Em março de 2013, a então presidente Dilma Rousseff viajou a João Pessoa, na Paraíba, para um evento oficial do governo. No palanque, em claro tom eleitoral, a petista mandou um recado aos então inimigos — alguns dentro do próprio PT — que tramavam barrar sua reeleição: “Podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”.

Dilma não sabia, mas viveria, nos meses seguintes ao seu discurso, a fúria histórica das manifestações de 2013 e a eclosão da Operação Lava-Jato. Candidata à reeleição inclusive contra a vontade de Lula, que desejava voltar em 2014, a petista se reelegeu galopando uma coleção impressionante de escândalos revelados por operações quase que semanais da força-tarefa de Curitiba.

Naquela campanha, dezenas de delatores expuseram, em depoimentos ao então juiz Sergio Moro, um país dominado por um modelo de arrecadação de propinas e de caixa dois a partir de contratos da Petrobras. Escândalos não faltaram, mas nada impediu que Dilma derrotasse Aécio Neves cavalgando a poderosa máquina do Planalto.

Eram outros tempos. O bolsonarismo ainda era uma ideia pensada apenas nas articulações de Jair Bolsonaro com alguns deputados do baixo clero da Câmara. Algumas conclusões daquela campanha, no entanto, servem de referência para aliados de Lula e de Flávio Bolsonaro nesta corrida eleitoral que se anuncia tão repleta de escândalos quanto foi a de 2014.

A primeira questão importante é o tempo. Lula vive hoje, aparentemente, o conforto de ver seu principal adversário fritando — vide nova pesquisa Atlas Intel — no noticiário por causa das mentiras sobre as relações com Daniel Vorcaro. Não faz muito tempo, o petista estava nessa posição, apanhando por causa dos negócios de Lulinha com o Careca do INSS e do infeliz desfile da Sapucaí, que ironizou famílias conservadoras e usou dinheiro público para bajular o petismo. O tempo colocou a folia de Lula e os negócios do filho no esquecimento.

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Essa magia é esperada agora por aliados de Flávio, crentes que a mentira do senador sobre Vorcaro sumirá das mentes dos eleitores antes do início da campanha, no segundo semestre, apagada, quem sabe, por novas revelações sobre o envolvimento do petismo em escândalos investigados no STF.

É provável que a campanha eleitoral seja uma corrida de obstáculos em que os candidatos, de escândalo em escândalo, se alternem nas pesquisas. Em 2014, com a máquina na mão, Dilma venceu, apesar de todas as revelações bombásticas sobre a corrupção petista.

Lula espera repetir esse feito também ele usando a máquina palaciana e a lógica de que “podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Já são cerca de 150 bilhões de reais em medidas populistas de distribuição de renda ao eleitorado mais pobre, um desastre fiscal para o próximo governante, seja ele quem for.

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Entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro protagonizou no Planalto uma série de escândalos, incluindo a histórica postura negacionista que levou o país a perder mais de 700.000 vidas na pandemia. Na hora da urna, perdeu por muito pouco. O tempo ajudou o ex-mandatário a chegar competitivo ao pleito, dado que a emergência sanitária já havia sido superada.

O histórico nacional mostra que a memória do eleitor é curta e pouco influente no voto, assim como o escândalo de cada dia não significa, necessariamente, o fim de um candidato. Num país que se respeita, seria o fim. Nessa esquina sofrida da América Latina, no entanto, o eleitor costuma se apegar às tragédias que cria pra si. Essa certeza é o que move os candidatos.



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