Belo Horizonte — Três dias depois de uma carreta desgovernada provocar um engavetamento com 14 veículos na descida do bairro Betânia, região Oeste de Belo Horizonte, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) anunciou a construção de duas novas áreas de escape no Anel Rodoviário. A medida, porém, divide opiniões: enquanto a gestão do prefeito Álvaro Damião (União Brasil) a apresenta como avanço imediato de segurança, o especialista Paulo Rogério Monteiro, pesquisador da FGV Transportes, considera-a apenas um paliativo emergencial.

Para Monteiro,  doutorando e mestre em Engenharia de Transportes, as novas áreas são necessárias no curto prazo, mas não resolvem o problema de fundo do Anel Rodoviário.

“É importante que se crie [as áreas de escape], mas até quando? Tem placa avisando desde lá de trás, informação e ainda assim desce caminhão. A grande questão é discutir um outro rodoanel”, afirma o engenheiro em entrevista exclusiva.

acidente anel engavetamento
Acidente envolvendo 14 veículos no Abel Rodoviário; apesar da gravidade ninguém morreu

Para o especialista, o problema é estrutural. Muitos caminhões chegam ao Anel após longos trechos com aclive e declive, principalmente os que vêm pela Br-262 ou BR-356, conhecida como Rodovia dos Inconfidentes, com freios exigidos ao máximo.

“Eu acho que tem que aproveitar esse momento para propor soluções que de fato tragam resultados estruturais. O caminhoneiro pega todo o trecho do Jardim Canadá até na Mutuca pra chegar nos Olhos d’água e mais trecho gigante de descida […] qual a condição dessa rodovia nova pro caminhoneiro?”, questiona Monteiro.

Ele defende a construção de um novo contorno viário mais eficiente: começando no trevo do Alphaville, cortando a Serra da Moeda, passando por Brumadinho e seguindo até Ravena — um traçado de cerca de 68 km que evitaria o trecho mais crítico e perigoso do atual Anel.

“Devia ser lá atrás, no trevo do Alphaville, cortaria Serra da Moeda, entraria em Brumadinho, Mário Campos, Sarzedo e Betim e faria de fato um contorno de BH […]. É mais palatável, foge do trecho ruim”, afirmou.

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As duas novas áreas de escape serão instaladas nos kms 539 (próximo à Mipe) e 540 (próximo à entrada do Betânia), cerca de 1 km abaixo da estrutura existente no km 541. Cada uma deve custar entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões, com obras previstas para iniciar ainda no fim de 2026.

“Como aconteceu nesse caso [acidente recente], o motorista passou pela área de escape, ainda estava numa velocidade normal e não precisou utilizar. Só que mais à frente ele perdeu o freio e aí não tem mais área de escape. A partir de agora não. Vai ter uma nova área de escape logo depois e, se ele passar, vai ter uma terceira”, declarou o prefeito Álvaro Damião durante coletiva de imprensa na sexta-feira (15).

Outra mudança anunciada é a restrição de veículos pesados à faixa da direita. “A área de escape foi feita para o caminhão. Então aquela pista ali é do caminhão. É ali que ele tem que andar […] A partir de agora, qualquer veículo pesado que passar pelo Anel Rodoviário será monitorado. Se utilizar as faixas 2 e 3, será flagrado pelas câmeras.”, disse Damião.

Monteiro ressalta que o atual Anel, com cerca de 45 km entre Olhos D’Água e Ravena, força rotas antinaturais, incentivando infrações dos motorista.

“Não adianta colocar placa, radar, exigir que circule em uma faixa e multa. O motorista vai dar um jeito de burlar, como burla as regras atuais. Na atual conjuntura tem que fazer [as áreas], mas não vai resolver o problema. Não é solução de médio e longo prazo.”

Alarmante: 1.125 acidentes em apenas quatro meses

Segundo dados do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG), divulgados pelo Metrópoles, o Anel Rodoviário registrou 1.125 acidentes nos quatro primeiros meses de 2026. Isso representa uma média de aproximadamente 9,4 acidentes por dia, mesmo com as medidas já implementadas pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).

Carreta acessa área de escape no anel rodoviário de BH
Carreta acessa área de escape no anel rodoviário de BH

Como funcionam as áreas de escape

As áreas de escape são rampas laterais preenchidas com argila expandida (cinasita) dentro de uma caixa de concreto. Ao entrar na estrutura, o veículo afunda no material, que aumenta o atrito e reduz rapidamente a velocidade — sistema semelhante ao usado em autódromos. A primeira área, inaugurada em 2022 por R$ 3,5 milhões  já foi utilizada em mais de 20 ocorrências com veículos pesados, incluindo caminhões, carretas, ônibus e até um guindaste, evitando acidentes graves.

O pacote anunciado pela PBH inclui ainda a obrigatoriedade de caminhões circularem apenas na faixa da direita, com fiscalização por câmeras, além de R$ 180 milhões em pavimentação, limpeza e drenagem.

Apesar dos números positivos apresentados pela prefeitura (queda de até 66,7% nas mortes desde a municipalização), Monteiro reforça que medidas pontuais não substituem uma solução de infraestrutura de longo prazo e propõe uma área de escape diferente como a que existe no km 667 da rodovia BR-376, na Serra de Guaratuba, no Paraná.

“Diferentemente da área de escape que já existe no nosso Anel, poderia construir uma que tem uma pista rolante pra não ocorrer como já aconteceu de vir um outro caminhão logo atrás e correr o risco de acidente dentro da área de escape”, propôs o engenheiro.



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