a atenção. Teoricamente, poderíamos dizer que personagens tão “filhos da p*” como ele gerariam rejeição, mas acontece o oposto: gera muito afeto, carinho, as crianças adoram. Recentemente, em Buenos Aires, colocaram uma estátua de bronze do Eliseo em uma praça para as pessoas tirarem fotos. É um caso bem único. A enorme repercussão da série tem a ver com isso.

Meu Querido Zelador terá uma versão brasileira em breve. Gostaria de saber se vocês estão acompanhando esse projeto ou o que esperam exatamente do resultado.

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Cohn: Olha, sei que é uma versão que está sendo feita, mas não estamos muito por dentro, para ser sincero. Nós cuidamos da versão argentina. Obviamente é uma franquia da Disney, e acho que eles também estão planejando ou pensando em fazer uma versão americana. E isso que o Gastón mencionou — essa figura de herói/vilão — não é algo exclusivamente argentino. Acho que pode acontecer em qualquer lugar do mundo: alguém que, a partir de um pequeno espaço de poder, consegue controlar a vida de muitas pessoas. Pode ser aqui, no Brasil, nos Estados Unidos, onde você imaginar.

Duprat: Mas nós não temos envolvimento com esse remake. O Meu Querido Zelador é uma ideia minha e do Gastón que depois foi produzida pela Disney, e eles fazem os seus remakes ou versões com total liberdade.

Cohn: Veremos qual fica melhor depois.

É curioso, porque Meu Querido Zelador parece tão específico… como um tipo de humor tipicamente argentino, não acham? 

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Duprat: Sim, o que acontece é que quando a gente idealiza as coisas, neste caso junto com o Mariano, pensamos de fato em algo estritamente argentino. Mas depois descobrimos — e isso já nos aconteceu muitas vezes — que aquilo que é estritamente local acaba não sendo tão local assim, e gera o mesmo impacto em países muito diferentes. Muitas vezes partimos de premissas ou ideias muito locais que, para nossa surpresa, se internacionalizaram. Não é a primeira vez. Sim, O Encarregado de outros países terá suas nuances, mas o espírito é o mesmo. Mas, repetindo, não temos envolvimento com essas versões.

O que vai acontecer com a nova temporada de O Faz Nada após a morte de Luis Brandoni, intérprete do protagonista Manuel? 

Cohn: O Luis era, antes de tudo, um grande amigo meu e do Gastón, um amigo muito próximo. Trabalhamos juntos e compartilhávamos uma grande amizade. Uma amizade recente, pois foi na última etapa da vida dele que nos conhecemos, por conta de alguns filmes que fizemos, como Minha Obra Prima (2018) e 4×4 (2019). E, felizmente, acho que ainda teremos Brandoni por um bom tempo, porque gravamos muito com ele no ano passado. Muitas das cenas já estão gravadas e agora a série está em desenvolvimento. Obviamente, por razões evidentes, a ideia era filmar mais com ele, mas há muito material gravado e a série tem condições de continuar. Acho que a melhor maneira de lembrá-lo é manter o seu trabalho vivo e continuar fazendo projetos onde ele esteja presente.

Existe algum tema que vocês sentem que ainda não tinham explorado no universo da série e que finalmente chegou a hora de contar?

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Duprat: Para mais adiante, pensamos que o Eliseo é um cara que sempre se negou aos prazeres que, para todo mundo, são incríveis e aspiracionais, como viajar, ter bens, carros, casas… Ele também não entende muito bem a dinâmica de relacionamentos e sexo. O personagem já manifestou isso em várias ocasiões. Mas, como ele vê que todo mundo tem um parceiro e que muitos casais são felizes, achamos que seria interessante explorar o que acontece se o Eliseo decidir procurar um par.

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