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Donald Trump já falou que o Irã será arrasado, exterminado, varrido da face da Terra . São algumas das piores declarações de seu governo, tanto por implicar numa atitude bárbara, que jamais será tomada, quanto pelo desgaste que ameaças vazias provocam. Os americanos repudiam esse tipo de linguagem agressiva e também rejeitam a própria guerra. Irá Trump, movido por pesquisas de opinião, como todos os outros políticos, contrariar o que os seus cidadãos querem e voltar a bombardear alvos militares e até civis, como pontes e instalações elétricas?
A movimentação militar tem sido grande, entre americanos e israelenses, um indício de que a campanha pode ser reativada a qualquer momento, na tentativa de forçar o regime iraniano a aceitar pelo menos em parte as exigências para um acordo de paz. O próprio Trump disse que os bombardeios só não foram reiniciados hoje a pedido dos três maiores aliados árabes dos Estados Unidos – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar. “Na opinião deles, haverá um grande acordo que será muito aceitável para os Estados Unidos da América”, afirmou. Por enquanto, sem bases na realidade: as respectivas posições continuam extremamente inconciliáveis.
A alternativa é ruim para Trump: deixar a situação como está, com o Irã cantando vitória e o prestígio dos Estados Unidos abalado. Nem um único político da oposição democrata deixará de explorar isso na campanha eleitoral para as eleições de novembro para o Congresso.
O repúdio da opinião pública ao envolvimento militar foi reiterado na pesquisa New York Times/Siena, centrada na seguinte pergunta: você acha que a decisão de Donald Trump de ir à guerra com o Irã foi certa ou errada? Nada menos que 64% escolheram a segunda opção (93% dos democratas, 73% dos independentes e até 22% dos republicanos).
SURRA DE URNA
O fato é que Trump não conseguiu convencer a opinião pública de que a guerra era necessária, mesmo sendo conduzida de maneira a minimizar ao extremo as baixas americanas e sob o argumento respeitável de que o objetivo é impedir que o Irã tenha armas nucleares.
Uma campanha-relâmpago, culminando com o bloqueio do programa nuclear bélico (e, idealmente, no desmoronamento do regime teocrático), levaria Trump a um impulso triunfal em novembro. Não foi o que aconteceu e provavelmente não vai acontecer mesmo se os bombardeios forem retomados.
Os outros números da pesquisa mais recente também deixam Trump numa posição vulnerável para enfrentar uma eleição em que, habitualmente, o partido dominante costuma levar uma surra de urna. Aprovação a seu desempenho como presidente: 37% positivos e 59% negativos. Economia: 33% a 64%. Custo de vida: 28% a 69%.
Segundo uma reportagem do Wall Street Journal, os republicanos têm muito dinheiro em caixa para fazer a campanha das eleições legislativas. Mas recorrerão a uma tática desgastada: em lugar de apresentar conquistas do atual governo, evocarão os defeitos do governo anterior, incluindo o até hoje inexplicável descontrole sobre a fronteira com o México, agora totalmente estabilizada.
DISPUTAS INDEFINIDAS
Falar mal do antecessor é um recurso de governantes que têm pouco a apresentar. No panorama atual, a parte mais sensível do ser humano – o bolso – está pesando mais e o tempo vai se esgotando para mudar a percepção de que o custo de vida está muito alto. O aumento de preços resultante da intervenção no Irã já anulou os efeitos de benefícios fiscais concedidos por Trump.
No momento, o Partido Republicano tem 210 deputados cuja eleição é dada como garantida; e os democratas têm 207. A maioria será decidida por apenas 18 disputas ainda indefinidas.
Irá Trump correr o risco de perder a maioria com a retomada de uma guerra impopular e repudiada, com consequências deletérias para a economia, justamente a área onde ele pretendia ser um campeão?
A intervenção dos aliados árabes é importante e pode indicar que o presidente já decidiu que vai aceitar uma não-vitória, um acordo fraco, mas que o livre de um repúdio ainda maior da opinião pública. Talvez eles tenham oferecido até o pretexto que Trump queria para não voltar às armas. Saberemos nos próximos dias.