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O Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu um processo formal contra o ex-presidente cubano Raúl Castro, irmão de Fidel Castro, por assassinato, segundo documentos judiciais divulgados nesta quarta-feira, 20. A ação se insere em um contexto de escalada de pressões do governo Donald Trump contra a ilha, cujo regime comunista o presidente americano gostaria de ver substituído por um mais maleável.

O indiciamento, apresentado em um tribunal federal em Miami em 23 de abril, acusa Castro de conspiração para matar cidadãos americanos, quatro assassinatos e destruição de aeronaves. Outras cinco pessoas também são rés no caso, que remonta ao abate fatal de aviões operados pelo grupo humanitário Hermanos al Rescate (irmãos ao resgate, na tradução livre), em 1996, de acordo com o procurador-geral interino dos Estados Unidos, Todd Blanche. Em fevereiro daquele ano, caças MiG-29 da Força Aérea de Cuba derrubaram duas aeronaves desarmadas, pertencentes ao grupo fundado por exilados cubanos, em espaço aéreo internacional, resultando na morte de quatro pilotos.

Na época, o governo cubano argumentou que o ataque foi uma resposta legítima à invasão do espaço aéreo do país. Fidel Castro disse que seus militares agiram sob “ordens permanentes” para abater aviões que violassem os céus de cuba — e garantiu que o irmão Raúl, então ministro da Defesa, não deu uma ordem específica para atirar. No entanto, além dos Estados Unidos, a Organização da Aviação Civil Internacional concluiu posteriormente que o abate ocorreu em águas internacionais.

“Minha mensagem hoje é clara: os Estados Unidos e o presidente Trump não se esquecem e não se esquecerão de seus cidadãos”, disse Blanche em um evento no centro de Miami que prestou homenagem às vítimas do incidente nesta quarta.

Castro, de 94 anos, apareceu em público pela última vez em Cuba no início deste mês. Não há evidências de que ele tenha deixado a ilha desde então, ou de que o governo permita sua extradição. Importante figura na revolução cubana, ele ajudou a derrotar a invasão americana da Baía dos Porcos, em 1961, e serviu como ministro da Defesa por décadas. Sucedeu seu irmão como presidente em 2008 e deixou o cargo oito anos atrás, mas permanece uma figura poderosa nos bastidores da política cubana.

Pressão

A acusação surge em um momento em que o presidente americano, Donald Trump, aumenta a pressão por uma mudança de regime em Cuba, onde os comunistas de Castro estão no poder desde que seu falecido irmão, Fidel, liderou a revolução cubana em 1959. Washington efetivamente impôs um bloqueio à ilha caribenha ao ameaçar com sanções países que exportam combustível para lá. A medida provocou apagões generalizados e prejudicou ainda mais sua frágil economia, levando os cubanos às ruas.

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Nesta quarta, o Ocupante do Salão Oval descreveu a nação caribenha como “um Estado pária que abriga militares estrangeiros hostis” e enquadrou as ações contra Havana como parte de um esforço mais amplo para expandir a influência americana nas Américas.

“Das margens de Havana às margens do Canal do Panamá, expulsaremos as forças da ilegalidade, do crime e da invasão estrangeira”, disse ele em um evento da Academia da Guarda Costeira em Connecticut.

Após assumir o poder, Fidel firmou uma aliança com a União Soviética no contexto da Guerra Fria e, em seguida, confiscou empresas de propriedade americana em Cuba. Desde então, os Estados Unidos mantêm um embargo econômico à nação de 10 milhões de habitantes. Os dois lados têm conversado intermitentemente ao longo dos anos e as relações diplomáticas melhoraram brevemente durante o segundo mandato do ex-presidente Barack Obama, mas Trump voltou a adorar uma linha mais dura. O indiciamento de Raúl Castro marca um novo ponto baixo nas relações entre os rivais.

Oferta

Nesta quarta, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, publicou uma mensagem em espanhol direcionada ao povo cubano, oferecendo estabelecer uma nova relação com seu país em troca de cooperação com o governo Trump. Ele afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a doar US$ 100 milhões (cerca de R$ 503 milhões) em alimentos e medicamentos para a população.

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“Atualmente, Cuba não está controlada por nenhuma revolução. Cuba está controlada pela Gaesa, um Estado dentro de um Estado, que não presta contas a ninguém e monopoliza os lucros de seus negócios em benefício de uma pequena elite”, disse Rubio no vídeo divulgado no Dia da Independência de Cuba, referindo-se ao maior megaconglomerado empresarial do país, controlado pelos militares, que gerencia cerca de 40% do PIB.

Filho de cubanos que imigraram à Flórida, o secretário de Estado afirmou ainda que o governo Trump propõe “uma nova Cuba, onde vocês, os cidadãos, e não só a Gaesa, podem ser donos de postos de gasolina, de uma loja de roupas ou de um restaurante, abrir um banco, ter uma construtora. Onde vocês, e não só o regime comunista de Cuba, podem ser donos de uma rede de TV ou um jornal”.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, por sua vez, classificou a oferta como cínica, citando o “efeito devastador” do bloqueio econômico.

Apetite intervencionista

Desde que veio à tona, na semana passada, que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos pretendia apresentar acusações contra Raúl Castro, começaram especulações de que as forças americanas poderiam realizar uma operação militar de extração contra Castro, da mesma forma que fizeram contra Nicolás Maduro, na Venezuela, em janeiro.

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De acordo com o portal de notícias Politico, Trump e seus assessores estão cada vez mais frustrados com o fato da campanha de pressão não ter levado os líderes cubanos a concordarem com reformas econômicas e políticas significativas. Por isso, passaram a considerar a opção militar com mais seriedade do que antes.

“O clima definitivamente mudou”, afirmou uma autoridade ao portal. “A ideia inicial sobre Cuba era de que a liderança era fraca e que a combinação do aumento da aplicação de sanções, um bloqueio do petróleo, e as claras vitórias militares americanas na Venezuela e no Irã intimidariam os cubanos a fechar um acordo. Agora, o Irã se tornou intransigente, e os cubanos estão se mostrando muito mais resistentes do que se pensava inicialmente. Portanto, a ação militar agora está em discussão de uma forma que não estava antes”, completou.

O governo Trump usou uma acusação por narcotráfico como justificativa para a incursão de 3 de janeiro em Caracas, na qual Maduro foi capturado e levado a Nova York para responder aos crimes. Ele se declarou inocente.

Em março, o presidente americano ameaçou que Cuba “será a próxima” depois da Venezuela (e do Irã). O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, disse na segunda-feira que qualquer ação militar dos Estados Unidos contra seu país levaria a um “banho de sangue”.



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