Excelente a entrevista concedida pelo presidente Lula a Marina Dias, do “Washington Post”. O fio condutor da conversa são as relações entre Brasil e EUA — ou, especificamente, entre Lula e Trump, com foco especial na cordialidade, que não é óbvia, entre os respectivos chefes de Estado dos dois países. Tratarei dessa questão em outro texto. Neste, chamo a atenção para uma declaração do presidente brasileiro sobre um desafio que está posto para as democracias mundo afora.

“A DEMOCRACIA FALHOU”
Lula afirma:

“A democracia falhou quando deixou de responder às aspirações mais básicas das pessoas. Então, qualquer idiota que fale contra o sistema recebe aplausos. Isso está acontecendo no mundo todo.”

O diagnóstico é impecável, e há especialistas importantes que hoje pensam essa questão. Antes que avance, uma nota à margem. Certamente colabora para a excelência a que me referi a disposição de Marina Dias de deixar claro o pensamento do entrevistado, sem a pretensão de tentar demonstrar, como acontece às vezes por aqui, que se está a fazer um favor a quem é ouvido. Destaco: a jornalista se saiu igualmente bem na conversa com Flávio Bolsonaro — um feito, a seu modo, muito mais notável. Nos dois casos, os respectivos entrevistados se revelaram. Sigamos.

“O POVO CONTRA A DEMOCRACIA”
Lula não está sozinho no diagnóstico sobre a “luta contra o sistema”. O melhor trabalho a respeito, entendo, é o do cientista político Yascha Mounk, um norte-americano por adoção, nascido na Alemanha, no livro “O Povo Contra a Democracia”, publicado no Brasil em 2019 pela Companhia das Letras. Destaco um trecho:

“A América não está sozinha em sua tendência ao liberalismo antidemocrático. Praticamente todas as atuais democracias desenvolvidas apresentam fortes mecanismos tutelares. Muitas questões importantes foram removidas da contestação política por tratados de comércio e agências independentes. Quando a vontade popular se extravia para além dos limites do aceitável, é restringida pelas instituições democráticas, do Supremo Tribunal americano ao Banco Central Europeu. Mesmo em áreas onde os indivíduos permanecem formalmente senhores do próprio destino, os mecanismos para traduzir a opinião popular em políticas públicas estão tão sintonizados com os interesses das elites sociais ou econômicas que a influência do povo sobre seu próprio governo fica severamente limitada.”

Mais:

“No Ocidente, as últimas três décadas foram marcadas pelo papel crescente dos tribunais, agências burocráticas, bancos centrais e instituições supranacionais. Ao mesmo tempo, houve um rápido crescimento da influência dos lobistas, dos gastos com campanhas políticas e do abismo que separa as elites políticas das pessoas que elas deveriam representar. Tomado como um todo, isso efetivamente isolou o sistema político da vontade popular.”

E ainda:

“(…) muitas supostas democracias hoje parecem oligarquias competitivas: mesmo que os debates sobre projetos de lei tenham valor aparente, um processo injusto de criação de políticas públicas dá às elites dominantes uma imensa vantagem na promoção dos próprios interesses.” (obra citada, páginas 118 e 119).

SEM RESPOSTA ATÉ AGORA
Ninguém tem, até agora, resposta para isso. Sintetizo assim a questão: para se proteger do “populismo”  — conceito que foi se alargando a ponto de sempre ser “populista” aquele de quem se discorda —, as democracias foram progressivamente tornando menos relevantes o processo eleitoral.

Com o advento das redes, a voz surda das ruas, de modo desorganizado e ao arrepio de partidos ou de entes estruturados para intervir nas políticas de Estado, emergiu para manifestar suas insatisfações no processo eleitoral. E, é inequívoco, a extrema direita colonizou primeiro a terra devastada. E, por óbvio, aquelas elites que encontram na democracia formal a plena satisfação de seus pleitos e de suas ambições também capturam e financiam esses, na definição do nosso Caetano Veloso, “palhaços macabros”.

