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Nasci e cresci em Sena Madureira, no interior do Acre, uma cidade pequena onde tudo chama a atenção além da conta. Como sempre fui muito alta e magra, isso me custou caro na escola, onde era alvo de bullying. Me chamavam de girafa, de Maria Palito, meus colegas se recusavam a sentar ao meu lado. Acumulei a dor em silêncio, até não conseguir mais. Aos 15 anos, fui diagnosticada com depressão grave. O psiquiatra assinou um laudo dizendo que eu não tinha condições de continuar estudando por causa da medicação, e abandonei o colégio. Minha mãe, que sempre cultivou o sonho de ser miss, me inscreveu então em concursos de beleza, achando que aquilo poderia trazer alguma motivação e me tirar da tristeza. Foi assim que ganhei a coroa de Miss Teen Acre, e minha vida começou a mudar de direção. Uma grande agência acabou me descobrindo, uma coisa levou à outra e hoje, aos 19 anos, meu rosto estampa a nova campanha global da Gucci, algo impensável para a menina que tinha medo de levantar a mão na sala de aula.

Para que eu pudesse seguir carreira na moda, minha mãe vendeu casa, carro, móveis e até uma academia que tinha no Acre. Com esse dinheiro, nos mudamos para São Paulo. Morávamos em uma república e sobrevivíamos apenas com a renda do aluguel dos equipamentos da academia dela. Passei um ano e meio sem ver o resto da família porque não havia como bancar a passagem. Mas não fiquei parada. Estudei técnicas de maquiagem, área em que fazia bico, e me matriculei em um curso de farmácia para conseguir emprego como jovem aprendiz. Nada, porém, me fez tão bem quanto as passarelas. Aos 16, assinei contrato com a WAY Model, a mesma agência de grandes nomes como Alessandra Ambrósio e Candice Swanepoel. Meu primeiro trabalho foi um editorial para a Vogue Brasil. Depois, vieram a São Paulo Fashion Week, onde cheguei a fazer oito desfiles em uma única edição, sem quase dormir, e campanhas para várias marcas brasileiras.

Dois anos atrás, decidi me arriscar pelas temporadas internacionais, um universo ultracompetitivo. Na primeira tentativa, a agência me mandou para Paris e Milão, nunca tinha nem usado o passaporte. Fazia mais de quinze testes por dia e ouvia um “não” atrás do outro. Mesmo assim, não desisti e voltei à luta. O ritmo dos testes era tão louco que fiquei anêmica. Mas continuei a trabalhar: não podia me dar ao luxo de perder uma boa oportunidade. Precisei fazer terapia para aguentar o peso. E enfim entendi que se cuidar não é fraqueza. Foi aí também que me aproximei da minha origem indígena. Sou descendente dos Huni Kuin, a maior tribo acreana, algo que passou a ter forte significado para mim. Durante muito tempo, senti que pessoas indígenas e latinas como eu eram quase invisíveis em meio aos padrões estabelecidos na moda. Comecei a falar sobre o assunto nos castings e a explicar minha cultura. Aí percebi que essa identidade era justamente o que me tornava única.

Curioso como isso me fez ganhar confiança e mudar de postura. Foi quando passei a ir bem nas seleções internacionais. Em outubro de 2025, estreei na Paris Fashion Week desfilando com exclusividade para a marca francesa Chloé. Inacreditável ter chegado tão longe. Desde então, já trabalhei para grifes como Isabel Marant, Lacoste, Emporio Armani e outras. Meu maior objetivo continua sendo manter a estabilidade financeira para sustentar minha família. Já consegui tirar minha mãe da república, dei móveis e eletrodomésticos para ela repor os que tinha vendido lá atrás e ajudo meu pai, que ficou no Acre. Resolvi terminar os estudos enquanto trabalho em Londres, onde estou sozinha, aprendendo a me virar, inclusive com a língua. A moda transformou a minha vida, sem dúvida, mas o que mais me orgulha mesmo é saber que, através dela, também consegui transformar a de pessoas que nunca soltaram a minha mão.

Gabriely Dobbins em depoimento a Sara Salbert

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996



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