Passando pela TV para tomar um café, ouço no Jornal Nacional que, “no Brasil, muitos eram a favor da convocação de Neymar; alguns contra”. Sou um dos alguns. E, como na música “Todo Errado”, de Jorge Mautner, “eu não peço desculpa nem peço perdão” por isso. Mas, pelo visto, como no poema “Prece de Brasileiro”, de Drummond, sobre a Copa de 70, sou nesse caso, então, “quase que maldito”.

O “lobby” do “Menino Ney” funcionou. E, bem, como acho esse troço pernicioso! “Menino”? Um “menino” de 34 anos? Já que ele integra as hostes dos “patriotas”, quando é que vai ler São Paulo para descobrir que meninos falam e agem como meninos, e homens — adultos — como homens? Pelo visto, nunca! O conjunto das circunstâncias lhe deu a licença da ineficiência arrogante multimilionária.

MÍOPE COMO MR. MAGOO
Não sou especialista em futebol, obviamente. Leitoras, leitores e leitorx terão até a licença para dizer que isso tudo é ressentimento. Míope na infância como Mr. Magoo, não tive a chance de ganhar aquela ginga precoce. Quando os óculos vieram aos 6 anos, já havia passado a fase, digamos, da “estampagem” — um conceito da psicologia (pesquisem) — para essas coisas.

Era péssimo. Sempre entre os últimos escolhidos pelos capitães… Eu me vingava de outro modo: não passava cola, mas tinha cigarros. Não me envergonho de uma coisa; um tantinho da outra. Mas que diabos? Tinha de fazer amigos também, né? Não passem cola nem fumem.

De novo: não sou especialista em futebol. Mas sei ver um jogo e concluo que Neymar não tem desempenho suficiente para estar na Seleção, ainda que esteja aqui a expor a minha voz minoritária — dando todos os elementos para que me chamem de “Quatro Olho (tem de ser no singular) ressentido”.

O adulto Ney não está em condições técnicas de jogar num selecionado. Mas, vá lá, um time também se faz com outros valores. Poderia representar então um fator de união da equipe, de confiança, de exemplo, de disciplina, de dedicação a seu ofício. Se eu pedir a uma ferramenta de IA que junte todas as manchetes que este senhor gerou, é bem provável que as questões que nada têm a ver com o futebol suplantem aquelas relacionadas à arte do “ludopédio”. Suas buliçosas passagens pelo mundo do machismo, da misoginia e do reacionarismo — afinal, é um tradicionalista “de famílias” — certamente se sobreporão a seu talento.

JOÃO SALDANHA
“Restrição ideológica, Reinaldo?” Não! É claro que preferiria que o “Número Um” do nosso futebol fosse ao menos fã de vacina e da Terra Redonda… Mas o ponto não é esse: definitivamente, não foi seu desempenho que o levou à lista de convocados.

João Saldanha, o técnico que foi demitido da Seleção em março de 1970 e substituído por Zagallo, disse certa feita:

 “Não quero jogador para casar com minha filha; quero só que resolva dentro de campo”.

Endosso. Na Seleção — ou no Santos —, esse cara resolve o quê?

Assisti com imenso prazer ao documentário sobre Ronaldinho Gaúcho, em três episódios, na Netflix, de Luís Ara. E não! O rapaz não servia exatamente como professor de Educação Moral e Cívica… Mas sempre resolveu. Aliás, nunca houve um malabarista da bola como ele. Nunca houve ninguém com tal visão de jogo, capaz de olhar para a direita e fazer um lançamento perfeito para a esquerda. Ou o contrário. Nunca houve ninguém que fizesse isso tudo como quem samba. No tempo em que esteve no auge, foi inigualável, incluindo os gigantes do passado. Mas esse auge não durou tanto. Mesmo quando já não era, como se diz por aí, a melhor versão de si mesmo, ainda assim era espetacular. Neymar não é esse cara para merecer tal distinção.

Querem saber: no que respeita ao método e ao futuro, seria preferível perder sem Neymar a ganhar com ele. E, ainda assim, vou torcer furiosamente como sempre, dando todos os murros no sofá a que tenho direito e vou gritar “gooool” na sacada, até rascar a voz. “E se for de Neymar?” Já que foi convocado, tudo o que quero é que ele jogue de pé e faça gol. Tomara que ele também queira.

Ah, sim: Saldanha não foi demitido da Seleção porque o ditador Emílio Garrastazu Médici sugeriu a convocação de Dadá Maravilha e levou a seguinte resposta: “O presidente escolhe seus ministros e eu convoco a Seleção”. Caiu porque era militante do Partido Comunista. Zagallo assumiu o time e escalou Dadá. “E foi Campeão, né?” Sim, foi. Querem que eu lembre aqui a escalação?

Com todas as vênias, sou “um” dos “alguns” contrários à escalação de Neymar. É meu senso de disciplina e meu apreço pelo método e pelo bom desempenho das pessoas no ofício que escolheram.

ANTES QUE ESQUEÇA
Que coisa mais colonizada esse troço de chamar Ancelotti de “mister”! Aí me dizem: “Assim os técnicos são chamados na Europa”.  E daí? Agora ele treina a Seleção Brasileira, e nossa língua tem a palavrinha “senhor”. Ambas, com efeito, têm origem no latim. Mas só uma, nesse contexto, traduz reverência subserviente. Não contem comigo. Se um dia eu entrevistar o senhor Ancelotti, eu o chamarei de “Senhor Ancelotti”. Ah, essa sina de ser “um” entre “alguns”…

A IA pôs o espírito de João Saldanha a observar Ronaldinho Gaúcho e Neymar em campo. Talvez não escolhesse nem um nem outro para genro, mas só um é mais proveito do que fama…

 



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