Ou alguém imagina, para ficar no exemplo brasileiro, que o bolsonarismo, fingindo ser “antissistema” não é o instrumento mais servil que poderia ter o… “sistema”? Se alguém tem dúvida, melhor ouvir o áudio que Flávio mandou a Daniel Vorcaro cobrando alguns milhões para o tal filme “Dark Horse”.

NÃO HÁ UM EMPATE
Alguém poderia observar: “Ora, se a democracia foi capturada pelas elites e se estas, de igual modo, alimentam a extrema direita, tem-se um empate…” A resposta é “não”.

A diferença está, e isto é relevantíssimo, nos valores da liberdade, da tolerância, da pluralidade, que são garantidos num caso e destruídos no outro.

A extrema direita é muito hábil em criar a ideia de que o povo vive uma “democracia sem direitos”. Na página 61 de seu livro, Mounk transcreve trecho do discurso de Trump na Convenção Republicana de 2016:

“Não é de admirar, assim, que o discurso de Trump na Convenção Nacional do Partido Republicano tenha batido inúmeras vezes nessa tecla. ‘Os grandes negócios, a mídia de elite e doadores gigantes estão por trás da campanha da minha adversária [Hillary Clinton] porque eles sabem que ela vai manter esse sistema corrupto que está aí’, disse ele no começo do discurso. ‘Estão dando um monte de dinheiro pra ela porque eles têm controle total de tudo que ela faz. Ela é a marionete deles, eles puxam as cordinhas.’
Mas as coisas não precisam ser tão ruins assim. ‘Os problemas que enfrentamos hoje — pobreza e violência no país, guerra e destruição no exterior — vão durar apenas enquanto continuarmos a confiar nesses mesmos políticos que os criaram’, prometeu.
Para recomeçar do zero, “uma mudança de liderança se faz nécessária”. Essa liderança, garantiu Trump, enfim priorizaria o americano comum: ‘A diferença mais importante entre nosso plano e o de nossa adversária é que nosso plano vai pôr a América em primeiro lugar. Americanismo, não globalismo, vai ser nosso credo’.
Tendo desse modo preparado o público, Trump pôde em seguida lançar sua mensagem principal, que voltaria como um estribilho ao longo de sua fala. Por tempo demais os homens e as mulheres comuns haviam sido esquecidos. Eles ‘não tinham mais voz’. Mas, afirmou Trump, ele mudaria isso: ‘EU SO A SUA VOZ’”. (livro citado, páginas 61 e 62).

RETOMO
Não é preciso fazer grande esforço para perceber que a, digamos, metafísica do discurso de Trump de 2016 compõe a cosmovisão da extrema direita mundo afora, inclusive por aqui. Trata-se de uma retórica falaciosa — ou alguém aí vê os reacionários como elementos de resistência ao “sistema”, para recorrer a vocábulo empregado pelo presidente?

Coloquemos as coisas em termos presentes. Quando veio a público o áudio em que Flávio cobra de Vorcaro os milhões restantes para fazer, para todos os efeitos, o tal filme, a Bolsa caiu, e o dólar disparou. A dita “Faria Lima”, para insistir nessa já consagrada metonímia, vê no Zero Um o  verdadeiro garantidor do “SEU SISTEMA”. Eis aí o paradoxo que está posto para as democracias: aqueles que defendem suas conquistas e seus fundamentos são confrontados por uma massa desorganizada que se manifesta nas redes e se ressente, não sem razão, de intervir muito pouco no poder político.

Não obstante, as forças que mais se aproveitam desse desgaste não são os grupos progressistas que, então, poderiam concorrer para tornar, se me permitem, mais “democrática a democracia”. Ao contrário: é a extrema direita, “os idiotas” de que fala Lula, que reivindicam falar “conta o sistema”.

