A casa de leilões Christie’s levou apenas 40 minutos para vender mais de US$ 630 milhões (cerca de R$ 3,5 bilhões) em arte, quebrando recordes tanto do pintor Jackson Pollock quanto do escultor Constantin Brancusi na segunda-feira (18).
Mais tarde, a casa de leilões encerrou tudo com ainda mais recordes quebrados e outros US$ 490 milhões (R$ 2,7 mil). A primeira parte do leilão de US$ 1,1 bilhão (R$ 6,1 bilhões) em Nova York apresentou 16 obras da renomada coleção de S.I. Newhouse.
Essa foi a quarta vez que a Christie’s levou a leilão um conjunto de obras do falecido magnata da mídia, que era dono da Condé Nast, além de uma grande fatia dos jornais locais e emissoras de rádio e televisão dos Estados Unidos. Mas foi a primeira vez que a casa de leilões recorreu a Nicole Kidman para um vídeo promocional, filmando seu encontro fluido com o busto dourado de Brancusi, “Danaïde”, que estava prestes a ser um dos lotes estrela da noite.
O vídeo foi baseado em um filme dos anos 1930 de Man Ray sobre a também surrealista Lee Miller, segundo a Christie’s, e, embora não tenha viralizado da mesma forma que o anúncio viral da AMC protagonizado por Kidman, provou mais uma vez seu comprometimento com todos e quaisquer papéis. Alcançando US$ 107,6 milhões (R$ 600 milhões) com taxas, “Danaïde” superou o recorde anterior de Brancusi em leilão, de US$ 71,2 milhões (R$ 400 milhões), quase assim que os lances começaram.
Uma pintura de gotejamento fundamental de Pollock — das quais poucas em sua escala permanecem em mãos privadas — também disparou aos céus, sob aplausos, chegando a US$ 181,2 milhões (R$ 1 bilhão) com taxas para se tornar o lote de maior receita da noite. O valor superou em muito o recorde anterior do expressionista abstrato, de US$ 61,2 milhões (R$ 340 milhões) em 2021 — e ele o fez sem a ajuda de Kidman. Horas antes do leilão, Sara Friedlander, diretora de arte pós-guerra e contemporânea da Christie’s, disse que a campanha com a celebridade era apenas uma das muitas abordagens utilizadas para promover os leilões.
Brancusi foi “um inovador tão moderno”, ela disse, “e então acho que, para nós, fazer coisas inovadoras em torno de objetos extraordinários é algo com o qual também estamos experimentando.”
Obras de Pablo Picasso, Piet Mondrian, Henri Matisse, Joan Miró, Jasper Johns, Andy Warhol e Robert Rauschenberg também contribuíram para o apelo do leilão Newhouse. Como coleção de um único proprietário, apenas a do falecido Paul G. Allen gerou mais em leilão — em 2022, o espetacular leilão em duas partes das obras acumuladas pelo cofundador da Microsoft rendeu um recorde de US$ 1,5 bilhão (R$ 8,4 bilhões) apenas na primeira noite.
As obras de Newhouse foram, em vez disso, vendidas em parcelas ocasionais, incluindo a venda por US$ 91 milhões (R$ 510 milhões) de “Rabbit”, que tornou Jeff Koons o artista vivo mais caro do mundo (pelo menos pelos registros de leilões públicos) em 2019.
A coleção de Newhouse chegou ao leilão, em parte, graças a Tobias Meyer, um assessor de arte e ex-leiloeiro que representou a família do magnata da mídia. “Meyer foi a voz fundamental por trás da condução desta coleção”, disse Friedlander. Mas também teve a ver com o espaço do apartamento, segundo o The New York Times, que informou que a viúva de Newhouse, Victoria, estava reduzindo seu espaço.
“Não estou ficando mais jovem e sinto que chegou a hora de começar a reduzir”, ela disse ao jornal. “É um esforço para simplificar minha vida.” O topo do mercado de arte, liderado pela Christie’s e pela Sotheby’s, tem estado determinado a uma recuperação ao longo do último ano, após uma série de leilões difíceis e incertezas econômicas globais que lançaram dúvidas sobre a demanda por obras de grande destaque. Ambas as casas de leilão têm cortejado coleções poderosas de proprietários únicos, incluindo as de Allen, Leonard A. Lauder e Pauline Karpidas, para injetar no mercado pinturas raras de artistas do século 20 que estão cada vez mais difíceis de encontrar.
As vendas de segunda-feira na Christie’s também incluíram três obras-primas da coleção da ex-presidente do Museum of Modern Art, Agnes Gund, que estabeleceram um novo recorde de US$ 98,4 milhões (R$ 550 milhões) para Mark Rothko, enquanto a Sotheby’s ofereceu tesouros avaliados em US$ 166,3 milhões (R$ 930 milhões) do falecido marchand Robert Mnuchin na semana passada.
A estratégia parece ter aguçado o apetite dos compradores bilionários, mas as vitórias recentes podem não sinalizar a recuperação de longo prazo do mercado. De acordo com a Artnet, há no máximo 30 “baleias” — os maiores gastadores do mercado — com poder para fazer um grande leilão afundar ou flutuar. E, assim como o recorde de US$ 236,4 milhões (R$ 1,3 bilhão) de Gustav Klimt no outono passado, um lote-estrela decisivo pode impulsionar o restante, ocultando quaisquer incertezas ainda persistentes ou latentes.
Ainda assim, as vendas noturnas de segunda, que também incluíram 48 obras do século XX de fora da coleção de Newhouse, certamente demonstraram a força dos colecionadores. Um recorde de 20.000 visitantes foi ver as obras na Christie’s antes que elas voltassem para mãos privadas. Kidman pode ter estado falando sobre a AMC quando disse: “Viemos a este lugar em busca de magia”, mas o mercado de arte ainda tem alguns coelhos para tirar da cartola também.