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Olimpíadas com doping liberado parece uma ideia saída de uma distopia de baixa qualidade. Ainda assim, isso aconteceu. Nos “Enhanced Games” (algo como “Jogos Aprimorados”, em português), realizados recentemente em Las Vegas, nos Estados Unidos, atletas utilizam abertamente substâncias restritas para melhorar performance, sem esconder, disfarçar e mesmo preservar a ideia de um esporte dentro dos limites humanos.
O marketing era justamente de que essa seria uma Olimpíada dos “superhumanos”. Muito marketing, pouca performance. Aconteceu um único “recorde mundial” no evento e este, evidentemente, não entra para a história oficial.
De qualquer forma, foi esta a proposta dos organizadores: partindo do pressuposto de que muitos atletas já usam substâncias para melhorar desempenho competitivo, vamos abandonar a hipocrisia, e permitir esse uso abertamente.
A ousadia chama a atenção. Os produtos utilizados pelos atletas foram vendidos no website do evento. Cardiologistas, imunologistas, endócrinos, geneticistas e outros profissionais da saúde supervisionaram o preparo e as competições.
O evento contou com provas de natação, corrida e levantamento de peso, distribuiu milhões de dólares em prêmios e produziu exatamente aquilo que pretendia: manchetes. Os organizadores tentaram associar o evento com uma estratégia de pesquisa para alavancar o conhecimento científico na área dos esportes.
Na mesma semana dos Enhanced Games, morreu aos 22 anos Gabriel Ganley, influenciador fitness brasileiro com 2,4 milhões de seguidores, conhecido pelos enormes músculos e por falar abertamente sobre seu uso de anabolizantes. Tristemente, juntou-se a uma lista cada vez maior de fisiculturistas que morreram precocemente.
Em podcasts, Ganley dizia ter consciência de que provavelmente não teria a mesma expectativa de vida que outras pessoas (“Eu sei que sigo uma carreira que vai encurtar minha vida em 10, 15 anos…”, afirmava). O baixo grau de estranhamento na época diante desse tipo de fala talvez seja parte da história: como se aceitar uma morte décadas antes do esperado fosse apenas parte do pacote. A causa divulgada da morte foi cardiomiopatia hipertrófica, condição cardíaca associada a maior risco de morte súbita.
É tentador argumentar que isso é diferente, porque fisiculturismo profissional é um contexto extremo. Isso é uma meia verdade. Basta passar algum tempo nas redes sociais, em perfis da “galera do shape”, para perceber que as fronteiras entre o extremo e o cotidiano ficaram borradas.
A cultura da bomba
Mas afinal, de quais substâncias estamos falando? Os chamados esteroides anabolizantes androgênicos — popularmente conhecidos simplesmente como anabolizantes (ou, na gíria, “bomba”, “suco”…) — são derivados sintéticos da testosterona.
Desenvolvidos originalmente para usos médicos específicos, passaram a ser amplamente utilizados para ganho muscular, redução de gordura corporal e melhora de desempenho físico. E isso não aconteceu por acaso: essas substâncias podem, de fato, aumentar massa muscular e força, acelerar recuperação, reduzir sensação de fadiga e permitir treinos mais intensos ou frequentes.
Ao contrário do que parte do mundo fitness nas redes sociais frequentemente sugere, as indicações médicas baseadas em evidências são restritas. Em homens, concentram-se principalmente em casos de deficiência comprovada de testosterona, geralmente com quadro clínico e confirmação laboratorial (e não em limites normais mais baixos ou sintomas inespecíficos como cansaço ou baixa libido isoladamente).
Em mulheres, as evidências são mais limitadas e se concentram principalmente no transtorno do desejo sexual hipoativo — condição complexa, frequentemente influenciada não apenas por fatores biológicos, mas também por relacionamentos, saúde mental, contexto de vida e outros fatores psicológicos e sociais.
Menopausa, fadiga, alterações corporais, envelhecimento ou redução da libido, isoladamente, não constituem indicação automática para terapia hormonal.
