“Está tudo muito caro; os preços estão pela hora da morte; só o governo vê queda da inflação.”

Frases como essas se repetem em filas de supermercados, feiras, padarias e farmácias.

Elas traduzem a frustração de quem, ao pagar as compras, percebe que a renda já não compra a mesma quantidade de bens e serviços de antes – a distância, no cotidiano, entre o que mostram os indicadores de inflação e o custo efetivo de manter o padrão de consumo.

Do ponto de vista técnico, inflação é o aumento generalizado e contínuo dos preços. No Brasil, é medida oficialmente pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Custo de vida, por sua vez, é quanto uma família precisa gastar para sustentar seu padrão de consumo em determinado local.

O problema é que, mesmo com a redução do desemprego e a alta da renda e da massa de rendimentos nos últimos anos, o ganho tem sido insuficiente para recompor o poder de compra.

Como economia e política se misturam, emerge o paradoxo do governo atual: embora entregue números macroeconômicos positivos – PIB (Produto Interno Bruto) em crescimento (ainda que com juros elevados), queda do desemprego, valorização do salário mínimo e renda em expansão -, enfrenta baixa aprovação, porque a percepção das famílias é de aperto no orçamento.

A inflação medida pelo IPCA em 12 meses até abril deste ano, segundo o IBGE, foi de 4,39%. O índice é maior que os 4,26% acumulados até dezembro de 2025 e que os 4,14% até março, mas menor que os 4,68% registrados em 12 meses até abril do ano passado.

Na linha do tempo, apesar de rodar acima do centro da meta (3%), é razoável dizer que a inflação está sob controle e que a política monetária tem evitado uma escalada generalizada de preços.

Para Rodrigo Simões, diretor do Núcleo de Estudos da FAC-SP (Faculdade de Comércio de São Paulo), ligada à ACSP (Associação Comercial de São Paulo), a leitura popular faz sentido porque a inflação não mede o nível de preços, e sim a velocidade do aumento.

“Todo mundo incorpora o aumento de um preço na mão de obra, no aluguel, na logística, e muitas vezes isso não volta ao patamar anterior. Tudo permanece mais caro, porque, depois do aumento, não se consegue sair reduzindo os preços”, afirma.

Outro fator é que, embora a renda cresça, muitas vezes o custo de vida avança mais rápido. “Há uma diferença negativa: o custo de vida, proporcionalmente, cresce mais do que o salário”, diz Simões.

Levantamento do professor, a pedido do Broadcast – sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado e parceiro de conteúdo do CNN Money -, aponta que, de 2011 a 2025, o valor da cesta básica variou 205,1%, de R$ 277,27 para R$ 845,95, enquanto o salário mínimo subiu 178,5%, de R$ 545,00 para R$ 1.518,00.

Em 2011, a cesta consumia 50,88% do mínimo; em 2025, 55,73%. “Ficou mais caro comer, e as pessoas deixaram de consumir outras coisas.”

Em abril, de acordo com a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada em parceria entre o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o valor da cesta variou de R$ 619,32 em Aracaju (SE) – o menor – a R$ 906,14 em São Paulo – o maior.

De março para abril, a cesta subiu 3,49% em Aracaju e 2,51% em São Paulo.

Na capital paulista, para comprar a cesta, o consumidor desembolsou em abril o equivalente a 60,43% do salário mínimo de R$ 1.621,00.

Com base no valor da cesta em São Paulo, a mais cara do País, Dieese e Conab estimam que o salário mínimo deveria ser de R$ 7.612,49 para cobrir as despesas de uma família com moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, conforme a previsão constitucional.



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