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Difícil definir o enredo de Pesquisa de Campo sobre o Sexo Ucraniano, um dos mais importantes livros daquela que, para muitos críticos e estudiosos, é a maior voz da literatura ucraniana hoje.
Não é só uma história de amor, com seus encontros e desencontros, gozos e dores. Não é só uma história de imigrantes, gente que deixou uma terra atormentada pela “sina da inexistência”.
Mas pouco importa o enredo. Pois Pesquisa de Campo sobre o Sexo Ucraniano, obra-prima de Oksana Zabuzhko, é daqueles raros livros que falam de tudo, com todos, e em menos de 200 páginas. Pois é a “voz”, como diz a autora a VEJA, “mais do que a história em si, que faz um bom livro”.
Livro que sai pela primeira vez no Brasil pela editora Carambaia na esmerada tradução de Emílio Gaudeda.
E que voz tem Oksana Zabuzhko, a autora de 65 anos que publicou este romance há três décadas, em 1996. Nele acompanhamos a relação turbulenta entre uma poeta e seu par (na arte, na paixão, no desterro, na contenda…), tendo como pano de fundo, ou melhor, personagem de fundo, uma Ucrânia sufocada pelo regime soviético e louca para se libertar – e, enquanto isso não ocorre, talvez a melhor saída seja tentar ganhar o pão, a poesia e a liberdade cruzando o Atlântico.
Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano
Pesquisa de Campo sobre o Sexo Ucraniano é uma história de amor, que é uma história política, que é uma história da maior busca da literatura: a de criar mundos e sentidos com os cacos de uma realidade nem sempre feliz. Uma (re)construção operada em estilo único, em que cenas, pensamentos íntimos e diálogos se cruzam em frases longas, sinuosas, entremeadas por mil e um travessões.
Pois assim é a vida, não? E é assim que ela irrompe na literatura, conectando conflitos e alegrias na alcova com as guerras e as esperanças de nações inteiras. E é por isso que, como destaca a autora, livros têm o poder de salvar vidas – e talvez países.
Com a palavra, Oksana Zabuzhko.
No posfácio da edição brasileira, a senhora diz que gostaria de já ter esquecido este livro e que seria mais feliz em um mundo onde ele pudesse ser esquecido. Diante dos acontecimentos globais, incluindo o retorno de guerras e regimes autoritários, isso não seria uma utopia? Claro que é uma utopia — infelizmente! Eu só queria deixar claro que definitivamente preferiria viver em um mundo melhor — um mundo governado pelo amor, não pelo orgulho e pela ganância como o de agora — a viver em um mundo repleto de bons livros “eternamente atuais”, mesmo que um ou dois deles por acaso sejam meus. O grande poeta ucraniano Vasyl Stus, que morreu na prisão soviética em 1985, poucos anos antes do colapso da União Soviética, escreveu que, se a vida na Terra fosse melhor, ele não teria escrito poemas e teria se tornado agricultor. Acho que agora já amadureci o suficiente para entender o que ele quis dizer – embora, ao contrário de Stus, eu não domine nenhuma outra habilidade além de transformar a vida em palavras.
E o que esse dom tem a oferecer que outras atividades não podem oferecer? O bom da profissão de escritor é que as palavras às vezes têm o poder de curar as dores das pessoas e até mesmo de salvar vidas. “Obrigada, seu livro me salvou do suicídio” – essa é a confissão que ouvi mais de uma vez das leitoras de Pesquisa de Campo sobre o Sexo Ucraniano, e a considero o maior reconhecimento para um autor. Recentemente, identifiquei uma nova categoria vulnerável de leitoras – as adolescentes cujos primeiros encontros amorosos foram desastrosos porque seus Romeus foram sexualmente educados pelo Pornhub e bastante imaturos emocionalmente: o preço que essa geração terá que pagar pelos “efeitos colaterais” imprevisíveis da revolução digital. Ao menos elas terão meu livro à disposição.
No livro, a senhora menciona a “sina da inexistência ucraniana”. Como a invasão russa dialoga com esse diagnóstico? A guerra finalmente nos tornou visíveis aos olhos do resto do mundo, mas não por causa da invasão russa em si – quando a Rússia invadiu a Geórgia em 2008, ninguém se importou com a situação daquele pequeno país. Não, foi devido à resposta ucraniana à invasão: o fato de termos lutado e provado sermos mais fortes que o agressor. Isso pegou completamente de surpresa todos os tomadores de decisão e especialistas políticos ocidentais, e os fez começar a mudar sua mentalidade. É bastante deprimente, por um lado, perceber que, a menos que você mostre que pode derrotar o Estado que costumava ser a potência, ninguém se importa se você está vivo ou morto. Mas eis uma das lições que aprendemos com a história contemporânea: ser conhecido, “existir” no cenário mundial, como minha heroína sonha que a Ucrânia seja – com seus livros, filmes e músicas, seus pensadores, acadêmicos e revolucionários, sua história tumultuada e ricas tradições –, contribui para a segurança nacional mais do que qualquer outra coisa. É simplesmente muito mais difícil exterminar aqueles cuja cultura é mundialmente conhecida.
Toda história de amor é também uma história política? Enquanto todos os seres humanos forem animais políticos, como disse Aristóteles, tudo o que fizermos em nossos relacionamentos sociais vai se tornar parte de uma história política. Arrastamos para nossas relações os longos rastros de nossas histórias pessoais, marcados pelos vestígios da Grande História, que continua moldando nossas vidas sem que tenhamos consciência de tudo. É justamente isso que mais me fascina e o que tento perseguir em todos os meus escritos: as marcas d’água da Grande História que se manifestam na textura da vida cotidiana, nas casas, nas cozinhas, na cama. Nesse sentido, posso me considerar uma escritora política, mas de uma maneira diferente de, digamos, Jorge Amado ou Mario Vargas Llosa, aos quais admiro. Como mulher, sei muito bem como até mesmo nossos corpos são “politizados” de forma astuta, e busco ler o político em seu nível mais atômico ou invisível.
Há uma bela passagem em seu livro que medita sobre o papel do escritor como uma tentativa de usurpar o papel de Deus, embora, em maior ou menor grau, a realidade se imponha à sua obra. O grande fracasso do autor é a incapacidade de criar algo ex nihilo? O que pensa sobre isso hoje? Todo artista aspira criar um mundo próprio, impossível de ser erradicado. No entanto, toda arte nada mais é do que interpretação. Hoje em dia, quando o número de títulos publicados em nosso planeta cresce a cada ano em progressão geométrica, torna-se particularmente óbvio quão limitados somos em nossa escolha de enredos e reviravoltas, com que frequência os autores acabam repetindo as inovações uns dos outros sem saber – afinal, como disse Jorge Luis Borges, só existem quatro histórias… Todos usamos os mesmos “modelos” para copiar, desde os tempos da caverna de Platão. O que permanece, porém, e sempre permanecerá insubstituível, é a presença viva da personalidade do autor fluindo através das palavras como a voz de um amigo. É essa voz, mais do que a história em si, que faz um bom livro, e nenhuma IA, por mais avançada que seja, será capaz de fazer isso por nós. Sempre precisaremos de autores.