
Ler Resumo
A recente cúpula em Pequim entre Xi Jinping e Donald Trump marcou um esforço diplomático para estabilizar a relação mais complexa do mundo. Logo após a partida do presidente americano, a recepção de Vladimir Putin pelo líder chinês reforçou que, embora a China busque trégua com os Estados Unidos, ainda confia muito em sua parceria “sem limites” com a Rússia e outras nações aliadas — espécie de respaldo contra pressões de Washington. Um briefing do ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, compartilhado com VEJA nesta quarta-feira, 20, revelou um cenário de otimismo coreografado sob forte desconfiança estratégica.
Abaixo, os sete temas centrais que definem o momento diplomático entre Estados Unidos e China, segundo o governo de Xi.
1. A nova visão de “estabilidade estratégica”
Segundo o briefing, China propôs aos Estados Unidos uma relação baseada na estabilidade em quatro nortes (positiva, saudável, constante e duradoura), buscando evitar o confronto que seria “desastroso” para ambas as potências. Xi invocou o “Desafio de Tucídides”, questionando se as duas nações podem evitar a armadilha de um conflito inevitável entre uma potência ascendente e uma estabelecida.
- Estabilidade positiva: foco na cooperação, reconhecendo que as duas maiores economias do mundo são interdependentes e que o confronto seria desastroso para ambos.
- Estabilidade saudável: a competição deve ter limites e não ser um “jogo de soma zero”. O objetivo deve ser o aperfeiçoamento mútuo através de regras justas.
- Estabilidade constante: manter a continuidade das políticas para evitar que a relação seja como uma “montanha-russa”.
- Estabilidade duradoura: coexistência pacífica como denominador comum, respeitando os sistemas sociais e interesses centrais de cada um.
Por outro lado, analistas apontam que, embora Trump tenha regado Xi de elogios (“um grande líder”, ele disse), a visão americana ainda tende a enxergar a relação como uma disputa de soma zero.
2. Sinergia entre o sonho chinês e o “MAGA”
Em um movimento político simbólico e estratégico, Xi vinculou o “rejuvenescimento da nação chinesa” ao objetivo de Trump de “fazer a América grande novamente”, o bordão que deu origem ao nome da turma de seus mais fiéis apoiadores, MAGA.
“Alcançar o grande rejuvenescimento da nação chinesa e tornar a América grande novamente podem caminhar juntos, e os dois países podem ajudar um ao outro a ter sucesso e promover o bem-estar de todo o mundo”, destacou o briefing do chanceler chinês.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, Xi sugeriu que ambos os países podem ter sucesso simultaneamente, na busca de criar um terreno comum para a cooperação — embora a realidade prática da competição tecnológica e militar continue a tensionar esse discurso.
3. Agenda diplomática e a sombra de Putin
O encontro reativou contatos de alto nível, resultando no convite para que Xi realize uma visita de Estado aos Estados Unidos no segundo semestre deste ano. Além disso, segundo Wang, os líderes concordaram em manter contato próximo por meio de reuniões, telefonemas e cartas.
Contudo, a coreografia diplomática foi calculada: menos de 24 horas após a saída de Trump, Putin desembarcou em Pequim. O momento sinaliza que Xi pretende equilibrar a estabilização com Washington sem isolar Moscou, utilizando sua crescente alavancagem econômica sobre a Rússia para garantir tecnologias militares e acordos energéticos favoráveis.
4. Taiwan: a “linha vermelha” inegociável
A questão de Taiwan foi tratada pela China como seu assunto interno mais sagrado e a maior ameaça à estabilidade bilateral. Pequim pressionou para que os Estados Unidos declarem oposição à independência da ilha. De acordo com o briefing, a independência de Taiwan e a paz são “irreconciliáveis como fogo e água” e, ao final da cúpula, a percepção chinesa é de que Washington compreendeu essa posição e não apoia a que a ilha se torne um Estado soberano.
No entanto, Trump descreveu as vendas de armas para Taipé, que na prática atua como um país com governo próprio, como uma “ficha de negociação” e manteve a política de ambiguidade estratégica, recusando-se a dizer se defenderia a ilha diretamente. Isso mantém o ponto mais crítico da relação sem uma resolução definitiva.
5. Economia, tarifas e a rota da energia
Para mitigar a guerra comercial, onde tarifas americanas chegaram a 145%, as equipes concordaram com medidas em três frentes: 1) criar um conselho de comércio e um conselho de investimento; 2) expandir o comércio bilateral dentro de uma estrutura de redução recíproca de tarifas; e 3) resolver questões de acesso ao mercado para produtos agrícolas de parte a parte. Foram anunciados acordos para a compra chinesa de 200 aeronaves Boeing e produtos agrícolas.
“O presidente Xi enfatizou que os laços econômicos e comerciais são mutuamente benéficos e vantajosos para ambos os lados por natureza. Onde existirem divergências e atritos, a consulta em pé de igualdade é a única abordagem correta”, disse Wang.
Paralelamente, Xi aproveitou a cúpula com Putin para diversificar sua segurança energética; devido à instabilidade no Estreito de Ormuz, ele busca acelerar o projeto do gasoduto Power of Siberia 2, visando aumentar as importações terrestres de gás russo.
6. Geopolítica: Ucrânia e Oriente Médio
No briefing oficial, a China defendeu o diálogo e a paz tanto na Ucrânia quanto no Oriente Médio, incentivando em particular negociações entre Estados Unidos e Irã. De acordo com o chanceler chinês, o governo asiático prefere o diálogo em vez da força, pedindo a reabertura do Estreito de Ormuz baseada em um cessar-fogo permanente
“Xi enfatizou que o uso da força não resolve os problemas e que o diálogo é a única opção correta. Negociações podem não produzir resultados imediatos, mas agora que a porta do diálogo foi aberta, não deve ser fechada novamente”, declarou o ministro chinês.
Na cúpula, segundo a imprensa americana, Trump teria pedido que Xi pressionasse o Irã para reabrir a nevrálgica passagem marítima, por onde transitam 20% do petróleo e gás consumidos no mundo, mas especialistas consideraram escasso o progresso concreto nessa área.
Sobre a Ucrânia, Wang afirmou que ambos os líderes expressaram o desejo de um fim rápido para o conflito e concordaram em manter a comunicação para buscar um acordo político, admitindo que não há solução simples. “Os dois têm se empenhado bastante para promover negociações de paz, cada um à sua maneira”, segundo o briefing do governo chinês.
Porém, relatórios da inteligência americana mostram que Pequim continua a fornecer itens de uso dual (como drones e componentes eletrônicos, que podem ser usados tanto para fins civis como militares) que sustentam o esforço de guerra russo; algo que o governo chinês nega.
7. Diplomacia cultural e soft power
O briefing da chancelaria chinesa destacou ainda que Xi anunciou uma iniciativa para convidar 50 mil jovens americanos para intercâmbios e estudos na China nos próximos cinco anos, apostando na base popular e na juventude para garantir a vitalidade futura da relação bilateral.
Wang também chamou a atenção para o simbolismo do passeio dos dois líderes pelo Templo do Céu, um local que representa a harmonia e a autoridade imperial, usado por Xi para projetar grandeza civilizacional. De acordo com o chanceler, o passeio reforçou a ideia de harmonia e amizade entre os povos.