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A expectativa sobre o resultado das eleições é uma constante no mundo econômico. Em sucessivos eventos promovidos em torno da premiação do Person of the Year, em Nova York, o tema era as pesquisas eleitorais e as tendências. Todos queriam saber para onde o Brasil irá com o novo presidente. O recente desempenho de Lula surpreendeu alguns em Wall Street, mas não todos. Outros se mostravam decepcionados com as últimas notícias. De fato, nos últimos tempos, parte expressiva dos analistas de mercado começou a considerar a eleição presidencial praticamente decidida em favor de Flávio Bolsonaro. Essa leitura, contudo, padece de um vício recorrente: tenta projetar de forma linear um processo que, por natureza, é descontínuo, contingente e sensível a circunstâncias. Enfim, a campanha ainda está em seu estágio inicial. As eleições serão submetidas aos fatos novos. O vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o filme que conta a história de Jair Bolsonaro, por exemplo, já repercute nas preferências eleitorais e prova a letalidade de certas novidades para os candidatos. O que se observa agora é um instantâneo, construído a partir de pesquisas preliminares, movimentos incipientes de aliança e, sobretudo, expectativas. Ainda não é um filme.

A experiência recente do Brasil recomenda cautela diante de diagnósticos apressados. Em sistemas complexos e com elevada tensão entre poderes, a decisão do eleitor tende a ser moldada mais por eventos do que por tendências consolidadas. Nesse cenário, o conflito institucional entre Executivo, Legislativo e Judiciário não funciona apenas como pano de fundo. Ele interfere diretamente na formação das percepções. A sensação de instabilidade, atrito e imprevisibilidade leva o eleitor médio a ponderar não apenas as propostas, mas a capacidade de governar e de pacificar o país que cada candidato é capaz de demonstrar.

“Vazamentos, investigações e delações reconfiguram o tabuleiro em poucos dias”

Soma-se a isso o fato de que as eleições têm sido marcadas por ondas de revelações. Vazamentos, investigações e delações reconfiguram o tabuleiro em poucos dias. Em um ambiente hiperconectado e judicializado, esses episódios deixam de ser acessórios e tornam-se centrais. Convém lembrar que os dois nomes mais conhecidos do páreo carregam fragilidades evidentes. Lula enfrenta o desgaste próprio de quem governa, a necessidade de reconstruir sua base de apoio e a permanente exposição institucional. Além de lidar com as contradições de um governo que nunca se afirmou. Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa consolidar-se como liderança nacional e administrar o legado e as controvérsias do seu grupo político. Além de lidar com potenciais conexões políticas perniciosas. O vazamento de sua conversa com Daniel Vorcaro sobre apoio ao filme da vida de Jair Bolsonaro é muito ruim junto ao eleitorado não bolsonarista.

Diante desse quadro, a conclusão mais prudente é que não há espaço para cravar o desfecho. Lula segue como favorito, mas o páreo está longe de ser decidido. A escolha do eleitor será resultado de uma combinação de fatores institucionais, eventos relevantes e percepções de risco. No limite, a eleição de 2026 será decidida mais pelos detalhes do que pelas grandes narrativas. E, como a política ensina, são os detalhes, frequentemente imprevisíveis, que alteram trajetórias supostamente consolidadas.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995



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