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Foi como se o país tivesse parado para descobrir quem matou Odete Roitman. A expectativa pesava no ar como chumbo, em atenção que parecia ir na contramão da falta de interesse dos brasileiros pela Copa do Mundo — pesquisa Ipsos-Ipec feita a partir de entrevistas com 2 000 pessoas em 130 municípios indica que apenas 16% dos cidadãos estão entusiasmados com a competição, ante 33% há quatro anos. E, no entanto, houve alvoroço, acompanhamento em massa pelas emissoras de televisão, sites e canais do YouTube, além de carnaval de postagens nas redes sociais. O enigma não era um assassinato e, sim, a decisão à Hamlet do treinador Carlo Ancelotti: levar ou não levar Neymar.

Levará, como se sabe até em Marte. Na entrada do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em torno do circo armado para o anúncio capital, cartazes exibiam o desejo de alguns: “Neymar com uma perna só e com um olho só é melhor que todos os jogadores da seleção”. Ao feitio da polarização ideológica que grassa por aí, clamor em sentido contrário também gritava em letras apressadas: “Ancelotti não convoca o Neymar, ele vai queimar o teu filme”. Quando o italiano cantou com pouquíssimo e elegante sotaque o par de palavras mágicas — “Neymar Jr.” —, houve gritaria no recinto, aplausos demorados da claque e, em alguns cantos do país, até fogos de artifício.

OUTRA CHANCE - No Museu do Amanhã, houve grita a favor e contra o craque cuja mais recente imagem na seleção é de choro, em 2022
OUTRA CHANCE – No Museu do Amanhã, houve grita a favor e contra o craque cuja mais recente imagem na seleção é de choro, em 2022 (Eduardo Carmim/Photo Premium/Folhapress; Rodolfo Buhrer/La Imagem/Fotoarena/.)

A instalação do santista entre os 26 que embarcam para os Estados Unidos no início de junho, com estreia marcada contra o Marrocos no dia 13 de junho, autoriza uma constatação imediata, que os jogos podem vir a desmentir: faltam ídolos no futebol brasileiro de hoje, craques incontestáveis admirados internacionalmente. Vivemos um tempo de interrogação. Neymar, grosso modo, embarca pelo passado — e não pelo futuro. Tem 34 anos e desde outubro de 2023 não servia a seleção. O próprio Ancelotti não o escalou nenhuma vez, em dez partidas no comando da canarinho. É diferente da aposta de chamar o ex-palmeirense Endrick, do Real Madrid, que estava emprestado para o Lyon, e Rayan, que saiu do Vasco para o Bournemouth, da Inglaterra, ambos com 19 anos. “Ele é um jogador importante. Tem o mesmo papel, a mesma obrigação que os outros 25. Tem a possibilidade de jogar, de não jogar, de estar no banco, de entrar”, disse Ancelotti, ao explicar a presença do camisa 10.

A algum tipo de pressão Ancelotti cedeu, que seja dos convocados da seleção — e é bom lembrar que o atacante João Pedro, do Chelsea, que ficou de fora, outro dia mesmo defendeu o nome de Neymar, que o substitui no rol do ataque. Havia também, segundo VEJA ouviu de pessoas muito próximas da CBF, o lobby do pai de Neymar e dos patrocinadores que o cercam, embora os cartolas tivessem sempre batido o tambor da autonomia. É possível, sim, que a escolha tenha sido meramente técnica, na confiança de bom desempenho do craque, mas é fundamental lembrar que os problemas de Ancelotti podem estar apenas começando — a grita deflagrada na segunda-feira alimenta uma outra, ainda mais ruidosa, a de tê-lo no time titular, e durma-se com um barulho desses.

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O frenesi em torno da convocação chegou a ser comparado a outros dois momentos. O de Romário, preterido por Felipão em 2002, e o de Falcão, esquecido por Cláudio Coutinho em 1978. Mas há imensas diferenças. O “baixinho” do Vasco, mesmo veterano, aos 36 anos, voava alto. Terminara a temporada de 2001 como o grande jogador do futebol brasileiro, com quarenta gols em 39 jogos com a camisa cruz-maltina. No ano da Copa, havia marcado 26 vezes em 24 partidas até a convocação de Scolari. E Falcão? Elegante como ninguém, o volante levara o Internacional ao título brasileiro de 1976 e soava como unanimidade.

