
“Nós vamos pegá-lo”, resumiu Donald Trump sobre o estoque de 440 quilos de urânio enriquecido que está na base da guerra aérea contra o Irã. “Provavelmente vamos destruí-lo, depois de pegá-lo, mas não vamos deixar que eles fiquem com ele”. Pouco antes, havia circulado uma ordem de Mojtaba Khamenei, eleito líder supremo depois do bombardeio que matou seu pai e também ferido no ataque: o urânio não sai do Irã.
Ou seja, não há condições para um acordo que encerre definitivamente as hostilidades, embora Trump anuncie continuamente que ele é iminente.
Para Israel, também é inaceitável que o urânio, manipulado a um grau muito próximo do necessário para fazer bombas nucleares, continue onde está.
E onde está o material, mantido sob a forma de gás em cilindros parecidos com os tanques de mergulho?
Provavelmente dentro de túneis próximos às duas centrais nucleares iranianas. O acesso à metade deles foi bloqueado por bombardeios que soterraram as entradas, mas não é impossível eventualmente remover o entulho e recuperar os cilindros. Não há informações confiáveis sobre o que aconteceu com as centrífugas onde o gás poderia ser processado para aumentar a concentração do isótopo físsil, mas é possível presumir que foram um dos principais alvos dos bombardeios.
LÓGICA DO INCONCEBÍVEL
O Irã é um dos treze países do mundo com capacidade de fazer esse processo, chamado de enriquecimento – o Brasil também está na lista, embora o faça apenas para propósitos pacíficos, como a produção de combustível nuclear para a geração de energia.
É evidente que ter um arsenal atômico cria uma espécie de escudo protetor, uma garantia contra ataques. Se o Irã já tivesse suas bombas, não teria sido atacado atacado por Israel e pelos Estados Unidos. É quase impensável pensar numa retaliação nuclear, que não apenas devastaria Israel, mas atingiria a própria população de muçulmanos, local e vizinha, mas a lógica nuclear joga justamente com o inconcebível.
Pesa também a mentalidade apocalíptica do regime teocrático: o fim dos tempos tem uma forte presença na visão xiita do mundo, como um precedente de uma era perfeita em que todos seguirão o Islã.
A renúncia ao estoque de urânio enriquecido só seria possível se tivesse havido uma mudança de regime, um dos objetivos implícitos da campanha aérea. Não houve e, no momento, não parece estar no horizonte.
Com o mesmo regime e um Mojtaba Khamenei arisco e radicalizado, possivelmente com ferimentos graves, escondido dos olhos do público, Trump terá que fazer malabarismos para justificar um acordo que não remova o urânio enriquecido. O regime iraniano conta com o fato de que ele está submetido a uma pressão forte da opinião pública americana, com mais de 60% de desaprovação à guerra, e dos inúmeros países que querem uma solução ao bloqueio do Estreito de Ormuz, uma trava à economia mundial.
Israel defende que só serão arrancadas concessões com novos bombardeios, Trump protela. Sem acordo, não poderá fazer isso indefinidamente e a opção da volta à guerra vai ficando inevitável.