
Formado por Kenny, Aito, Nathan, Hyuk, Seok, o grupo de K-pop 1Verse desembarcou ontem no Brasil trazendo na bagagem um conceito que define sua própria existência: o “multiverso”:
“Estamos conhecendo diferentes países e culturas, que acabam sendo incorporados naturalmente à música.”
Seok acrescenta: “ Há também uma outra palavra que nos define: coragem”, diz o norte coreano que queria ser jogador de futebol e virou idol.
É assim que eles descrevem o caminho percorrido pelo grupo, que faz sua estreia no país neste fim de semana a convite de Cheul Hong Kim, diretor do CCCB, durante a Virada Paulista.
Desde sua formação, o 1Verse rompeu com uma das estruturas mais rígidas da indústria do K-pop: a homogeneidade. O grupo reúne integrantes de origens distintas: os norte-coreanos Hyuk e Seok, o japonês Aito e os norte-americanos Kenny, com ascendência tailandesa, e Nathan. Em um mercado historicamente marcado por treinamentos padronizados, estética controlada e identidades cuidadosamente moldadas, a própria existência do grupo funciona como um manifesto.
Hyuk e Seok, porém, não participam das apresentações no Brasil por questões de saúde. Os dois integrantes têm trajetórias que são atravessadas pela fuga da Coreia do Norte e pela reconstrução da vida por meio da música
Dentro da formação, cada integrante ocupa um espaço criativo específico: Kenny e Nathan participam ativamente da composição das canções, Aito se dedica ao desenvolvimento das coreografias, enquanto Seok concentra esforços na escrita de novas letras em coreano.
A relação com o público brasileiro começou antes mesmo da chegada oficial ao país, e de maneira inesperada. Um vídeo descontraído dos integrantes fazendo truques com uma bola de futebol viralizou nas redes sociais brasileiras e aproximou uma nova leva de fãs do grupo, relembra Kenny. Para ele, porém, a conexão parece ir além dos algoritmos. O cantor afirma que sempre quis entender por que o público brasileiro criou uma identificação tão forte com o 1Verse e diz esperar que as músicas do grupo transmitam conforto às fãs, já que a mensagem da banda acabou encontrando eco entre os brasileiros.
A energia dos fãs brasileiros também virou assunto recorrente entre os integrantes antes da viagem. Todos afirmam estar animados para testemunhar de perto a recepção calorosa do público.
O conceito multicultural do grupo, inicialmente visto com desconfiança dentro da lógica tradicional do K-pop, acabou se tornando justamente sua principal força. Kenny explica que a singularidade de cada integrante dá uma identidade própria à equipe e garante espaço para todos, sem que ninguém precise se sobrepor.
Para Aito, o amadurecimento coletivo ficou evidente desde a primeira entrevista concedida pelo grupo em Seul para a Giro pelo Oriente, da Veja. Ele afirma que sua comunicação melhorou significativamente após experiências nos Estados Unidos e na Europa, onde passou a usar mais o inglês, além do avanço no domínio do coreano e na convivência com os demais membros.
Essa mistura cultural aparece diretamente na construção musical do 1Verse. Kenny conta que uma das novas faixas surgiu de maneira espontânea e acabou sendo uma das mais fáceis de compor. Segundo ele, a melodia e a letra fluíram naturalmente durante uma conversa entre os integrantes, e o refrão (assim como o título da música) nasceu logo após a apresentação da ideia ao grupo.
As experiências pessoais dos integrantes também atravessam as composições. Hyuk, que sonhava em se tornar jogador de futebol antes de deixar a Coreia do Norte e reconstruir a vida no Sul, descreve o abandono do esporte como um momento decisivo. Ele afirma que ainda joga futebol como hobby, mas que abrir mão do sonho de infância para começar uma carreira na música foi um processo estranho, embora necessário para aproveitar novas oportunidades.
Já Seok define sua relação com a música como um espaço emocional. Segundo ele, a intensidade com que sente melodias e letras o levou a querer criar canções capazes de transmitir seus sentimentos mais honestos.
Enquanto o grupo se prepara para encontrar pessoalmente as fãs brasileiras pela primeira vez, Nathan já tem planos específicos para a passagem pelo país. Além da expectativa de conhecer o público e retribuir o apoio recebido, ele diz estar ansioso para experimentar o café brasileiro, sobre o qual ouviu elogios. Nos últimos meses, o cantor também passou a explorar a música nacional e revelou admiração por Roberto Carlos.
Entre trajetórias improváveis, diferentes idiomas e histórias marcadas por migração, ruptura e reinvenção, o 1Verse chega ao Brasil carregando algo raro até mesmo dentro dos padrões globais do K-pop: a sensação de que suas diferenças não precisaram ser apagadas para que o grupo existisse. Pelo contrário: tornaram-se a principal identidade do grupo.