Em 1978, o roteirista Bráulio Pedroso adaptou para o teatro três contos de Franz Kafka (1883-1924) em uma montagem experimental chamada de As Gralhas, que contava com a direção estreante do ator Marcos Paulo e com a atuação de Jorge Fernando, na época um novato. Singela, a peça foi pensada para a inauguração do Teatro do Centro Cultural Candido Mendes, no Rio de Janeiro, com cerca de cinquenta lugares, e tinha tudo para ficar guardada no passado do teatro brasileiro não fosse por um detalhe curioso: a montagem contava com uma trilha sonora brilhantemente composta e gravada pela banda A Barca do Sol com ninguém mais, ninguém menos, que Milton Nascimento nos vocais.
Gravado numa sessão de seis horas, as músicas de As Gralhas se transformaram em relíquias no mesmo ano em que foram produzidas: a trilha sonora da peça não foi amplamente comentada em jornais da época e tampouco houve uma mobilização entre os músicos envolvidos para lançar as canções em um disco comercial. Considerada uma fita “perdida”, sua existência se ressignificou a partir de um encontro do compositor Juca Filho com o pesquisador Maurício Gouvêa, em 2024. “Em uma das fitas cassete que o Juca me deu, tinha lá escrito ‘A Barca do Sol + Milton Nascimento’. Eu fiquei louco, primeiro porque eu adorava A Barca do Sol e segundo porque Milton Nascimento é o grande farol da minha vida musical”, conta Gouvêa a VEJA. Juca, que era amigo próximo dos membros d’A Barca, havia recebido uma cópia da gravação da trilha como presente, que acabou guardando em sua coleção por décadas a fio. Diante da boa surpresa, Maurício começou a mobilizar-se para transformar a fita em disco. O produto final, remasterizado pela Fábrica Rocinante, já está disponível em vinil pelo serviço de assinatura Três Selos Rocinante.

Na época, A Barca do Sol, um importante grupo de rock progressivo brasileiro, topou fazer a trilha de As Gralhas a convite de Marcos Paulo, que escolheu a cantora Olivia Byington, sua namorada naquele período, para gravar junto da banda. Pouco tempo antes de iniciarem as gravações, o casal rompeu e Olivia deixou o projeto. Alguns dias depois, um substituto foi anunciado: Milton Nascimento, que topou o convite feito por Marcos.
Para musicar os três contos de Kafka — Diante da Lei, Primeira Dor e O Veredicto — houve o cuidadoso trabalho de tentar reproduzir sons que fossem importantes para a história. “Uma das faixas conta com flautas do David Ganc, que é um dos membros d’A Barca do Sol, emulando sons de gralhas cantando desarvoradamente”, explica Gouvêa. Na faixa O Camponês, cuja versão estendida está disponível no Youtube, o piano e vocais de Milton introduzem a melancolia do personagem que vive a angústia de não conseguir atravessar os “portões” da lei. Para Gouvêa, o Milton de As Gralhas encontra-se em “sua plenitude vocal”.
O encontro transcendental entre A Barca do Sol e Bituca ficou ainda guardado em fitas de rolo que pertenciam a Alain Pierre, baixista d’A Barca do Sol, descobertas quando Gouvêa procurou os integrantes para obter a autorização necessária para o relançamento. Aquela foi a cereja do bolo, que garantiu um melhor aspecto ao material. “O cassete já estava com um som legal, mas a fita de rolo tinha um som de qualidade superior, inclusive com uma faixa a mais que não tinha na fita cassete”, conta Gouvêa.
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