Se até a última semana os questionamentos a Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre o escândalo do Banco Master se restringiam à doação de R$ 2 milhões para sua campanha por Fabiano Zettel, cunhado e braço direito de Daniel Vorcaro, nos últimos dias o governador de São Paulo passou a conviver com o avanço das suspeitas contra aliados próximos, como Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Ciro Nogueira (PP-PI), no caso de corrupção mais explosivo da atualidade no Brasil.
A maior “bomba” ocorreu na última quarta-feira (13/5), quando veio à tona conversas em que Flávio, pré-candidato à Presidência da República, cobra Vorcaro o pagamento de pendências de um patrocínio ao filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O banqueiro, que está preso desde novembro do ano passado, chegou a pagar R$ 61 milhões à produção.
No dia em que saiu a notícia, Tarcísio – que é coordenador da pré-campanha de Flávio em São Paulo – se negou a comentar o assunto ao ser questionado em uma coletiva de imprensa. No dia seguinte, falou do caso e minimizou o impacto que a denúncia pode ter na campanha. Disse, porém, que Flávio “precisa continuar dando esclarecimentos”.
“O Flávio imediatamente procurou dar todos os esclarecimentos, entrou em campo, falou do que se tratava. Eu acho que ele precisa continuar dando os esclarecimentos à medida que as perguntas forem aparecendo, que é fundamental que todo mundo tenha segurança na relação do que aconteceu e ele possa continuar fazendo o que ele fez ontem. Deu a cara a tapa, foi lá, falou, se pronunciou e procurou explicar o que aconteceu”, afirmou.
O Metrópoles mostrou que a gestão Tarcísio alugou espaços do governo paulista para a gravação de cenas de Dark Horse. A produção do filme alugou espaços do Museu das Favela, por R$ 57 mil, e do Memorial da América Latina, por R$ 125,9 mil, ambos equipamentos estaduais.
Panos quentes
O entorno do governador tem avaliado que o desgaste de Flávio não deve respingar de forma significativa na campanha de Tarcísio. “Campanha de reeleição é plebiscito sobre aprovação da gestão. Esta questão não irá interferir”, disse um integrante do governo próximo ao governador.
Fontes do Palácio dos Bandeirantes, no entanto, relatam que Tarcísio ficou incomodado com a revelação do contato entre Flávio e Vorcaro e demonstrou irritação em reuniões internas com auxiliares. Antes mesmo da revelação dos contatos, Tarcísio já dizia a interlocutores que considerava a candidatura do senador carioca a mais frágil entre as possibilidades dentro do bolsonarismo.
A falta de química entre Flávio e Tarcísio reverberou nessa sexta-feira (15/5), quando a gestão Tarcísio desclassificou a agência Cálix da licitação para comandar a comunicação do governo, atendendo a recurso protocolado por outras empresas concorrentes. Vencedora do certame, a Cálix pertence ao empresário Marcello Lopes, conhecido como Marcelão, amigo de Flávio e escolhido pelo senador para coordenar a comunicação de sua campanha à Presidência.
Lopes foi citado, ao lado de Thiago Miranda, dono da agência Mithi, como um dos estrategistas contratados por Vorcaro do chamado “Plano DV”, de ataques ao Banco Central. Marcelão nega qualquer envolvimento na campanha.
Ciro Nogueira
Flávio e Tarcísio estiveram juntos em público, pela primeira vez desde a eclosão da crise, na noite dessa sexta-feira (15/5), em evento de lançamento da pré-campanha de Guilherme Derrite (PP) ao Senado, realizado em Campinas, no interior paulista.
A cerimônia é organizada pelo PP, partido presidido pelo senador Ciro Nogueira, que há menos de 10 dias foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal (PF). Segundo a investigação, Ciro receberia repasses mensais de Vorcaro, que chegaram a R$ 500 mil por mês. A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que foi colega de ministério de Ciro no governo Bolsonaro.
“É um escândalo grave que precisa ser apurado [suspeita de propina a Ciro Nogueira], precisa ser investigado, doa a quem doer. Todas as pessoas que têm envolvimento precisam ser investigadas”, disse Tarcísio após ser questionado durante agenda.
No mesmo dia, o PP cancelou um evento, com presenças previstas de Ciro e o governador, que estava marcado para dias depois, em que a legenda oficializaria o apoio à candidatura de reeleição a Tarcísio. A justificativa foi a agenda do governador. Sua assessoria, no entanto, negou que tenha solicitado alteração.