O Federal Reserve fala demais sobre a economia, segundo Kevin Warsh, o futuro líder do banco central dos Estados Unidos.
Durante sua audiência de confirmação em abril, Warsh argumentou que os dirigentes do Fed “falam com bastante frequência” e enfatizou que “a busca pela verdade é mais importante do que a repetição”.
“Se alguém realiza uma coletiva de imprensa, quer transmitir alguma notícia importante”, disse ele.
Desde os anos 1990, os dirigentes do Fed se manifestam regularmente sobre a economia, incluindo entrevistas à mídia e coletivas de imprensa, discursos públicos, extensas declarações de política monetária e previsões econômicas periódicas.
Warsh, que inicia oficialmente seu mandato de quatro anos nesta segunda-feira (17), sugeriu eliminar parte dessa comunicação com “um novo arcabouço” e “novas ferramentas”, embora não tenha entrado em detalhes.
Especialistas dizem que Warsh não está completamente errado; períodos de incerteza dificultam que os dirigentes do Fed prevejam para onde a economia e as taxas de juros podem se encaminhar.
Mas seria uma mudança significativa para o Fed se Warsh decidir reduzir as coletivas de imprensa ou eliminar as projeções econômicas trimestrais dos dirigentes.
“A comunicação não é trivial”, disse Loretta Mester, que atuou como presidente do Federal Reserve Bank de Cleveland entre 2014 e 2024, à CNN Internacional.
“Você está falando com participantes do mercado, está falando com o público, está falando com o Congresso, mas pode haver alguns aprimoramentos para tornar a comunicação mais eficaz.”
Fed permaneceu em grande silêncio até década de 1990
Durante a maior parte de seus 113 anos de história, as decisões de taxa de juros do Fed eram algo de certa forma misterioso. Não havia declarações de política monetária, comentários públicos de rotina ou coletivas de imprensa do presidente.
Os operadores precisavam inferir o que o Fed estava fazendo com sua taxa de empréstimo de referência com base nos movimentos do mercado.
Isso mudou sob o comando do chair Alan Greenspan, que introduziu a declaração de política monetária pós-reunião em 1994.
Os presidentes seguintes foram aprimorando o arsenal de comunicação do Fed. Ben Bernanke foi o primeiro presidente do Fed a realizar uma coletiva de imprensa formal em abril de 2011.
“Sempre fui um grande defensor de fornecer o máximo de informações possível para ajudar o público a entender o que você está fazendo”, disse ele à época, “para ajudar os mercados a entender o que você está fazendo e para ser responsável perante o público pelo que você está fazendo.”
As coletivas de imprensa pós-reunião ajudam a orientar as expectativas de Wall Street e a moldar as taxas de juros no longo prazo.
Uma pesquisa do Brookings Institution divulgada este mês constatou que economistas e analistas querem que o Fed mantenha as coletivas de imprensa após cada reunião de definição de taxas.
“O Fed enviar sinais sobre o que provavelmente fará no futuro é muito útil porque isso afeta rapidamente as condições financeiras”, disse Derek Tang, economista do Monetary Policy Analytics.
“Por exemplo, em 2022, autoridades usaram suas projeções e discursos para sinalizar que estavam determinadas a elevar as taxas para eliminar a alta inflação, o que lhes permitiu não elevar ainda mais, porque sua comunicação já fez parte do trabalho”, acrescentou.
A incerteza pode prejudicar a comunicação do Fed
Mas às vezes ninguém sabe o que pode estar reservado para a economia dos EUA.
Períodos de incerteza excepcionalmente alta tornam inerentemente a comunicação do Fed menos útil, porque as circunstâncias podem mudar rapidamente, disse Mester, ex-presidente do Fed de Cleveland.
Quando o presidente Donald Trump anunciou o tarifaço em abril de 2025, autoridades do Fed, incluindo o presidente Jerome Powell, alertaram para a possibilidade de uma inflação significativamente mais alta e de um crescimento econômico mais fraco.
Mas esses comentários iniciais não resistiram ao tempo quando Trump amenizou suas tarifas e as empresas ajudaram a evitar que a inflação ao consumidor disparasse.
E neste ano, a guerra entre EUA e Israel com o Irã complicou ainda mais os esforços do Fed para avaliar a economia.
Ao longo do último ano, as declarações de política do BC dos EUA destacaram consistentemente que as perspectivas econômicas são “incertas”.
“Warsh tem um ponto sobre as previsões do Fed”, disse Tang. “É importante não se apegar a uma única coisa, mas é por isso que o comitê (de definição de taxas do Fed) continua dizendo que as previsões não são um compromisso.”
Mesmo que Warsh reduza sua própria comunicação, ele não pode controlar os 12 presidentes dos bancos regionais do Fed, disse Tang.
Mas pelo menos algumas pessoas parecem concordar com Warsh. Um terço dos entrevistados na pesquisa do Brookings disse que os presidentes regionais do Fed “deveriam falar em público com menos frequência”.