A pesquisa Datafolha tornada pública neste sábado indicando empate em 45% entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em simulação de segundo turno já nasceu morta. Que sentido faz divulgar números colhidos antes do fabuloso caso “Flávio-Dark Horse-Master”?
O levantamento é mais útil para testar, queridos leitores, seu nível de açúcar, de colesterol e de triglicérides do que para indicar a disposição do eleitorado. Ou quem sabe possa ainda contribuir para baixar a pressão arterial de Flávio… No limite, use os dados como esterco do seu jardim. Afinal, como queria Cândido, de Voltaire, “é preciso cultivar nosso jardim”…
Escreve a Folha:
“O presidente Lula (PT) seguia empatado com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na simulação de segundo turno das eleições presidenciais até a divulgação de conversas entre o parlamentar e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mostra pesquisa Datafolha. O levantamento foi realizado na terça (12) e na quarta-feira (13). A maioria das entrevistas foi feita antes da revelação, pelo site Intercept Brasil, das conversas entre o filho de Jair Bolsonaro (PL) e o então dono do Banco Master.”
Foram realizadas 2.004 entrevistas. Informa o jornal que a “maior parte” é anterior ao caso: essa “maior parte” podem ser até 2.003 ou no máximo 1.003. No primeiro caso, a revelação teria sido irrelevante; no segundo, irrelevante é a pesquisa. A própria manchete da página deixa claro: “Datafolha: Lula empata com Flávio antes de caso ‘Dark Horse’ e abre vantagem sobre Zema e Caiado”. O veredito é fatal: trata-se de uma irrelevância — a não ser informar, claro, que os outros dois extremistas de direita da disputa perderam tração.
“TRACKINGS”
O troço é complicado. O “tracking” que o próprio PL faz aponta, por ora, um efeito devastador na candidatura do dito Zero Um. É tão ruim que o governador Tarcísio de Freitas até ficou gripado e não compareceu a um evento com Flávio, neste sábado, em Sorocaba. Bem, uma coisa, portanto, já se sabe: se a pesquisa serve para medir açúcar, colesterol, triglicérides e como fertilizante, não é útil para combater nem resfriado de aliado colhido de surpresa pelas lambanças dos Irmãos Bolsonaros.
Não sei, reitero, quantas foram as entrevistas feitas no próprio dia 13. Mas o efeito devastador para os reaças era um tanto tímido no começo da tarde, ganhou vulto rapidamente e se tornou alarmante, a ponto de setores do próprio bolsonarismo e do PL cogitarem a substituição do candidato.
Há mais: no dia 15, ontem, enquanto o Datafolha fechava os seus dados para brindar o público com uma pesquisa natimorta, o Intercept trazia à luz que o fundo Havengate — que, segundo Flávio, foi criado exclusivamente para financiar o filme — tinha o próprio Eduardo como um dos gestores. A informação de que o responsável era um advogado do ex-deputado (e já seria grave o bastante), um certo Marcelo Calixto, era, pois, apenas parcialmente verdadeira. Mais: O Zero Três também figura como um dos financiadores de obra que, sabemos, traz diálogos que já assombram o mundo das, bem…, “artes”.
Neste sábado, a própria Folha informa que um outro fundo ligado a Calixto, o Mercury Legacy Trust, acaba de adquirir um imóvel no Texas, onde mora Eduardo, pelo correspondente a R$ 3,6 milhões. Não custa lembrar: a produtora GO UP ainda não desmentiu a informação de que não recebeu dinheiro vindo de Vorcaro. Explicação dos valentes: o nome do ex-banqueiro realmente não aparece porque, afinal, o dinheiro vem do tal Havengate. Ah, bom.
“Tracking” diário feito pelo Instituto Atlas apontava na sexta, às 11h, que, nos votos válidos, Lula havia aberto uma diferença de oito pontos sobre Flávio no segundo turno. A julgar pela gestão que os patriotas estão fazendo da crise — raramente os vi tão atrapalhados —, Tarcísio ainda acabará alegando espinhela caída para ficar longe da radioatividade emanada por Flávio. Já percebeu que, a cada dia, terá de haver uma explicação nova. Afinal, o candidato enrolado já disse não saber se pode aparecer algum vídeo por aí…
NÃO PERCA DE VISTA
E sabem o que é também espantoso em tudo isso? Financiar filme ou receber financiamento não são tipos penais. A dificuldade para Flávio, pai e irmãos é que o núcleo duro da extrema direita não sabia de nada. Nem os íntimos — chego a duvidar de que até Carlos tivesse inteiro domínio da coisa… Ele parece um tanto nervoso para certas “artes” em que Flávio é especialista. Dadas as conversas, parece que Vorcaro e seu entorno realmente pensavam estar financiando um filme — a valores fabulosos e certamente para ficar numa boa também com a família.
A questão é saber: o dinheiro foi mesmo para o filme? A Go UP diz que não. Financiamento ilegal de campanha, mesmo pré-campanha, é crime. Estamos na esfera penal. Na esfera eleitoral, essa captada pelos institutos de pesquisa, as coisas se complicaram. O bolsonarismo sempre fez crer que intimidade com o Banco Master era coisa dos adversários, ainda que seus aliados fossem os mais próximos do caso. Com a revelação do áudio e os dados que vieram posteriormente, Flávio e Eduardo têm de dar explicações. E, convenham, quanto mais explicam, pior a coisa fica. O candidato do PL diz que não tem de ficar se justificando. Aguarda-se uma pesquisa, então, que meça algo mais do que colesterol, triglicérides e açúcar no sangue ou sirva como fertilizante de jardim.
ENCERRO
Lula abrirá uma vantagem consistente sobre Flávio? Não faço previsões nem predições. Antes disso tudo, escrevi aqui e disse no programa diário neste “Metrópoles” e na BandNews FM/TV que Lula seguia favorito, mesmo com algumas pesquisas apontando a liderança do candidato do PL. A avaliação leva em conta o efeito, ainda por vir, de medidas do governo e a campanha propriamente. Por enquanto, o presidente apanha todo dia, inclusive da imprensa, e seu adversário vinha embalado na onda do “bolsonarista vacinado”, falsa como nota de R$ 3. Mas jamais se ignore, claro!, que é uma gente, vá lá, resiliente…
O episódio do áudio cutuca a biografia dessa personagem inventada para consumo eleitoral e que segue sendo golpista, conforme entrevista concedida à Folha em 14 de junho do ano passado e nunca retirada, em que ameaça o Supremo com o uso da força. Com o caso de agora, a ferida da “rachadinha” se abriu, não é? Neste sábado, houve por bem associar Lula ao demônio. Faz sentido tentar deslocar a disputa para as coisas do outro mundo. Nas deste mundo, as coisas se complicaram para ele. Quanto ao Datafolha, lembro: “É preciso cultivar nosso jardim”.