
Qual o modelo de intervenção que Donald Trump aplica para pressionar Cuba? E qual o resultado político pretende obter: uma mudança total do regime falido ou a alteracão de algumas peças, à la Venezuela? É possível que nem ele tenha batido o martelo e esteja experimentando alternativas, como a da visita do diretor da CIA, John Ratcliffe, um movimento sem precedentes e estarrecedor, incluindo pela diversidade de interlocutores, entre os quais Raúl Guillermo González Castro, neto e possível influenciador do último dinossauro do regime comunista, Raúl Castro, que está com 94 anos.
Conhecido como Raulito, ou mais frequentemente como Caranguejo, por ter nascido com seis dedos numa das mãos, o neto está no jogo para encontrar uma saída negociada à situação simplesmente insustentável de Cuba, onde a falência do sistema foi acelerada pelo embargo de combustíveis decretado por Trump.
Ele já tentou até uma iniciativa ousada: mandou um empresário amigo, incrivelmente chamado Roberto Carlos Chamizo González, levar uma carta a Trump. Pela total falta de credenciais oficiais, não houve contato. A iniciativa foi interpretada como uma tentativa de estabelecer um canal direto com Trump, passando por cima de Marco Rubio, o secretário de Estado cujos pais emigraram de Cuba para os Estados Unidos e é considerado mais linha dura.
Por que não foi Rubio o enviado a Cuba e sim o diretor da CIA? As especulações pululam, alimentadas pela ambiguidade de Trump e pelo estado desesperador da população cubana, agora quase que inteiramente sem eletricidade. Pequenos protestos espalham-se por toda a ilha, mas nada que pareça balançar o regime – pelo menos no momento.
PRESIDENTE COOPTADO?
O que exatamente Trump tem em mente ainda é um mistério, mas o que os cubanos estão pensando tem mais clareza. Uma pesquisa online feita pelo EncuestaCuba mostrou que a esmagadora maioria quer simplesmente a substituição do regime falido. O método incentiva mais quem anseia por mudanças e também a amostra, com 42% de fora de Cuba, mas os resultados são impressionantes.
As respostas foram esmagadoras. Insatisfação com o sistema de governo: 94%. Qual seria a melhor opção para o país? “Cuba precisa transitar na direção de um modelo capitalista de democracia liberal e economia de mercado”: 80,1%. Apenas 10,6% apoiam “um sistema misto que combine elementos socialistas e capitalistas”. Socialismo com “reformas profundas” tem o apoio de míseros 1,2%.
Sobre os principais problemas do país, 82,2% puseram em primeiro lugar “a falta de liberdades civis e políticas”. Em segundo, com 74,8%, “a ineficiência e o imobilismo do governo”. Apenas 4,7% mencionaram “o embargo americano e as pressões externas ao país”.
É difícil ver uma solução similar à que a captura de Nicolás Maduro produziu na Venezuela, com o regime intacto, mas flexível à abertura para a volta das petrolíferas americanas e outras exigências dos Estados Unidos. Iria o presidente Miguel Díaz-Canel ser cooptado? Ou simplesmente descartado para limpar o carma do regime?
OS NETOS E A MUDANÇA
O fato de que o diretor da CIA falou com Raulito Castro, que não tem nenhuma posição oficial, mostra que muitas opções estão sobre a mesa. Ele poderia ser a ponte entre a velha e inflexível guarda, representada por seu avô, e uma ala mais disposta ao pragmatismo.
“Ele não é comunista”, já disse sobre o Caranguejo outro neto famoso, Sandro Castro. Ao contrário do avô, Fidel, Sandro defende a economia de mercado, menos burocracia, mais democracia e o retorno dos exilados cubanos para “investir neste país”. Não ocupa nenhum cargo e sua principal atividade é ser dono de bar, descrito como “luxuoso”- pelos padrões cubanos, obviamente.
Estariam os netos indicando caminhos de mudança para Cuba? Raulito Castro tem não apenas a chancela do nome do avó, como também do pai, o general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, morto em 2022. O general era o chefe do GAESA, o conglomerado de empresas das Forças Armadas, num espectro que vai do turismo às telecomunicações e controla basicamente a economia.
O poder real, afinal, continua na ponta dos fuzis, e são os generais que definirão como Cuba fará a transição para algo que ninguém ainda sabe o que será. Como está, não tem como continuar. O projeto socialista no qual as esquerdas latino-americanas tanto projetaram seus desejos faliu por deficiência própria e Trump agora só está dando um empurrãozinho.