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Enquanto a atual seleção brasileira representa um enigma às vésperas da disputa de mais uma Copa do Mundo, no inesquecível dia 21 de junho de 1970 o escrete adentrou o Estádio Azteca, na Cidade do México, sob um sol escaldante que aqueceu, em todos os sentidos, a final da Copa do Mundo contra a Itália. Nos 90 minutos que separaram o pontapé inicial do apito derradeiro, a canarinho desfilou majestosa, sagrando-se a primeira tricampeã do mundo com gols de Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres, que eternizaram o esquadrão de Zagallo na história do futebol, com 4 a 1 sobre os italianos. Passados 56 anos, os lances daquele domingo foram ensaiados à exaustão e reproduzidos como um balé de atores e câmeras no gramado do Estádio Niterói, em São Paulo, onde VEJA acompanhou as gravações das cenas finais de Brasil 70: A Saga do Tri.

Dividida em cinco episódios, a minissérie que estreia na Netflix na próxima sexta-feira, 29, tem um sonho ambicioso: despertar, na contagem regressiva para o pontapé inicial da Copa de 2026, a esperança e o espírito ufanista perdidos por grande parte da torcida brasileira. Para isso, nada melhor do que relembrar a seleção que é considerada uma das melhores de todos os tempos. Segundo a definição do escritor inglês Nick Hornby em seu livro Febre de Bola, o Brasil era como um carro de James Bond, “que atira mísseis, dispara assentos ejetáveis e solta paraquedas”. Para o diretor da série, Paulo Morelli, as lembranças do passado podem despertar os torcedores, que andam ressabiados com o time atual: “Queremos recuperar a nossa camisa amarela como símbolo do futebol”.

A seleção de 1970 fez uma superpreparação para vingar no México o fracasso do Mundial anterior, quando o time foi eliminado na primeira fase na Inglaterra. A recuperação começou pelas mãos do técnico João Saldanha, que comandou uma campanha avassaladora nas eliminatórias, mas acabou se desgastando com bolas divididas com a ditadura, a quem acusava de querer interferir na escalação do time. Encarregado de seguir com o trabalho, Zagallo assumiu a poucos meses da Copa, fazendo alterações táticas revolucionárias para a época, como a escalação de Rivellino como um falso ponta-esquerda e a do meio-campista Tostão no comando do ataque. “Zagallo chega inseguro, querendo que os jogadores consagrados acreditem no que ele fala, porque ninguém respeitava a tática”, afirma Bruno Mazzeo, intérprete do técnico.

Felizmente, funcionou: com uma campanha histórica, o Brasil foi coroado de maneira invicta, deixando pelo caminho pedreiras como Inglaterra e Uruguai. Além da taça, a competição sagrou Pelé como o único tricampeão do mundo, enquanto somente Jairzinho, até hoje, marcou em todos os jogos de uma Copa. Exemplo máximo do futebol arte, aquela seleção também ficou marcada por lances sensacionais: foi na semifinal contra o Uruguai, por exemplo, que o camisa 10 deu o seu famoso “drible da vaca”, enganando o goleiro ao correr para o lado oposto ao da bola. Mesmo não balançando a rede, o lance entrou para a antologia. “Foram muitas tentativas para conseguir filmar isso, mas quando saiu foi espetacular. Todo mundo comemorou”, relembra Lucas Agrícola, ator e jogador que carrega a responsabilidade de interpretar Pelé. O elenco, aliás, é formado por atletas. A memória do nosso reinado nos campos segue viva.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996