O câncer não é uma doença única, mas um conjunto de mais de 100 condições distintas, todas originadas por alterações no código genético das células. Quando essas alterações se acumulam e o organismo não consegue eliminá-las, as células passam a se multiplicar sem controle, dando origem aos tumores. Esse é o entendimento consolidado pela ciência nas últimas décadas, conforme explicaram especialistas no programa CNN Sinais Vitais.
Confira a conversa do Dr. Roberto Kalil no CNN Sinais Vitais ao vivo na CNN Brasil, neste sábado (23), às 19h30, com os especialistas Paulo Hoff, professor titular de Oncologia da FMUSP e diretor do ICESP, e Maria Ignez Braghiroli, oncologista clínica do ICESP, para debater a prevenção do câncer.
Paulo Hoff detalhou o processo biológico por trás do surgimento da doença. “Nós sabemos hoje que o câncer não é uma doença. É um conjunto de doenças que tem características muito similares, e a sua origem está numa alteração do código genético”, afirmou.
Segundo ele, normalmente são necessárias de quatro a sete mutações acumuladas para que um tumor se forme.
Quando essas mutações reativam os chamados proto-oncogenes — utilizados na formação do corpo — ou desligam genes supressores de tumor, o organismo perde sua capacidade natural de correção.
O que determina a agressividade de um tumor
A oncologista clínica do ICESP Maria Ignez Braghiroli explicou que a agressividade de um câncer está diretamente relacionada ao tipo de alterações moleculares acumuladas pelas células.
“A agressividade vem de que alterações essas células terão acumulado. E por isso, o mesmo tumor pode ser mais agressivo ou menos agressivo, a depender de que alterações moleculares ele tenha”, disse Braghiroli.
Essas características também influenciam diretamente a resposta ou não aos tratamentos instituídos.
Paulo Hoff complementou a explicação, destacando que todos os seres humanos desenvolvem células com mutações quase diariamente, mas que o organismo saudável é capaz de eliminá-las.
O problema ocorre quando esse mecanismo de defesa falha.
“A pessoa descobre o câncer e rapidamente tem uma evolução desfavorável, enquanto outras pessoas têm um câncer que fica anos e anos se arrastando. A razão dessa diferença é que modificação exatamente aconteceu dentro das células”, explicou.
O futuro: tratamentos agnósticos e personalizados
Os especialistas apontaram que a oncologia caminha de forma acelerada para uma abordagem cada vez mais individualizada.
Maria Ignez Braghiroli destacou que muitas das medicações utilizadas atualmente já não são direcionadas ao órgão de origem do tumor, mas sim às alterações moleculares presentes nele.
“Isso é o que se chama de aprovações agnósticas. Eles dependem mais da alteração do que de onde aquela doença surgiu”, explicou a oncologista.
Paulo Hoff foi além e projetou uma transformação profunda na forma como a medicina oncológica será praticada no futuro.
“Você não vai tratar câncer de pulmão ou câncer de estômago ou câncer de mama. Você vai tratar um câncer que surgiu por determinada alteração molecular e vai focar neste aspecto do tratamento”, afirmou Hoff.
Segundo ele, esse modelo já está em curso em certo grau e tende a se tornar cada vez mais comum, tornando insustentável no longo prazo o modelo atual baseado apenas na localização do tumor.