Quando Andy Robin disse à esposa que queria criar um urso em casa, a reação de Maggie foi inesperada: ela apoiou a ideia. Pouco tempo depois, o casal adotava Hércules, um filhote de urso-pardo que cresceria até alcançar mais de 2,5 metros de altura — e se tornaria inseparável da família.
A adoção
Para o casal, que vivia em Sheriffmuir, na Escócia, a experiência transformou completamente a rotina. Os dias começavam com café da manhã ao lado do “filho” de 190 kg e seguiam entre brincadeiras, treinos e a convivência incomum com um urso dentro de casa.
“Lembro-me da primeira vez que Andy me disse: ‘O que você diria se eu lhe contasse que estou pensando em adotar um filhote de urso?’ O que eu jamais imaginei foi a vida que teríamos, que isso se transformaria em uma relação mágica”, contou Maggie a um portal britânico.
Na época, Andy — 15 anos mais velho que a esposa — trabalhava como lenhador e era campeão de luta livre. A ideia surgiu após uma viagem ao Canadá, onde recebeu uma proposta de US$ 1 mil para lutar com um urso-pardo. O encontro despertou nele o desejo de criar um animal da espécie.
Apelidado de Herc, o urso chegou à casa da família aos nove meses de idade. O casal o encontrou em um zoológico da Escócia e concluiu a adoção em 31 de agosto de 1975, pagando US$ 67. Entre os três irmãos que viviam no recinto, Hércules foi escolhido pelo temperamento mais calmo e afetuoso.
A convivência
Ainda assim, a adaptação exigiu paciência. No começo, o “pet” era arisco e só permitiu que Maggie o acariciasse após dois meses. “Quando você tem a oportunidade, seja com uma criança ou um animal, eles são completamente inocentes. Nunca foram traídos, ninguém nunca os machucou. Cabe a você mantê-los assim”, afirmou a tutora.
Quem imagina que o urso vivia apenas no quintal se engana. Hércules acompanhava o casal em praticamente todos os lugares: frequentava o pub administrado por Andy e Maggie, participava dos shows de luta livre e interagia com o público durante os passeios. Entre os comportamentos, chegou até a desenvolver uma bebida favorita: limonada com um toque de cerveja.
Episódio que marcou
No auge da fama, durante os anos 1980, Hércules foi convidado para estrelar um comercial de papel higiênico nas Hébridas Ocidentais, arquipélago na costa oeste da Escócia. Antes das gravações, Andy decidiu nadar com o urso nas águas da região. O passeio, porém, terminou em tragédia quando a corda presa ao pescoço do animal se soltou e ele desapareceu no mar.
Após 24 dias de buscas envolvendo centenas de voluntários, Hércules finalmente foi encontrado — extremamente debilitado e com menos da metade do peso. “Hércules parecia um casaco de pele vazio. Ele estava em péssimo estado, muito, muito frágil”, relembrou Maggie sobre o reencontro com o animal.
Moradores da ilha se mobilizaram para ajudar na recuperação e chegaram a coletar mais de 50 litros de leite das próprias vacas para alimentar o urso. “Foi isso que finalmente reanimou Hércules”, contou. Depois de voltar para casa e recuperar a saúde, o animal ficou ainda mais famoso e se transformou em uma celebridade internacional.
A repercussão levou Hércules a viajar por países como Estados Unidos e Japão, além de participar de programas de televisão, filmes e eventos públicos. Entre as aparições mais conhecidas está uma participação em Octopussy, longa da franquia James Bond, lançado em 1983.
O urso é o melhor amigo do homem?
Com o passar dos anos, porém, os problemas de saúde começaram a surgir. Já nos anos 2000, Hércules sofreu uma lesão na coluna que deixou suas patas traseiras paralisadas. “Todos os dias, eu o fazia nadar na piscina. Ele caminhava de um lado para o outro até gastar as solas dos sapatos”, comentou a mulher.
Apesar da melhora, Hércules morreu aos 25 anos, vítima de um abscesso nas costas. Para Maggie, o urso deixou um legado que ultrapassou a própria história inusitada da família. “Hércules desafiou todas as adversidades e tudo o que lhe disseram. E provou que, com bondade e amor, tudo é possível”, declarou.
Quase duas décadas depois, em 2019, Andy também morreu, aos 84 anos. Os dois foram enterrados em Uist, próximo ao local onde Hércules havia desaparecido cerca de 40 anos antes. O memorial reúne uma lápide dedicada ao treinador e uma escultura em tamanho real do urso, onde permanecem seus restos mortais.
Segundo a viúva, o local ganhou um novo significado ao longo do tempo: “Quando venho visitar, não consigo evitar sorrir. Penso muito. É um lugar lindo”. Para ela, a relação entre Andy e Hércules era algo raro. “O vínculo dos dois era extraordinário. Se alguém estava destinado a ser um urso, era Andy. E se alguém estava destinado a ser humano, era Herc”, concluiu.