Vejam, então, que coisa fabulosa: o “progressista” e “esquerdista” Lula é, no fim das contas, quem fala em nome dos valores que garantiram o triunfo do capitalismo com democracia. Ocorre, meus caros, que não são poucos os que hoje consideram — e Trump e as “big techs” não me deixam mentir — que o sistema funciona com ainda mais eficiência sem… democracia. Por isso, digo, sem medo de errar, que, neste 2026, mais uma vez, não estamos diante de uma disputa entre dois entendimentos essencialmente distintos sobre a economia — exceção feita a um acento maior ou menor da intervenção do Estado; em si, irrelevantes.

A disputa essencial continua a ser entre “democracia” e “não democracia”; entre, ora vejam, “capitalismo liberal” — com Lula — e capitalismo iliberal: todos os candidatos da extrema direita, com Flávio na liderança.

PREFÁCIO BRASILEIRO
No prefácio à edição brasileira de “O Povo Contra a Democracia”, Mounk escreveu:

“É fundamental que os brasileiros não cometam o mesmo erro: Bolsonaro é o adversário mais poderoso que a democracia brasileira enfrenta em meio século, e seus partidários são cidadãos que, como você, terão que compartilhar o país por uma década ou até um século. Não o subestime e não menospreze essas pessoas.
“(…) os opositores dos populistas muitas vezes deixam de trabalhar unidos até se verem juntos na impotência. Na maioria dos países, os populistas só alcançam o cargo máximo porque seus adversários fracassam em concluir um pacto eleitoral. E embora seja natural presumir que a ameaça autoritária possa nos ajudar a enxergar as coisas com mais lucidez, o oposto geralmente se mostra verdadeiro: aflitos e apavorados, os adversários do populista começam a fazer o jogo político da pureza, impondo testes ainda mais decisivos a seus potenciais parceiros e recusando-se a abraçar antigos aliados do populista dispostos a lhe dar as costas.”

Mais um pouco:

“Todos os brasileiros que reconhecem o perigo representado por Bolsonaro e estão comprometidos tanto com a liberdade individual como com a autodeterminação coletiva precisam trabalhar juntos, a despeito de suas enormes diferenças políticas. Você poderá voltar à luta por taxas de impostos mais justas ou debater os limites do Estado de bem-estar social depois que esse perigo iminente tiver sido afastado. Por ora, é preciso união — ou sujeitar-se à cisão. (páginas 11 e 12).”

ENCERRO
Valia para o pai; vale para o filho…

Erros — na verdade, escolhas ideológicas — já estão em curso por aqui: basta o ver o esforço que se faz no colunismo “extremista de centro” para ver em Flávio um “bolsonarista moderado” — ou, como ele próprio diz, “vacinado”. Em entrevista à Folha no dia 14 de junho do ano passado, ameaçou o Supremo com o uso da força se chegar ao poder. Não retirou a ameaça. Mas é tratado como um “moderado” ainda assim.

No espetacular “A Anatomia do Fascismo”, Robert Paxton observa que os fascistas só conseguem, de fato, vencer quando contam com a anuência de setores das elites que, embora não simpatizem muito com os fascistas, acreditam que podem tolerá-los e, no limite, conduzi-los por caminhos razoáveis e aceitáveis. Nunca deu certo. Mas pensem bem: se os fascistoides garantem os “negócios”, por que os donos da grana não veriam com condescendência e, mais do que isso, com simpatia o ódio que eles têm à democracia? Sem ela, fazem-se negócios com mais rapidez. Perguntam-se intimamente: “Liberdade pra quê?” Por isso a Bolsa caiu e o dólar subiu quando Flávio ficou nu.

Pedi à IA que simulasse um passeio nos jardins da Universidade Johns Hopkins emtre os professores Robert Paxton e Yascha Mounk. E acrescentei à ilustração seus respectivos livros, citados neste artigo



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