As diferenças de estilos estão mais evidentes do que nunca na cúpula de Pequim. Um Donald Trump cheio de ruído, controvérsia, narcisismo e agitação de um lado; do outro, um Xi Jinping cuidadoso, estratégico e silenciosamente ambicioso (um “rei filósofo”, exagerou o New York Times, na ânsia de deixar o presidente americano mal na comparação). Mas uma surpreendente pesquisa da Gallup, feita em mais de 130 países e divulgada no mês passado, mostra que existe uma diferença de fundo, mais do que de personalidades, e o próprio regime chinês é hoje visto mais favoravelmente, por 36% dos pesquisados, contra 31% para os Estados Unidos.

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É muito provavelmente o efeito Trump, que chocou o mundo com tarifas arbitrárias e abusivas e política externa agressiva. A diferença é que o presidente americano entrega o poder em 20 de janeiro de 2029, enquanto Xi, que atingiu o ápice em 2013, não tem a menor intenção de largar o osso. A bagunça da democracia pode muitas vezes ser cansativa, mas a ordem do autoritarismo é muito pior.

Isso não significa que ele não tenha feito um trabalho extraordinário para promover o crescimento econômico da China e colocá-la na posição de segunda maior potência mundial, aspirando nada disfarçadamente ao primeiro lugar. Problema: Xi nunca foi testado na mais básica das provas, a das urnas. Nunca saberemos se os chineses livremente endossariam a sua gestão.

Quanto a Trump, é possível que me menos de seis meses perca a maioria no Congresso e se torne um pato manco, um presidente que a caminho do fim do mandato, que não aprova nada. O equilíbrio entre os poderes também já limitou, por decisão da Suprema Corte, um dos instrumentos fundamentais da política comercial que havia traçado com a imposição de tarifas excessivas para, no final do jogo, chegar a uma taxa de 10% ou pouco mais do que isso. Alguém imagina juízes independentes restringindo a liberdade de ação de Xi Jinping?

AS CARTAS DE CADA UM

A pesquisa da Gallup mede há vinte anos a favorabilidade de quatro potências econômicas e militares: Estados Unidos, China, Rússia e Alemanha (a Rússia ficou com 28% nessa última). Regularmente, a Alemanha, limitada em sua política externa e na desenvoltura militar por motivos históricos, tem o maior índice de aprovação. Na pesquisa feita ao longo de 2025 e divulgada em abril, o país tem 48% de avaliações positivas.

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Os Estados Unidos já chegaram a um índice semelhante, em 2016, quando Barack Obama era presidente, mas caíram para 31% – note-se que a pesquisa foi feita antes da guerra no Irã e do consequente aumento do preço dos combustíveis, dois fatores que possivelmente afetariam o resultado mais negativamente ainda.

Muitos exageros foram divulgados sobre quem tem cartas melhores nessa cúpula entre Trump e Xi. O presidente americano tem contra a pressão por uma solução para a guerra do Irã, as limitações da Suprema Corte à sua política de tarifas comerciais e a necessidade existencial de garantir o suprimento de terras raras, controladas pela China.

Além do mercado consumidor americano, o líder chinês precisa de supercondutores que – ainda – só a tecnologia americana tem e fica em desvantagem na batalha da inteligência artificial. Também tem que desbloquear o petróleo preso no Estreito de Ormuz, um aspecto vital em que pode coincidir com os interesses do presidente americano ou resolver manter o desgaste inevitável que uma guerra inconclusa traz aos Estados Unidos.

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ARMADILHA DE TUCÍDIDES

Veremos entre hoje e amanhã se o encontro produz o efeito retumbante que Trump sempre procura e se Xi, obcecado com a absorção de Taiwan, que definiu como o ponto mais importante da política externa chinesa, negocia o futuro da ilha independente com um presidente americano mais flexível. Ele chegou a falar na “armadilha de Tucídides”, um termo usado por historiadores para defender a inevitabilidade de um conflito entre uma potência estabelecida e outra ascendente. Se a questão de Taiwan for bem administrada, as relações entre China e Estados Unidos “podem continuar estáveis”, afirmou.

“Digo a todo mundo que você é um grande líder – algumas vezes as pessoas não gostam que eu diga isso”, exaltou Trump. “Mas eu digo de qualquer jeito porque é a verdade . Eu sempre digo a verdade”.

A cúpula é apenas um pequeno capítulo na rivalidade histórica que assistimos entre Estados Unidos e China, um movimento muito maior do que os personagens individuais. Mas não deixa de ser curioso que o modelo oferecido por Xi Jinping, de crescimento com ordem, mas sem liberdade, receba hoje mais aprovação do que o sistema que produziu a maior e mais livre potência da história.



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