A academia C4 Gym, na zona leste de São Paulo, reabriu as portas nessa sexta-feira (15/5) após decisão da Justiça. Os proprietários Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração foram indiciados por homicídio com dolo eventual após a intoxicação de alunos na piscina do estabelecimento em 7 de fevereiro deste ano.
Sete alunos foram intoxicados. A professora Juliana Faustino Bassetto morreu aos 27 anos, após sofrer uma parada cardíaca.
A academia estava fechada desde 8 de fevereiro, quando foi interditada preventivamente pela Prefeitura de São Paulo. Na ocasião, a Subprefeitura de Vila Prudente indicou ter encontrado diversas irregularidades no estabelecimento, como a existência de dois CNPJs vinculados à atividade exercida no endereço, falta de Auto de Licença de Funcionamento e situação precária de segurança.
A investigação posterior mostrou que houve armazenamento e manuseio inadequado de cloro, deixando o “ar envenenado”. Juliana foi quem ficou mais próximo do recipiente com a substância, como mostram registros feitos por câmeras de segurança (veja mais abaixo).
A piscina permanece fechada na C4 Gym do Parque São Lucas. A decisão 16º Vara da Fazenda Pública de São Paulo restringe as atividades permitidas apenas às áreas secas da academia.
O Metrópoles busca contato com os representantes do estabelecimento, sem sucesso. O espaço segue aberto para manifestação.
“Indignação e desespero”, diz mãe de vítima
Nivea Bassetto, mãe de Juliana, disse sentir “indignação e desespero diante da falta de respostas concretas para finalizar o processo”.
Segundo ela, o laudo do Instituto Médico Legal (IML) que deve apontar as causas da morte ainda não foi concluído. Uma investigação inicial indicou danos no cérebro, pulmão, fígado e rim de Juliana, mas os peritos sugeriram uma análise de correlação com dados peri-necroscópicos, toxicológicos, de histórico e necroscópicos da jovem.
A mãe destacou que o atraso na conclusão do exame pericial compromete o andamento das ivestigações e impede a punição dos responsáveis. “Enquanto isso, nossa família segue enfrentando silêncio, demora e ausência de esclarecimentos”, declarou.
Irregularidades na academia
Logo após o ocorrido, a academia foi interditada e lacrada pela Vigilância Sanitária e pela Subprefeitura de Vila Prudente. Os órgãos competentes identificaram um risco elevado à saúde humana devido à suspeita de vazamento de gás tóxico.
Em uma das tentativas de inspeção, cinco dias após a morte de Juliana, a equipe da Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) sequer conseguiu entrar no estabelecimento por conta do “fortíssimo cheiro de cloro”. Segundo os vigilantes, o odor era perceptível mesmo do lado de fora do edifício.
Em inspeções realizadas anteriormente, em 2023, os certificados de capacitação para operação de piscina apresentados estavam apenas em nome de dois dos proprietários, e não de quem efetivamente realizava o serviço – o manobrista da academia, incubido de manipular os produtos químicos mesmo sem capacitação.
Os produtos eram armazenados em uma sala de apenas 2 m², com frascos acondicionados diretamente no chão e a presença de uma mistura líquida rosada não identificada em um balde aberto. Mais tarde, foi constatado que a substância apresentou resultado positivo para íon hipoclorito, indicando uma concentração de cloro muito superior à da piscina.
Câmeras de segurança mostraram que Juliana nadou na raia mais próxima de onde o balde com o produto químico foi deixado. Veja o momento em que o recipiente é deixado no local:
Em depoimento, um dos proprietários da academia admitiu que o alvará de licença e funcionamento da prefeitura para a academia estava vencido.
Polícia Civil investiga
O caso é investigado por meio de inquérito instaurado no 42º Distrito Policial, no Parque São Lucas. Os três sócios-proprietários da academia — Cézar Augusto Miquelof Terração, César Bertolo Cruz e Celso Bertolo Cruz — foram indiciados por homicídio e por expor a vida ou a saúde de outrem a perigo. A autoridade policial pediu pela prisão temporária do trio, o que foi negado pela Justiça.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), a apuração busca esclarecer as circunstâncias do crime e a participação dos envolvidos. A pasta destacou que diversas pessoas foram ouvidas ao longo da investigação, incluindo vítimas, testemunhas e partes relacionadas à academia.
“A investigação segue em andamento, sob acompanhamento do Departamento de Inquéritos Policiais (DIPO), com diligências voltadas às devidas responsabilizações e esclarecimentos”, finalizou a SSP em nota.




