Deputados e vereadores de São Paulo enviaram ao menos R$ 7,7 milhões em emendas parlamentares para entidades ligadas à produtora cinematográfica Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os dados constam em denúncias feitas pelos deputados federais Tabata Amaral (PSB-SP) e pastor Henrique Vieira (PSol-RJ) e em dados de transparência do governo e da Prefeitura de São Paulo.

Na última sexta-feira (15/5), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de uma apuração preliminar para investigar possíveis irregularidades na destinação de emendas para projetos ligados ao ecossistema de entidades comandadas por Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora do filme.

Além da Go Up, são citados o Instituto Conhecer Brasil (ICB), Academia Nacional de Cultura (ANC) e Conhecer Brasil Assessoria. A apuração busca informações sobre recursos enviados via emendas de parlamentares do PL, como os ex-deputados federais Alexandre Ramagem (RJ) e Carla Zambelli (SP) e os deputados federais Marcos Pollon (MS), Bia Kicis (DF) e Mario Frias (SP).

Frias é produtor executivo e roteirista de Dark Horse e enviou, segundo a denúncia de Tabata, R$ 2 milhões em emendas para o Instituto Conhecer Brasil – R$ 1 milhão para um projeto de “letramento digital” e outro R$ 1 milhão para um projeto esportivo.

Desde o mês passado, oficiais de Justiça tentam cumprir uma determinação de Dino e intimar o deputado a prestar esclarecimentos sobre as emendas a empresas da produtora artística responsável pelo filme.

Além dos citados na apuração de Dino, levantamento feito pelo Metrópoles aponta que, no final de 2023, a deputada estadual Valéria Bolsonaro (PL) enviou emenda de R$ 100 mil para o Instituto Conhecer Brasil para aquisição de equipamentos.

Outro deputado bolsonarista da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Lucas Bove (PL), indicou uma emenda de R$ 213 mil também para o Instituto Conhecer Brasil, voltado a projetos esportivos, mas o repasse foi impedido por razões técnicas.

Já o deputado Gil Diniz (PL), um dos principais aliados de Eduardo Bolsonaro em São Paulo, destinou R$ 200 mil à Academia Nacional de Cultura para custear parte da produção da série documental Heróis Nacionais – filhos do Brasil que não se rende, o mesmo destino de uma emenda de R$ 1 milhão enviada por Zambelli.

A denúncia de Tabata, que deu origem ao pedido de investigação de Flávio Dino, ainda cita duas emendas que somam quase R$ 3,6 milhões enviadas pelo ex-vereador da capital Atílio Francisco, com base em reportagem do The Intercept Brasil. O dinheiro seria utilizado para um evento literário gospel e outro evento de dança.

Ao menos outros dois vereadores de São Paulo tiveram emendas de sua autoria liberadas para a Conhecer Brasil no ano passado. Indicada por Cris Monteiro (Novo), uma emenda de R$ 100 mil foi liberada para uma oficina de tecnológica voltada a jovens. Outra emenda, de R$ 750 mil e de autoria de André Santos (Republicanos), foi destinada à entidade para a realização de um congresso de inovação em educação.

Mário Frias, por meio de sua assessoria, negou qualquer irregularidade. Em nota, Cris Monteiro disse que a emenda teve como único critério o mérito do projeto apresentado. “A destinação da emenda seguiu análise técnica do projeto, que foi integralmente executado. A vereadora desconhece qualquer vínculo entre o Instituto Conhecer Brasil e a produtora mencionada na reportagem”, afirmou.

Já Lucas Bove disse que recebeu um “projeto que parecia interessante”, porém redirecionou o recurso por “questões documentais do proponente”. A reportagem busca contato com os outros citados. O espaço seque aberto.

Master x Dark Horse

A decisão de Dino também ocorre em meio à revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro para Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a viabilização da obra cinematográfica.

Informações preliminares apontam que o banqueiro teria prometido ao parlamentar R$ 134 milhões para ajudar no filme. Até o momento, entretanto, os comprovantes apontam o repasse de R$ 62 milhões.



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