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Toda Copa do Mundo de futebol carrega consigo um ritual que antecede os jogos: a corrida atrás das figurinhas. Nas bancas, nas escolas, nos corredores. Um observador atento percebe a tensão e a alegria no gesto de abrir cada pacotinho. É um momento importante de brincadeira, expectativa e, sem dúvida, de frustração também. É preciso lidar com aquilo que falta. É preciso buscar a partir da falta.
Neste ano, o álbum oficial da Copa reúne 980 cromos e cada pacote com sete figurinhas custa R$ 7. Especula-se que, sem trocas, completar o álbum pode ultrapassar R$ 5 mil. Já com as trocas, o custo médio despenca para próximo de R$ 980, pouco mais de R$ 1 por figurinha. A matemática fala por si: a troca não é apenas economia, é o coração do jogo.
Mas o que está em jogo quando duas ou mais crianças e adolescentes se debruçam sobre um monte de figurinhas repetidas na saída da escola ou nos pontos de trocas espalhados pela cidade? Para além do futebol, há ali algo que a psicanálise e a psicologia reconhecem como fundamental: o laço social.
Diga-se de passagem, o laço anda bem escasso em tempos de jogos online e redes sociais. O psicólogo best-seller Jonathan Haidt aponta que um dos problemas do que ele chama de “geração ansiosa” é exatamente a perda do brincar, substituído pelas telas e pela solidão de jovens que passam horas em seus quartos sem trocas simbólicas presenciais fundamentais para um desenvolvimento saudável.
O brincar possibilita a construção de habilidades importantes para o desenvolvimento como regulação emocional, tolerância à frustração, resolução de conflitos, capacidade de negociar regras, resiliência e autonomia.
Já o sentimento de solidão, a tristeza e a pouca convivência entre pares são apontados na literatura científica como fatores de risco para o sofrimento psíquico na adolescência, inclusive para ideação suicida. Em contrapartida, os relacionamentos interpessoais fora do ambiente familiar funcionam como fatores de proteção relevantes para a saúde mental dos jovens.
É exatamente nesse ponto que o álbum de figurinhas ganha uma dimensão que vai além do passatempo. A troca pressupõe um encontro presencial, face a face, com negociação, com riso e, claro, com o imprevisto. Esse encontro miúdo, aparentemente banal, é tecido de laço. E o laço social não é decoração: é estruturante. É no encontro com o outro que o sujeito se constitui, que a angústia encontra bordas e que o isolamento perde terreno.
A adolescência contemporânea enfrenta um paradoxo: nunca se esteve tão “conectado” e, ao mesmo tempo, os índices de solidão, ansiedade e depressão entre jovens cresceram de forma expressiva no Brasil e no mundo. O ambiente digital ampliou o alcance das trocas, mas a convivência presencial segue insubstituível no que diz respeito ao registro afetivo e à construção de vínculos. A banca de jornal, a carteira da escola, a roda formada no intervalo: são espaços que convocam o corpo, a voz, o olhar.
Não se trata, evidentemente, de romantizar um produto comercial. O custo do álbum é excludente para famílias de baixa renda. A questão clínica e social que vale destacar é outra: o fenômeno das figurinhas cria, quase naturalmente, uma estrutura de encontro que favorece exatamente o que as pesquisas indicam como protetor: integração social, pertencimento, comunicação, habilidade de tolerar a espera e conviver com o acaso.
Para pais e educadores, o recado é simples: aproveitem o momento. A ida à banca, a mesa de trocas organizada na escola ou o grupo de amigos que se reúne para “abrir pacotinhos” pode ser, ao mesmo tempo, diversão e aprendizado. E um alerta: não antecipem tudo! Não resolvam o que falta antes que eles tentem buscar soluções com os pares. Deixem os filhos brincarem, negociarem e, sobretudo, estimulem as trocas. Suportar o pacote que ainda não chegou também é educativo e promove laços.
* Carolina Nassau Ribeiro é psicóloga, psicanalista, doutora pela UFMG e autora do livro Suicídio na Adolescência: Uma Abordagem Psicanalítica (Juruá).