No Brasil, nomes como testosterona injetável, nandrolona (Deca), oxandrolona, estanozolol, trembolona e boldenona circulam com naturalidade impressionante, além de apelidos como “chip da beleza”, usados para diferentes implantes hormonais. Frequentemente são organizados em “ciclos”: períodos planejados envolvendo múltiplas substâncias, muitas vezes acompanhadas de outros agentes hormonais, estimulantes, diuréticos e compostos diversos.
Entre os efeitos adversos estão acne importante, infertilidade, alterações menstruais, retenção hídrica, alterações hepáticas, hipertensão, aumento do risco cardiovascular e do colesterol, alterações de humor, irritabilidade, aumento da agressividade, sintomas depressivos e padrões de uso compulsivo ou dependência, que podem persistir mesmo diante de consequências físicas importantes. Engrossamento permanente da voz, aumento do clitóris, atrofia testicular, crescimento excessivo de pelos e outras alterações corporais também podem ocorrer e, em parte dos casos, são irreversíveis.
Disseminação
Não estamos mais falando, nem de longe, de um fenômeno restrito a homens, fisiculturistas profissionais ou atletas de elite. Estudos brasileiros com mulheres fisicamente ativas mostram prevalências surpreendentemente altas: entre praticantes recreacionais de musculação, 13,3% relataram uso ao longo da vida; entre mulheres que praticavam treinos funcionais de alta intensidade, esse número chegou a 22%, com parte importante iniciando o uso após entrar nesse universo.
A estética continua aparecendo como principal motivação, mas performance, disposição, recuperação e melhora corporal vêm ganhando espaço. Mais preocupante: médicos aparecem repetidamente entre as principais fontes de fornecimento, ao lado de amigos e profissionais de educação física, e quase 60% das usuárias em um dos estudos relataram orientação médica para utilização.
Aliás, um estudo com 1.213 ginecologistas no Brasil sugere uma ampla e possivelmente exagerada disseminação da prescrição de testosterona para mulheres, inclusive em diferentes contextos clínicos. Em algum momento, prescrições inadequadas se tornaram frequentes o suficiente para que frases como “use com acompanhamento médico” deixassem de funcionar como selo de segurança.
Recentemente, Carlos Eduardo Viterbo, influenciador brasileiro da área de medicina baseada em evidências, e crítico contundente da prescrição indiscriminada de anabolizantes, publicou um emocionante relato pessoal contando que havia utilizado essas substâncias antes de iniciar seu trabalho atual de divulgação científica. A postagem, que gerou grande engajamento, acumulou inúmeros relatos semelhantes, incluindo de profissionais da saúde: “eu também usei”, “minha mãe, de 66 anos também caiu nessa”. Outros comentários seguiam uma lógica parecida: “fui em uma médica e ela me passou”, “minha ginecologista integrativa receitou chip de testosterona”, “usei gestrinona, oferecida por um médico do esporte para bem-estar e disposição”, “um nutrólogo me convenceu a usar gel de testosterona bioidêntica”.
Os Enhanced Games parecem absurdos. E são. Mas também são reflexo de uma cultura mais ampla que passou a tratar o corpo como um projeto permanente de otimização. E isso não se limita ao uso de anabolizantes. Inclui também a crescente normalização de procedimentos estéticos repetidos, invasivos e, por vezes, extremos. Não são fenômenos separados.
Na semana passada, mais uma mulher morreu no Brasil após se submeter a múltiplos procedimentos, incluindo aplicações de PMMA (basicamente um plástico) nas nádegas.
Tudo isso faz parte de uma cultura em que aparência e desempenho físico deixaram de ser apenas escolhas e passaram a funcionar como exigências contínuas. Em que profissionais da saúde, em vez de atuarem como contrapesos, frequentemente acabam funcionando como facilitadores desse processo. Em que rugas, gordura, cansaço, perda de desempenho e sinais de fragilidade deixam de ser apenas parte da vida e passam a ser tratados como falhas requerendo correção. Em que envelhecer, desacelerar ou simplesmente mudar fisicamente — mesmo que minimamente — passa a ser visto como perda de relevância, desejo e presença.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram: @ilanapinsky_