Nada que se compare a Neymar hoje, que parece ter se imposto por forças que não podem ser chamadas de ocultas — mas talvez devessem — e porque a escassez de nomões (à exceção de Vinicius Jr., que há dois anos foi eleito o melhor do mundo) abriu-lhe espaço. E foi chegando porque já não temos a grandeza de antes, do tempo em que éramos reis, como mostra a série Brasil 70: a Saga do Tri. Um dos motivos dessa depreciação, digamos assim, é o fato de as jovens promessas irem embora para o exterior muito cedo. O Brasil foi o país que mais exportou jogadores em 2026, com 1 455 transações, à frente da França, com 1 275 (veja no quadro). Os brasileiros, a maioria com menos de 20 anos, partiram prioritariamente para Portugal, com 182 contratos assinados, vindo depois Indonésia (74) e Emirados Árabes Unidos (71).

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INSENSATEZ - Falcão (à esq.): esquecê-lo no Mundial de 1978 foi um crime lesa-pátria de Cláudio Coutinho
INSENSATEZ - Falcão (à esq.): esquecê-lo no Mundial de 1978 foi um crime lesa-pátria de Cláudio Coutinho (ARQUIVO/Estadão Conteúdo/.)

Um outro problema — a que se atribui também o distanciamento do torcedor, a paixão esmaecida —, que anda de mãos dadas com a diáspora precoce, é a maciça ausência de atletas que desfilem pelas bandas brasileiras — embora, a bem da verdade, Ancelotti tenha piscado em outro caminho. Chamou sete jogadores que atuam no Brasil — quatro deles no Flamengo. Em 2022 e 2018 eram apenas três. Em 1994, no Tetra, havia onze brasileiros e onze “expatriados”. Em 2002, eram treze daqui. De lá para cá, o jogo virou de vez, e a força econômica dos torneios europeus forçou a CBF a olhar para fora. É o ponto no qual estamos, com um detalhe fundamental, indício de haver alguma piora: em 2018, quinze nomes atuavam em clubes da elite europeia, em times que levaram a Champions League ao menos uma vez. Em 2022, eram treze. E agora apenas sete. Ou seja, há convocados que estão em campeonatos menores, de que mal temos notícia ou que não vemos na televisão, como é o caso dos goleiros Ederson, do Fenebahçe, da Turquia; o volante Fabinho, do Al-Ittihad, da Arábia Saudita; e o lateral Douglas Santos, do Zenit, da Rússia.

Mas, afinal, essa construção do selecionado no além-mar — apesar da pequena mudança em 2026, reafirme-se, de olhar um pouco mais para casa — será ruim na esperança do hexa? Difícil saber, mas há agora um detalhe crucial que merece atenção. Pela primeira vez o Brasil terá um treinador estrangeiro na Copa, sucessivas vezes campeão como técnico da Champions League, zelando pela turma que desfila exportada. Pode dar liga. “Ancelotti é um técnico vencedor, simplesmente o melhor, que sabe tirar qualidade máxima de quem põe em campo e, sobretudo, conhece os adversários”, disse a VEJA Falcão, que finalmente seria chamado por Telê, em 1982, e que jogou com o italiano no Roma.

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CLAMOR JUSTIFICADO - Romário, em 2001: o “baixinho” voava quando Felipão o preteriu
CLAMOR JUSTIFICADO – Romário, em 2001: o “baixinho” voava quando Felipão o preteriu (Allsport UK/Getty Images)

E cabe uma outra indagação, levando em conta a trajetória do futebol brasileiro, aquele que o cineasta Pier Paolo Pasolini atrelava à poesia, em oposição à prosa de outras nações boleiras: os atletas que logo vão embora, bailarinos com a bola nos pés, perdem a graça e viram robôs? “É um problema real, que tolhe a criatividade em nome de posicionamento muito preciso, embora o futebol seja esporte coletivo e de organização”, disse a VEJA o atacante Denilson, campeão em 2002, uma espécie de reserva de luxo que, quando entrava em campo, bagunçava o coreto — ficou famosa a cena em que ele dominou a bola e, cercado por quatro adversários da Turquia, os arrastou até a linha de fundo, de modo irreverente e provocativo. Denilson estava no Betis, da Espanha. “Mas sempre fiz questão de não perder minha originalidade”, diz.

