A certificação de soja de baixo carbono desenvolvida pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) pode abrir espaço no mercado de crédito de carbono no Brasil, assim como agregar valor e qualidade à indústria de alimentos a partir do selo.
A demanda por créditos de carbono tem aumentado nos últimos anos devido a fatores como diversas políticas e regulamentações governamentais voltadas para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE). No Brasil, porém, a regulamentação do mercado de carbono ainda tramita e carece de modelos de contabilização e registro de emissões efetivas.
O país é visto como um grande potencial de expansão nesse setor, principalmente pela capacidade de geração de créditos e certificação de baixa emissão em culturas produzidas no país. A perspectiva é que esse mercado tenha impacto sobre diversas indústrias e cadeias produtivas.
Roberta Monteiro, chefe de pesquisa da Embrapa Soja, destaca o desenvolvimento do protocolo de certificação para soja, o que pode impactar o mercado de crédito de carbono regulamentado.
“Esse protocolo reúne práticas sustentáveis que podem ser utilizadas na produção da soja, estimulando produtividade ao mesmo tempo em que preservam o meio ambiente”, disse à CNN Brasil.
O foco do certificado é consolidar boas e obrigatórias práticas que impactam na redução das emissões com um sistema de plantio direto bem executado, respeitando os princípios do sistema.
Além disso, a utilização de fertilizante nitrogenado não acontece na soja que receberá esse selo.
A certificação deve promover a contabilização de créditos advindos da baixa emissão de Gases de Efeito Estufa e contribuir para a consolidação do mercado de carbono no Brasil.
Certificação na indústria
Para a indústria, a ideia é que produtos à base da soja certificada passem a utilizar o selo de baixa emissão de gases, o que pode consolidar marcas que compram estoques certificados pelo protocolo da Embrapa.
“Uma refinaria que precisa produzir óleo vegetal para combustíveis sustentáveis pode comprar soja certificada e utilizar aquele relatório de emissões na contabilidade do produto final”, explicou a pesquisadora.
O mesmo vale para carne, leite, ovos e outros alimentos. Se o animal consome farelo de soja com baixa pegada de carbono, isso reduz as emissões totais daquele produto.
Monteiro destaca que a tendência mundial de rastreabilidade ambiental impulsiona a certificação na indústria de alimentos. “Assim como atualmente todos os alimentos possuem tabela nutricional, no futuro também deverão informar sua pegada de carbono”, ressaltou.
A pesquisadora vai além e projeta uma capilaridade maior na indústria de aviação, navegação e transporte, que avançam em regras internacionais de descarbonização.
“A partir de 2027, haverá exigências relacionadas à incorporação de óleo vegetal e outras matérias-primas sustentáveis nos combustíveis. Mas não basta apenas utilizar óleo vegetal: será necessário comprovar qual é a pegada de carbono daquele insumo”, destacou a especialista.
Certificação no campo
Para a certificação desenvolvida pela empresa, o produtor precisa fornecer dados primários da propriedade, como consumo de combustível, defensivos agrícolas, fertilizantes e operações mecanizadas. Todos os itens possuem uma pegada de carbono associada e entram na contabilização.
“Quanto menos insumos forem utilizados, menor será a emissão. E quanto maior for a produtividade, mais essas emissões serão diluídas por tonelada produzida. Por isso, é essencial que um produtor de soja de baixo carbono tenha alta produtividade”, disse a pesquisadora.
O produtor precisa cumprir uma série de premissas obrigatórias como possuir um imóvel regularizado, sem embargos ambientais, e não pode praticar queimadas, por exemplo.
“Tudo isso é contabilizado no protocolo. Quanto mais práticas sustentáveis o produtor adotar, mais favorável será o resultado dele na certificação”, frisou.
Na sequência, há o cálculo das emissões com base nos dados da propriedade e a coleta de amostras de solo para verificar o carbono armazenado. O processo faz parte da comprovação da atividade com boas práticas.
Depois dessa avaliação, os resultados são comparados com um modelo regional, que representa a média das práticas utilizadas pelos produtores daquela região. Se a fazenda apresentar emissões menores do que a referência regional, ela pode obter o selo.
“Nós fazemos análises laboratoriais para verificar se esse carbono realmente está armazenado ali. É como um exame de sangue: não adianta dizer que não consome açúcar se o exame mostrar o contrário”, explicou Monteiro.
A Embrapa já trabalha em protocolos semelhantes para outras cadeias produtivas, como trigo, carne, leite, milho, sorgo, café, algodão, melão, caju e arroz.
Esses produtos poderão ser comercializados nacional e internacionalmente com informações detalhadas sobre sua pegada de carbono, atendendo às exigências de consumidores e mercados globais.
A expectativa, segundo a pesquisadora, é de que, nos próximos meses, os mercados especulam acerca de notícias mais incisivas sobre o fenômeno, que pode trazer efeitos diferentes para diversas regiões produtoras.
Mercado de carbono no mundo
No mundo, segundo a International Carbon Action Partnership, os sistemas de comércio de emissões geraram um recorde de US$ 79 bilhões em receitas em 2025.
Já o Banco Mundial apontou que os mecanismos globais de precificação de carbono arrecadaram cerca de US$ 102 bilhões em 2024, impulsionados principalmente pela ampliação dos mercados regulados, como o da China e da União Europeia.
Hoje, o mercado regulado de carbono, que inclui sistemas como o da União Europeia e da China, movimenta centenas de bilhões de dólares por ano. Estimativas recentes apontam um valor global próximo de US$ 880 bilhões a US$ 1 trilhão em 2025.
O mercado global de créditos de carbono foi estimado em US$ 886,7 bilhões em 2025 e projeta-se que alcance US$ 6,1 bilhões em 2033, crescendo a uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 25,9% de 2026 a 2033.