Belo Horizonte — O endividamento das famílias mineiras permanece em patamares elevados e continua pressionando o orçamento doméstico. Em Belo Horizonte, 88,5% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida em abril de 2026, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), analisada pela Fecomércio-MG. Embora o índice tenha caído 1 ponto percentual em relação a março, o nível ainda é considerado extremamente alto.

O cartão de crédito segue como o principal responsável pelo endividamento na capital. Ele aparece em 97% dos casos. Para a economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins, esse dado revela que o cartão de crédito está trocando de função.

“O cartão de crédito deixou de ser utilizado apenas para compras pontuais e passou a funcionar, em muitos casos, como complemento da renda mensal. Isso aumenta o risco de descontrole financeiro, principalmente em um ambiente de juros elevados”.

Inadimplência e o peso sobre as famílias

A situação fica ainda mais delicada quando se analisa a inadimplência. Em Belo Horizonte, 63% das famílias possuem contas em atraso, alta de 0,4 ponto percentual em comparação com o mês anterior. O problema é mais grave entre as famílias de menor renda: entre aquelas com ganhos de até dez salários mínimos, a inadimplência chega a 65,1%, contra 50,3% nas famílias de maior poder aquisitivo.

Outro ponto preocupante é o tempo de atraso das dívidas. Entre os inadimplentes, 43,9% afirmam estar com contas vencidas há mais de 90 dias. O atraso médio nas contas em BH é de 60,4 dias. Isso significa que uma parcela significativa das famílias está com o nome sujo por longos períodos, o que reduz o acesso a novo crédito e compromete ainda mais o orçamento.

Em média, as famílias belo-horizontinas terão a renda comprometida por 8,1 meses devido às dívidas. Em 83,2% dos casos, as dívidas representam mais de 10% da renda mensal da família. Em 28,2% dos lares, o peso das parcelas ultrapassa 50% do orçamento doméstico.

Apesar do cenário desafiador, há um pequeno sinal positivo: o percentual de consumidores que acreditam não ter condições de quitar suas dívidas caiu para 23,6%, embora siga elevado (25,1%) entre as famílias de menor renda.

Brasil vive quarto recorde consecutivo de endividamento

A realidade de Belo Horizonte reflete, de forma amplificada, o que acontece no restante do país. Segundo a PEIC da CNC, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,9% em abril de 2026 — o quarto recorde consecutivo. Em março, o índice já estava em 80,4%, e em abril de 2025 era de apenas 77,6%.

A inadimplência nacional também bateu recorde: em abril, o Brasil tinha 83,3 milhões de negativados, o maior número da série histórica do Serasa. A maior fatia está entre pessoas de 41 a 60 anos (35,6%), seguida pela faixa de 26 a 40 anos (33,4%).

O valor médio dos acordos de renegociação fechados em abril foi de R$ 804, com mais de R$ 10,9 bilhões em descontos concedidos. Ainda assim, permanecem disponíveis mais de 655 milhões de ofertas de negociação, totalizando mais de R$ 1 trilhão em dívidas passíveis de renegociação.

Fatores que explicam a crise

Economistas da CNC apontam que a combinação de juros ainda elevados, alta nos preços dos combustíveis (especialmente diesel) e incertezas internacionais — como o conflito no Oriente Médio — tem pressionado o custo de vida. Isso força as famílias a recorrerem ao crédito até para despesas básicas, como transporte e alimentação.

O endividamento cresceu em todas as faixas de renda no Brasil. No grupo de até três salários mínimos, o índice subiu para 83,6%. Já na faixa acima de dez salários mínimos, chegou a 70,8%.

A CNC destaca que, embora o endividamento continue avançando, a inadimplência tem se mantido relativamente estável (29,7% em abril), o que sugere que parte das famílias ainda consegue administrar as dívidas, mas em um equilíbrio frágil.

Perspectivas e recomendações

Gabriela Martins, da Fecomércio MG, reforça a importância do planejamento financeiro para preservar o consumo e reduzir os impactos da inadimplência no médio prazo. “O consumidor precisa priorizar o equilíbrio do orçamento, renegociar dívidas sempre que possível e evitar assumir novos compromissos sem previsibilidade de pagamento. O controle financeiro é essencial”, concluiu.

Especialistas acreditam que o ritmo de queda da Selic será mais lento que o esperado inicialmente, o que deve manter o endividamento elevado por mais tempo.



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