Como nem tudo são problemas, e em tudo na vida é possível ver um lado positivo, é bom sempre ouvir os que partiram ainda impúberes, como é o caso de Endrick. “Tenho de pensar em coisas diferentes o tempo todo, num mesmo jogo e de um jogo para outro, o que é muito legal”, disse a Alessandro Giannini, de VEJA. “Para jogar em alto nível, hoje, mesmo jogando um mesmo campeonato por muitos anos, a gente tem que se reinventar quase toda semana.” É reinvenção que no Brasileirão inexiste.

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Um passeio pela história sempre ajuda a compreender os movimentos da sociedade — e assim é no futebol. Lá atrás, quando não havia o comércio de chuteiras nos pés, em tempo sem televisão ou internet, cada país era uma ilha — e não por acaso o Brasil de 1958, de Didi, Pelé, Garrincha, Zagallo e cia., surpreendeu a todos. Agora não há mais sustos — ou há, sim, ao conhecermos atletas de quem nunca tínhamos ouvido falar porque partiram meninotes de tudo. As mudanças globais, na economia e nas comunicações, reinventaram a roda do esporte sem fronteiras. Um dos precursores da onda vigente foi o próprio Falcão — no escrete de 1982, apenas ele, o Rei de Roma, e Dirceu, no Atlético de Madrid, viviam longe. O catarinense viveu os dois lados da moeda, em constatação de haver vantagens e desvantagens na expatriação. Há sempre boa troca de informações. Ancelotti gosta de contar uma anedota: no Roma, onde jogou entre 1979 e 1987, ele se impressionou com o brasileiro de cabelos de anjo, com quem dividia o meio de campo. “Nos treinos, ele trazia novas ideias”, escreveu na autobiografia O Sonho. “Quando chegou, não entendia por que treinávamos tanto sem a bola.” E então a bola passou a marcar presença com constância. Depois, já na fase de preparação para o torneio na Espanha, em 1982, Falcão, importando aprendizado, ajudaria Telê a pensar no desenho da equipe amarela. “Sempre gostei de estudar o jogo, mas na Itália ganhei senso tático, mais conhecimento de como distribuir os atletas em campo, e de algum modo tentei transmitir o que aprendera”, diz Falcão.

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Como a maioria dos convocados tem hoje o tal senso tático a que se refere Falcão, a missão de Ancelotti, do ponto de vista de organização, talvez seja menos árdua — mas longe, muito longe supor que a seleção esteja montada e pronta para erguer a taça. E ninguém em sã consciência acredita que Neymar, o veterano Neymar, seja um grilo falante que pense estratégias. Não. E, então, o troféu é apenas um sonho, para tomar emprestado o título do livro de Ancelotti. Diz o mandachuva, que teve o cuidado de aprender português para falar com os jogadores e poder dar entrevistas no idioma de Carlos Drummond: “A Copa do Mundo é um sentimento com um país inteiro por trás, e é por isso que sempre chamou minha atenção. No dia em que cheguei ao Brasil, vi um cartaz que dizia: ‘Bem-vindo, Ancelotti, você é o cara. Acho que ele queria dizer: ‘Você é a pessoa que vai trazer a Copa de volta’, e é essa pessoa que eu quero ser”. Com uma esperteza: ao levar Neymar ele garantiu blindagem em caso de fracasso, com responsabilidade dividida.

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Ancelotti repete um mantra: ter uma seleção sem estrelas. Com Neymar, dá um tiro no pé, além de revelar falta de originalidade. Quinze nomes de 2026 estiveram também em 2022, mais do que os catorze que bisaram 1958 e 1962. O festejado treinador italiano tinha tudo para ser diferente, mas andou na trilha de mais do mesmo. A aposta, como se vê, chegou embebida de contradição. O tempo dirá se a decisão foi acertada.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996



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