A investigação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo sobre lavagem de dinheiro e atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) trouxe novos elementos que reforçam uma relação antiga e próxima da influenciadora Deolane Bezerra com integrantes da facção criminosa — e não apenas um suposto uso pontual da influência e do patrimônio da advogada por criminosos.

Documentos do inquérito obtidos pela CNN Brasil mostram que o nome de Deolane aparece associado diretamente a integrantes do núcleo da organização criminosa em diferentes frentes: relações pessoais, atuação profissional como advogada, contatos com familiares da cúpula do PCC e registros de entradas e saídas em unidades prisionais.

Segundo o relatório produzido pela Delegacia Seccional de Presidente Venceslau, investigadores identificaram indícios de vínculo entre Deolane Bezerra, integrantes da família de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e operadores financeiros ligados à facção.

O documento cita nominalmente Deolane ao lado de Marco Willians Herbas Camacho, o “Marcola”, do irmão dele, Alejandro Juvenal Herbas Camacho, o “Gordão”, além de familiares e pessoas investigadas por ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro para o PCC.

Deolane Bezerra passou por audiência de custódia virtual na tarde desta quinta-feira (21) e está presa preventivamente na Penitenciária Feminina de Santana, na zona Norte da capital paulista. A CNN Brasil apurou com fontes da Polícia Civil que ela deve ser transferida para um presídio em Tupi Paulista, no interior do estado.

Advogada do crime

A investigação aponta, ainda, que a influenciadora mantinha proximidade antiga com pessoas ligadas à facção criminosa. Investigadores destacam que Deolane foi advogada de integrantes do PCC em diferentes ocasiões e que o nome dela aparece em boletins de ocorrência relacionados a membros da organização.

Além da atuação profissional como advogada de faccionados, a polícia também menciona registros de visitas de Deolane em unidades prisionais do estado de São Paulo, incluindo presídios que concentram integrantes da alta cúpula da facção.

Conexões antigas

Outro ponto destacado pelos investigadores é a relação pessoal da influenciadora com familiares de lideranças do PCC. O relatório aponta proximidade entre Deolane e Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola e filha de Alejandro Juvenal Herbas Camacho, o “Gordão”.

Segundo a investigação, as duas se conheciam anteriormente e chegaram a viver na mesma região. Os investigadores tratam essa relação como mais um indicativo de inserção da influenciadora em círculos ligados à facção criminosa.

Os sobrinhos de Marcola, Paloma e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, também foram alvos de mandados de prisão preventiva nesta quinta. Eles são considerados foragidos e, segundo as autoridades, Paloma estaria na Bolívia e Leonardo em Madri, na Espanha. Os dois tiveram os nomes incluídos na lista vermelha da Interpol.

O elo familiar

A investigação também destaca que Deolane teve um filho com um homem condenado e preso por crimes ligados ao tráfico de drogas e ao crime organizado. O vínculo familiar é citado pela polícia como parte do histórico de proximidade da influenciadora com integrantes e pessoas associadas ao PCC.

Para os investigadores, os indícios reunidos ao longo do inquérito apontam que a relação de Deolane com pessoas ligadas ao PCC extrapolaria uma atuação periférica ou eventual. A avaliação descrita nos documentos é de que a influenciadora mantinha contato frequente e próximo com integrantes e familiares da organização criminosa antes mesmo das investigações mais recentes sobre lavagem de dinheiro virem à tona.

Outro lado

Em nota, a defesa de Deolane se manifestou na noite desta quinta-feira (21). Leia na íntegra:

“A defesa técnica da advogada dra Deolane Bezerra Santos vem, com o máximo respeito às instituições do Sistema de Justiça e ao Estado Democrático de Direito, prestar os devidos esclarecimentos sobre os acontecimentos que resultaram em sua prisão preventiva na data de hoje, 21.05.26: inicialmente ressaltamos a sua mais absoluta inocência, bem como, que os fatos serão devidamente esclarecidos por esta, em momento oportuno. Por hora e como o devido acatamento, consideramos desproporcionais as medidas firmadas em face de Deolane e esta banca de defesa seguirá cooperando tecnicamente com a Justiça para demonstrar a licitude de suas atividades na condição de advogada que é, confiando plenamente no discernimento, na razoabilidade e na imparcialidade do Poder Judiciário”. 

Pelas redes sociais, a advogada e irmã da influenciadora, Daniele Bezerra, afirmou que a nova prisão de Deolane significa uma perseguição contra a advogadaVeja nota na íntegra:

“Hoje, mais uma vez, tentam transformar suposições em verdades e manchetes em condenações. A prisão da Deolane Bezerra, sob alegações de participação em organização criminosa, nasce cercada de ilações, narrativas e perseguições que já se repetem há tempos. Acusar é fácil. Difícil é provar. No Brasil, infelizmente, muitas vezes primeiro se expões, se destrói a imagem e se condena perante a opinião pública…para só depois buscar provas que sustentem aquilo que foi feito. E isso é grave. Não se pode admitir que a Justiça seja usada como espetáculo, nem que pessoas sejam tratadas como culpadas antes do devido processo legal. Prisão não pode ser instrumento de pressão, marketing ou vingança social. Quem conhece a história, a luta e a trajetória dela sabe que existe uma diferença enorme entre fatos e narrativas criadas para alimentar ataques. Seguiremos confiando na verdade, na Justiça e no direito de defesa, porque perseguição continua sendo perseguição, mesmo quando tentam dar a ela outro nome.”

A defesa de Marcola também se manifestou por meio de nota. Confira:

“Bruno Ferullo, advogado de Marco Willians Herbas Camacho, vem a público esclarecer os fatos relacionados à Operação Vernix, deflagrada na manhã desta quinta-feira, 21 de maio de 2026, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) da comarca de Presidente Prudente, com apoio da Polícia Civil do Estado de São Paulo. A operação se insere no âmbito de investigações sobre suposta organização criminosa e prática de lavagem de dinheiro, envolvendo alegadas movimentações financeiras incompativeis e conexões empresariais investigadas pelo Ministério Público. É importante contextualizar que toda essa cadeia investigativa teve origem em julho de 2019, quando agentes penitenciários encontraram manuscritos descartados na caixa de esgoto de uma cela da Penitenciária Il de Presidente Venceslau, habitada por outros dois presos. Um desses bilhetes fazia menção a ‘aquela mulher da transportadora’, referência que a policia interpretou como indicativo de vinculo com uma empresa de transporte na região, a Lopes Lemos Transportes Ltda. A partir dessa única menção, desdobraram-se investigações sucessivas que chegaram, anos depois, ao nome de Marco. O cumprimento de medidas cautelares não implica, em nenhuma hipótese, presunção de culpabilidade. As investigações atribuem a Marco, em tese, suposta participação nos crimes de integrar organização criminosa e lavagem de capitais – relacionados, segundo o inquérito, a movimentações financeiras de terceiros e um vinculo indireto com a empresa de transportes. É fundamental deixar claro que estamos na fase de inquérito policial, que se apoia exclusivamente em ‘indicios e ‘suspeitas, expressões que, no direito, têm peso probatório limitado e que precisam ser submetidas ao contraditório antes de qualquer conclusão. É nessa fase que os fatos serão efetivamente apurados, com pleno exercício da ampla defesa. Solicitamos à imprensa e à sociedade que garantam a presunção de inocência, direito fundamental do ordenamento juridico brasileiro, abstendo-se de conclusões precipitadas que possam prejudicar o andamento do processo e a imagem dos envolvidos antes de qualquer pronunciamento judicial definitivo.”



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