
Quando Euphoria voltou à programação semanal do canal HBO em abril, havia esperança de que a aparente falta de rumo ou estofo narrativa daquele começo fosse contrariada pelos episódios futuros. Pouco mais de um mês depois, isso ainda não aconteceu. Com apenas dois capítulos no horizonte até seu fim — provavelmente definitivo —, a temporada errática continua a apostar em temas batidos do imaginário americano e deixa de explorar suas personagens centrais para além dos arquétipos que representam, em sua maioria sexuais.
Surpreendentemente, o maior acerto tem sido a trama de Cassie, vivida pela polêmica garota do momento, Sydney Sweeney. Nos novos episódios, a jovem tem pouco em familiar com a figura que o público conheceu ao longo das últimas duas temporadas, mas se tornou a melhor válvula de escape para a aversão à sutileza do diretor e roteirista Sam Levinson.
Enquanto ela tenta alcançar a fama pelo conteúdo explícito via OnlyFans, sua atuação é a mais enérgica do elenco, com contornos do que se vê no clássico B Showgirls (1995), ou como uma versão americanizada e menos confiante do estardalhaço causado por figuras da pornochanchada, feito a Sônia Silk de Helena Ignez em Copacabana Mon Amour (1970). A ligação direta de sua fome por fama à história do cinema não para por aí e proporciona uma releitura moderna da Mulher de 15 Metros (1958) ao começo do episódio 5 — e é de se espantar que a trama enfim tenha chegado a algum truque visual impressionante e, de fato, engraçado.
O valor de entretenimento, porém, se choca com o discurso da série. Até o Papa do Trash, John Waters, já disse que parte essencial de seu trabalho é o afeto pelas personagens que ridiculariza, e é difícil saber se Levinson sente algum carinho por Cassie e outras profissionais do sexo, ou se deseja apenas humilhá-las repetidamente, abordagem que é não só misógina, como não se encaixa em uma série que já dedicou episódios inteiros para esclarecer a humanidade de cada um de seus complexos adolescentes — até mesmo aqueles que cometem atos cruéis, como Nate (Jacob Elordi), hoje reduzido a um homem unidimensional e patético.
Para além da trama contraditória, há pouco para comentar. Jules (Hunter Schafer), Maddy (Alexa Demie) e Lexi (Maude Apatow) seguem tocando uma nota só. Já Rue (Zendaya), a narradora onisciente e protagonista, está presa em uma entediante guerra entre duas facções criminosas pensadas para emular faroestes, mas que mais parecem retiradas de algum episódio menos memorável de Breaking Bad (2008-2013). A jovem equilibra as contravenções ao desenvolvimento da própria fé cristã e, ao fim do sexto episódio, parece testemunhar um milagre. Resta esperar que, nas duas horas que lhe restam, Euphoria também encontre solução divina.
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