O presidente americano está vivendo uma fase de diversos percalços, mas nada se compara às reações que virão se ele, na ânsia de resolver uma guerra muito mais complicada do que imaginava quando a iniciou, ceder às pressões dos negociadores do regime iraniano e entregar qualquer quantidade de dinheiro que seja. Fala-se desde 12 bilhões de dólares congelados sob a custódia do Catar até num fundo de reconstrução de 300 bilhões de dólares.

Para Trump, seria uma desmoralização pesada. Lembre-se que ele combateu veementemente o acordo de Barack Obama com o Irã que, entre outras concessões, liberou o envio literal de um avião de dinheiro: 1,7 bilhão de dólares acondicionados em engradados de madeira. Nenhum entendimento que interrompa substancialmente o programa nuclear bélico – e nada indica que isso vá acontecer – compensaria a sensação de que Trump estaria simplesmente pagando o regime dos aiatolás para sair da briga.

Apesar de sucessivas insinuações de que a minuta estava decidida, há posições que continuam inconciliáveis – e bombardeios pontuais recíprocos. Trump tem que apresentar um acordo bom para não parecer não só fraco como vencido na mesa de negociações com o regime iraniano.

Qual teria sido o propósito da guerra se o Irã não for impedido de caminhar para a produção de bombas nucleares? Não são só opositores, mas políticos e comentaristas simpáticos a Trump que fariam a pergunta.

FESTA DESFALCADA

O momento tem vários componentes negativos para o presidente, desde a reação furiosa de senadores republicanos a um fundo bilionário de compensação para os baderneiros que tomaram o Congresso no 6 de janeiro, uma iniciativa vista como uma forma de premiar atos de vandalismo, mesmo que as punições, como no Brasil, tenham sido desproporcionais.

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Outras derrotas de Trump operam mais no campo simbólico: ele quer ser visto como o presidente que recuperou a glória de Washington e preparou comemorações antológicas para o aniversário da independência, mas a construção de um Salão de Baile, pelo qual é obcecado, no lugar de um pavilhão demolido da Casa Branca, foi interrompida por ordem da Justiça. Um juiz também mandou tirar o nome do presidente acrescentado ao Centro Kennedy – nesse caso, com toda razão, pois homenagear políticos vivos repugna a qualquer regime democrático, ainda mais nos Estados Unidos, fundados sob a austeridade e a continência quase litúrgica dos Pais da Pátria.

A festa dos 250 anos do país que esses gênios criaram está sofrendo vários desfalques de artistas que não querem ser associados a comemorações dominadas por Trump, conferindo-lhes um caráter de teor político. Quem não gosta de ver o vermelho PT infiltrado em eventos onde deveriam vigorar os princípios da impessoalidade e da neutralidade também não pode gostar do que Trump está tentando fazer.

Se os americanos estivessem satisfeitos com o governo, as jogadas de Trump, inclusive o projeto de uma nota de 250 dólares com sua efígie, seriam vistas pelo que são, manifestações de narcisismo infantil e falta de compostura presidencial – características nada estranhas ao modus operandi de um presidente como jamais existiu outro igual.

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Acontece que Trump vai mal em matéria de popularidade. Pela média das pesquisas do site RealClear, a aprovação a ele está na casa dos 40,7%, contra 57,7% de desaprovação. A pesquisa mais negativa, do Quinnipiac, dá 34% de aprovação, um número perto de catastrófico.

SOLUÇÃO MÁGICA

O aumento de preços é o ponto fraco de Trump – e um dos motivos da pressão para que o “dossiê iraniano” seja encerrado logo, liberando mais fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz de forma a aliviar um dos fatores da pressão inflacionária, embora existam outros e não se deva imaginar que a gasolina mais barata, ou menos cara, resolveria tudo.

Trump tem assim a pressão para fazer logo um acordo, mesmo que seja considerado fraco, ruim para a imagem dos Estados Unidos, terrivelmente frustrante para os iranianos que ansiavam por uma mudança de regime e péssimo para Israel, que sequer está sendo consultado no processo atual.

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Terá Trump uma solução mágica para vender um pacote mais palatável? Conseguirá promessas sobre o urânio enriquecido do Irã que lhe permitam cantar vitória? E, acima de tudo, recuperará a confiança de pelo menos uma parcela dos americanos no seu programa econômico ambicioso, que pretende recalibrar a economia tal como se instaurou na era da globalização para uma espécie de nacionalismo autossuficiente?

É uma guinada épica, mas os cidadãos comuns pensam mesmo é na conta do supermercado – e se possível em ver logo o fim de uma guerra profundamente impopular. A lista de tarefas de Trump está superlotada – e sem soluções fáceis.



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